quinta-feira, 14 de abril de 2011

E depois

Pensamentos ruins são mais grudentos. Qualquer um pode dizer por experiência própria que já esteve pensando em algo negativo por uma ou duas semanas e que simplesmente não conseguia tirar aquilo da cabeça por mais que tentasse. Que os pensamentos pareciam diluir-se na luz do dia, mas vinham à tona com toda a força quando a noite caía. E que durante esse período as coisas em volta pareciam se tornar menos importantes e o desespero por uma distração era assustador. Os pensamentos ruins são desse jeito mesmo, e só somem de vez quando um pensamento maior - e não necessariamente melhor - toma seu lugar.
        E por que eu estou dizendo isso? Porque carrego um pensamento ruim faz mais de um mês, e ele está me corroendo de dentro pra fora. Nada parece fazer diferença, e não há nada que eu possa fazer para aliviar a sensação amarga que me atinge quando o dia escurece.
        O pensamento em questão tem a ver, naturalmente, com a posteridade. É estranho - e até besta - que um garoto de 12 e tantos anos gaste a cabeça pensando nessas coisas, mas acontece. Não sei se tem alguma coisa a ver com o meu signo, mas, algumas semanas atrás, eu comecei a ficar receoso sobre a morte - não sobre o que acontece depois que a gente bata as botas, mas sobre o que eu queria que acontecesse. Eu não sei se iria gostar da eternidade. Não fica chato depois das primeiras centenas de milênios? E se tudo se tornasse escuro e a minha consciência ainda estivesse lá, e ficasse desse jeito pra sempre? E se eu descobrisse que é tudo uma ilusão e que na verdade essa história de universo é coisa da minha cabeça? E se a vida fosse um casulo e eu acabasse me abrindo para uma nova realidade? Se alguém estiver de fato lendo isso, eu provavelmente estarei errado, mas como eu vou saber se é tudo coisa da minha cabeça ou não?
        Depois de umas duas semanas perdido nessa ideia, acabei constatando que era mais provável que a minha consciência se desligasse, e meus sentidos virassem história, e meus pensamentos se esvaecessem, e ponto final. Isso me tranquilizou por um tempo - se eu fizer algo digno de ser lembrado daqui a duzentos anos, ter a consciência desligada e fim de papo parece a melhor alternativa -, mas depois me levou a uma nova cachoeira de filosofias.
        Será que há alguma razão para estarmos todos aqui? Quer dizer, seria ótimo se eu ficasse para a posteridade, mas daqui a um tanto de milênios a humanidade vai deixar de existir e o universo vai continuar como se a gente nem tivesse estado aqui. E talvez o universo acabe, e recomece tudo, ou fique por isso mesmo. O fato é que toda a cultura que nutrimos hoje terá, com muita sorte, sido esquecida no tempo em poucos milhões de anos. E nós ainda nos preocupamos em viver, mesmo sabendo disso tudo. Por quê? Qual é o propósito disso? Ficar para a história é uma coisa temporária.
        Bom, a conversa está ótima, mas a vida continua do mesmo jeito. Eu tenho compromisso. Vou deixar pra pensar nessas coisas quando for dormir.