domingo, 20 de março de 2011

Boas compras

Estou hoje quebrando a minha regra pré-explicada de não escrever aos domingos. Isso porque hoje está fazendo dez dias que eu escrevi pela última vez. Muita coisa aconteceu em dez dias, e de vez em quando não faz mal escrever um texto ou outro. Bom, lá vamos nós.
        O SemParar ser proibido nos shopping centers de São Paulo. Tudo bem que facilita o pagamento de estacionamento, evita que tenhamos que ficar carregando aquele ticket etc, mas há uma coisa nos estacionamentos com ticket que não existe nos que têm o sistema da ViaFácil, e que — há controvérsias — vale por tudo isso: As mensagens pré-gravadas.
        O mantra "Retire seu ticket e boas compras!" é tão desgastado que a maioria das pessoas nem se importa quando essa frase sai das caixas de retiragem de papeizinhos de estacionamento. Eu, sim. A simpatia fabricada das moças anônimas que deixam suas vozes serem ouvidas por todos os clientes da garagem de um shopping center soa tão verdadeira que às vezes eu esqueço dos reais motivos, muitas vezes infelizes, que me levaram a pressionar o botão branco ou inserir meu cartão de estacionamento. A sensação, por mais artificial que seja, de que alguém realmente se importa com o meu dia e que proveito eu vou tirar dele me é, em geral, suficiente para surtir resultado positivo nas reações em cadeias sucedentes — sem chegar a diminuir os preços, tudo bem, mas vamos com calma.
        Alguns shoppings ainda gravam mensagens como "Agradecemos a sua presença!" ou "Volte sempre!", para nos fazer acreditar que nossa presença lá é realmente digna de um agradecimento e que nós seremos sempre bem-vindos nos corredores. Comigo, essa simpática lavagem cerebral funciona muito bem: eu quase solto um "não há de quê" às vezes.
        Aqueles com um senso de humor mais agressivo, vindos da esfera populacional criada a Pânico Na TV e minisséries built-in ao Fantástico, ocasionalmente arquitetam pilhérias revolvendo as pobres máquinas. Perdoai-vos, ó senhor: eles não sabem o que satirizam. Mensagens pré-gravadas são um assunto muito sério, uma estratégia de marketing eficiente, capaz de desconcertar aqueles que, na minha forma, estão dispostos a se entregar às simpatias gratuitas nossas de cada dia. Que diferença não faria para nós se a máquina expelisse apenas um seco "Retire o seu cartão" na entrada e "Passe o código de barras do ticket no leitor" na saída, sem voltas, sem tempero, sem falsos votos de boas compras, sem mensagens simpáticas? Nós nos sentiríamos apenas parte de um grande círculo vicioso, um sistema, sem termos importância alguma.
        O leitor argumenta que nós o somos, e que as mensagens pré-gravadas não vão mudar isso; por mais que concorde, também sou forçado a discordar. É que pelo menos, como diriam os que veem o copo metade cheio, elas nos fazem pensar que sim, alguém se importa, todos se amam, o mundo é belo e o socialismo é possível. Fique à vontade, leitor, para sair da Matrix e converter-se ao cinismo, mas eu ainda prefiro viver em harmonia com as vozes das mensagens pré-gravadas e quase soltar um “não há de quê” às vezes. Contanto que eu não perca o ticket, está tudo numa boa.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Atividades inúteis simples

O tédio é mortal. É difícil evitar um suspiro de falta do que fazer de vez em quando, por mais que tentemos. Mas acontece, e muito, e sempre nos levamos a pensar inutilmente que a vida não tem graça nenhuma. O tédio é um marasmo cerebral, muitas vezes fruto da preguiça, e do qual não conseguimos sair até que uma oportunidade clara surja. Estar entediado é, para o nosso subconsciente, um descanso das atividades incessantes do dia. Nós precisamos de atividade, mas quando não realizamos atividade nenhuma - no caso, dormir conta como uma atividade -, ficamos inconscientemente calmos. É irônico, porque poucas vezes a nossa mente consciente agita-se tanto em busca de informação quanto nas vezes em que nos esforçamos para sair do tédio. Ainda assim, entediar-se é de certa forma bom. Ele nos induz a praticar alguma atividade inútil simples enquanto nos leva a procurar por atividades realmente úteis. É completamente natural, por exemplo, que fiquemos abotoando e desabotoando nossos bolsos enquanto esperamos uma idéia aparecer. Fazemos isso por nossa necessidade de atividade, do mesmo jeito que um homem preso no deserto bebe qualquer gota de água que encontrar.
        Ter um hobby ajuda. A maioria das pessoas monótonas e infelizes não tem um hobby com o qual se ocupar. Hobbies servem para que ainda tenhamos uma motivação, um objetivo na vida, mesmo quando tudo parece estar irremediavelmente chato. Completar uma coleção, terminar um projeto, escrever um diário, são metas superficialmente irrelevantes e que no entanto podem às vezes nos servir como a maior das motivações. Quem não tem um hobby não tem a garantia de ainda possuir uma razão para viver em vista quando tudo parece ter se perdido. Hobbies evitam o tédio. Se cansar de um hobby nos dá a sensação de ter matado um amigo. E alguns hobbies se tornam tão importantes que podem passar a interferir efetivamente na vida de uma pessoa. Falo isso por experiência própria.
        Mas um hobby não é a garantia perfeita de que nunca mais sentiremos tédios. Quando não há nada a fazer, o melhor a fazer é ocupar-se com uma atividade inútil simples. Ou refletir sobre a vida. Ou dormir. Dorme-se pensando no que vai estar lá quando se acordar. Geralmente, há alguma coisa. E dormir não custa nenhum esforço. O tédio também é ótimo para nos forçar a cumprir alguma tarefa. Mas, como eu já digitei, o tédio é fruto da preguiça é serve como descanso para o subconsciente. Sendo assim, entre o tédio e o esforço, tendemos a aceitar mais o tédio, embora prefiramos acreditar que um esforço para cumprir uma tarefa pra variar seria bom.
        Quando não há o que fazer, a pior coisa que nós sempre fazemos é nos perguntar o que deveríamos estar fazendo. O tédio, à sua maneira, é um descanso. E descansar é bom. Mas nós valorizamos demais nosso tempo e, com a escassez de tempo livre do mundo moderno, desperdiçar tempo fazendo alguma atividade inútil simples nos parece uma heresia. Temos que realizar alguma atividade constantemente. Mesmo que seja só refletir sobre a vida.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Os três R's

O que seria de nós sem a reciclagem? Tudo no mundo é reciclável, e o nosso futuro enquanto seres humanos integrantes de uma sociedade depende muito de aprendermos a reciclar. No mundo como o conhecemos, quem não recicla dificilmente cumpre com seus objetivos. O ato de reciclar resume toda a nossa sociedade, política, artística, estratégica e culturalmente. Claro que, de um certo ponto de vista, a reciclagem é imoral, mas o que é uma gota de óleo em uma ilha de lixo? Reciclar faz parte.
       Do ponto de vista político, reciclar é uma arte. Reutilizar discursos, reusar campanhas, reciclar promessas, para, no fim das contas, reduzir as expectativas - eis o esquema do qual se compõe a arte de politicar. Uma promessa velha e jogada fora pode ser utilizada com consciência e, assim, junto com outras promessas sem futuro aparente espalhadas pelas lixeiras diplomáticas, compôr uma campanha política genuína. Pôr novamente em atividade algo que foi deixado para trás no passado, apenas com o intuito de dar continuidade ao ciclo infinito das promessas sem resultados que se reciclam a cada nova eleição e parecem mudar de cara: é preciso ser artista para ser capaz de algo assim. E o que é um político senão um artista com projeções?
        Do ponto de vista artístico, reciclar é uma estratégia. "Nada se cria, tudo se copia" é a verdade soberana nas artes contemporâneas. Músicas com arranjos noventa por cento eletrônicos, filmes com os mesmos enquadramentos ganhando o Oscar de melhor fotografia todos os anos, a falta de uma época expressiva para as artes plásticas nos dias de hoje, clichês gritantes nos campeões de bilheteria, reality shows pipocando a qualquer pretexto, plágios frequentes no completo anonimato, a repetitividade daquilo que faz sucesso; mesmo o fato de a maioria das artes ser fruto de alguma inspiração baseada na obra, mesmo que não-artística, de outro, tudo é reciclagem artística: transformar o que já foi feito, aparar as pontas, jogar um tempero. É uma receita, uma estratégia, e dessa estratégia surgem a arte, os vídeos virais e as músicas que tocam nos iPods do mundo inteiro.
        Do ponto de vista estratégico, reciclar é uma cultura. Planejamos nosso futuro tendo como molde o futuro dos outros; deixamos de cometer erros por nosso conhecimento dos erros alheios, e nos vemos daqui a trinta anos com a mesma vida de alguém que idolatramos ou de algum ricaço que invejamos ao ver passar na TV. Precisamos de um chão antes de decidir pra qual lado pisar. Mas nossos passos seguem o chão. E reciclar, estrategicamente, é o que todos nós, querendo ou não, fazemos. Pesquisar sobre os outros, refletir sobre os outros, seguir os passos dos outros por um tempo, e, quando nos deparamos com uma encruzilhada, fazer o que os outros não fizeram. Faz parte da nossa cultura, mas não deixa de ser uma estratégia completamente natural.
        Do ponto de vista cultural, reciclar é uma política. Vivemos para reutilizar aquilo que já foi feito, na maioria das vezes sem dar importância a possibilidade de fazermos isso mal. "Alguém que faz uma cadeira melhor não deve nada ao inventor da cadeira, eis a máxima que esclarece a relação entre reciclagem e a forma como somos criados e vivemos nossa vida. Estamos acostumados à repetitividade, e, inconscientemente, manifestamos isso através de nossos apelos pela reciclagem do lixo e pelos nossos dedos tamborilando copiosamente na mesa. Nosso cérebro não lida bem com repetição. Por isso, algumas pessoas acabam surtando.
        Tudo flui em direção aos três R's: Reduzir os inícios, reutilizar os meios e reciclar os resultados. Nossa sociedade depende da reciclagem, porque tudo no mundo é reciclável. E não temos como fugir disso. Sim, reciclar é imoral, mas a vida não é um questionário de múltipla escolha. Se fosse, poderíamos chutar a resposta. A vida é dissertativa, e para nos darmos bem temos que estudar bastante. Ninguém vai se incomodar se usarmos a mesma resposta que outra pessoa usou antes, contanto que esteja certa. Faz parte.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Centígrados

O frio está de volta a São Paulo. Pelo menos por hoje. Enquanto escrevo isso, faz 19ºC e chove lá fora. Diante das duas últimas semanas de calor, muitos paulistanos, inclusive eu mesmo, ficaram impressionados com a necessidade de vestir uma blusa. São sinais de que o outono está chegando, e de que ele vem com força total. Isso é muito bom.
        Claro que é normal não gostar do frio. Mas em uma cidade com clima intercalado entre tropical e temperado, o dia só pode ou ser frio ou ser quente. É difícil existir um meio termo. E, entre as duas opções - um dilema que divide opiniões, inclusive -, eu fico com o frio sem pensar duas vezes. Por quê? Simples. O frio é uma sensação, o calor é uma condição. Abriga-se do frio; não se pode fazer nada quando se está quente. Quando vamos dormir, se está frio nós temos a oportunidade de usar um cobertor grosso e aconchegante e dormimos muito bem com isso; se está calor, passamos a noite virando de um lado para o outro e procurando áreas frescas no travesseiro e, em geral, passamos a maior parte da noite em claro. O frio é aflitivo, o calor é chato. E uma aflição pode ser encoberta. Uma chatice, não.
        No calor, é duas vezes mais difícil encontrar conforto em qualquer coisa. A fuga para o frio é familiar, caseira, tranquila e fácil; para o calor, é separativa, exterior, nervosa e difícil. Todos tem um cobertor para se abrigar ou alguém para abraçar quando se está frio, mas nem todos têm a oportunidade de mergulhar numa piscina quando se está fazendo trinta graus na sombra.
        O mais engraçado é que o calor é impensável quando se está com frio e vice-versa. Quando se está frio, nem nos damos conta da sorte que temos por estar tomando sopa encobertos por uma manta, e o calor elimina de nossa mente a esperança de que não mais tenhamos de aguentar o suor escorrendo e o desejo de ir à praia ou tomar um sorvete. O calor nos tira o sono e a fome, exatamente o contrário daquilo que o frio faz. E está frio. Graças aos céus, embora tenha feito um calor insuportável desde os primeiros dias do ano, hoje está frio.
        Bom, a previsão indica mínima de 16ºC e máxima de 29ºC para domingo. Seria tão bom se o clima de São Paulo fosse temperado em tempo integral... O jeito é esperar pelo melhor. Em torno de 19ºC estaria ótimo.