Estou hoje quebrando a minha regra pré-explicada de não escrever aos domingos. Isso porque hoje está fazendo dez dias que eu escrevi pela última vez. Muita coisa aconteceu em dez dias, e de vez em quando não faz mal escrever um texto ou outro. Bom, lá vamos nós.
O SemParar
ser proibido nos shopping centers de São Paulo. Tudo bem que facilita o
pagamento de estacionamento, evita que tenhamos que ficar carregando aquele
ticket etc, mas há uma coisa nos estacionamentos com ticket que não existe nos
que têm o sistema da ViaFácil, e que — há controvérsias — vale por tudo isso:
As mensagens pré-gravadas.
O mantra "Retire seu ticket e boas
compras!" é tão desgastado que a maioria das pessoas nem se importa quando
essa frase sai das caixas de retiragem de papeizinhos de estacionamento. Eu,
sim. A simpatia fabricada das moças anônimas que deixam suas vozes serem
ouvidas por todos os clientes da garagem de um shopping center soa tão
verdadeira que às vezes eu esqueço dos reais motivos, muitas vezes infelizes,
que me levaram a pressionar o botão branco ou inserir meu cartão de
estacionamento. A sensação, por mais artificial que seja, de que alguém
realmente se importa com o meu dia e que proveito eu vou tirar dele me é, em
geral, suficiente para surtir resultado positivo nas reações em cadeias
sucedentes — sem chegar a diminuir os preços, tudo bem, mas vamos com calma.
Alguns shoppings ainda gravam mensagens
como "Agradecemos a sua presença!" ou "Volte sempre!", para
nos fazer acreditar que nossa presença lá é realmente digna de um agradecimento
e que nós seremos sempre bem-vindos nos corredores. Comigo, essa simpática
lavagem cerebral funciona muito bem: eu quase solto um "não há de
quê" às vezes.
Aqueles com um senso de humor mais
agressivo, vindos da esfera populacional criada a Pânico Na TV e minisséries built-in ao Fantástico, ocasionalmente arquitetam pilhérias revolvendo as
pobres máquinas. Perdoai-vos, ó senhor: eles não sabem o que satirizam.
Mensagens pré-gravadas são um assunto muito sério, uma estratégia de marketing
eficiente, capaz de desconcertar aqueles que, na minha forma, estão dispostos a
se entregar às simpatias gratuitas nossas de cada dia. Que diferença não faria
para nós se a máquina expelisse apenas um seco "Retire o seu cartão"
na entrada e "Passe o código de barras do ticket no leitor" na saída,
sem voltas, sem tempero, sem falsos votos de boas compras, sem mensagens
simpáticas? Nós nos sentiríamos apenas parte de um grande círculo vicioso, um
sistema, sem termos importância alguma.
O leitor argumenta que nós o somos, e que
as mensagens pré-gravadas não vão mudar isso; por mais que concorde, também sou
forçado a discordar. É que pelo menos, como diriam os que veem o copo metade
cheio, elas nos fazem pensar que sim, alguém se importa, todos se amam, o mundo
é belo e o socialismo é possível. Fique à vontade, leitor, para sair da Matrix
e converter-se ao cinismo, mas eu ainda prefiro viver em harmonia com as vozes
das mensagens pré-gravadas e quase soltar um “não há de quê” às vezes. Contanto
que eu não perca o ticket, está tudo numa boa.