sábado, 26 de fevereiro de 2011

Burocracia

"Senhor, a sua carteira caiu."
        A mais primitiva das interações sociais. Não era nada além da coisa certa a fazer. A pessoa me seria grata e eu a salvaria de uma dor-de-cabeça. Era a coisa mais simples, mais correta e mais genérica que se poderia dizer a alguém. Apenas um aviso de cinco palavras, e tudo estaria melhor. Nada complicado. Era só eu me esticar até a mesa ao lado, chamar a atenção do senhor que conversava e avisá-lo. Pronto. Nada que qualquer um não pudesse fazer. Mas eu era o único próximo, e dependia de mim evitar que aquele senhor tivesse que enfrentar as enxaquecas da burocracia que surge quando uma carteira se perde. Então por que eu travei?
        Eu nunca fui muito de falar com estranhos, mesmo nas situações mais costumeiras. Não sabia direito como deveria chamar a atenção do senhor, nem o que deveria falar. Qualquer pessoa normal o avisaria sem piscar, mas eu não. Eu travei. Eu fiquei na dúvida. Eu hesitei por tempo demais. Eu praticamente deixei pra lá, embora soubesse que aquilo era errado. Eu tinha de avisar o senhor, e não conseguia reunir forças para fazer uma coisa besta dessas. Enquanto a carteira dele ainda estava dependurada em seu bolso, apenas com risco de ir ao chão, eu pude adiar e até fingir que nada acontecia. Mas quando o projétil efetivamente atingiu o piso de madeira, eu não tive escolha. Me levantei e me estiquei até a outra mesa.
        "Senhor." Nada. "Senhor." Nada ainda. Bati na mesa. "Senhor." Ele olhou pra mim e eu o avisei. Ele agradeceu, pegou a carteira com um gesto amplo e rápido e eu voltei para meu lugar. Olhei para meu relógio de pulso, como sempre faço quando estou nervoso. O problema estava resolvido. Eu não tinha morrido, e tinha sido de grande ajuda para o senhor descuidado, pelo menos em minha cabeça. Eu estava de volta à minha mesa, sentado em minha cadeira, novamente conversando com meu pai, e estava tudo certo. Eu tinha feito a coisa certa, e não tinha doído nada. Mas, seguindo a linha de comportamento que eu sempre sigo quando faço alguma coisa que eu não me sinto confortável fazendo, eu comecei a pensar o que eu tinha feito de errado.
        Eu tinha estalado os dedos. Eu deveria ter feito isso? Eu talvez tivesse sido meio seco. Será que eu tinha interrompido alguma conversa? Havia soado muito infantil? Talvez eu pudesse ser mais rápido. Eu tinha agido corretamente ao chamá-lo de senhor? Será que ele tinha se ofendido? Será que tinham achado o meu cabelo feio? Deveria eu mesmo ter pegado a carteira para ele? Eram dúvidas muito idiotas - eu havia feito a coisa certa, ponto final - entretanto, eu não conseguia me afastar delas. Questões vazias sempre me afligem nesse tipo de situação. Não era nenhuma novidade. O pior é que eu já tinha terminado o sorvete, e não havia nada instantâneo que eu pudesse fazer pra esquecer aquilo. Esquecer o quê? O meu subconsciente duelava consigo mesmo. Pobre de mim. Pelo menos eu tinha feito a coisa certa. Ou não.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Chapéus triangulares

Faz dois dias e pouco que eu descobri que meu sapato foi feito na China. Tolice minha esperar outra coisa; mesmo a possibilidade de ele ter sido feito no Taiwan ou na Malásia. Não havia outra possibilidade. Certas coisas, como papel e condimentos, até podem não ser fabricadas em algum ponto dos 9 milhões de quilômetros quadrados preenchidos por 1,3 bilhão de pessoas, mas é inevitável que leiamos, no rótulo de desde nossos aparatos eletrônicos a nossas roupas de marca, a já mítica frase "Made in China", ou, com variações, "Assembled in China" ou outra coisa parecida.
        Não há como não entregar-se aos fatos. Não é novidade para ninguém que o mundo está olhando para a China. No entanto, é mais do que isso. Pelo contrário; a China tem olhos em todos os lugares e ela, sim, está olhando para o mundo, enquanto nós pensamos que o país que está trabalhando a vapores para se colocar numa categoria acima de país emergente, se é que já não fez isso, está se contentando em apenas ser o centro das atenções. Eu não vou começar a falar de política internacional nem nada disso, mas eu não duvido que algum chinês esteja olhando o que eu estou fazendo agora mesmo.
        Bom, a China tem lá os seus motivos para ser o alvo dos holofotes atualmente. Pra começar: 18% da população do mundo está lá. É muita gente, e o território da China não é maior que o de países como Rússia e Canadá. Depois, são a segunda economia do mundo. Há uma série de outros motivos, que vão desde estatísticas que dizem respeito a condições de vida a aspectos econômicos, mas o que mais me assusta a respeito daquele país em particular é: Onde é que cabem tantas fábricas para a fabricação de produtos "Made in China"? Terão os chineses descoberto uma dobra espacial que os leva a um terreno infinito? Friso: Eu não duvido de nada. Não depois que assisti a cerimônia de abertura das Olimpíadas de dois anos e meio atrás (sim, eu ainda estou com isso na cabeça), o que me levou a pensar se a Inglaterra vai conseguir superar aquilo. A Inglaterra!
        Daqui a cem anos, a China provavelmente vai ter se tornado o centro do mundo. Todos os cursos de inglês terão de ser substituídos por outros, porque mandarim é a língua do futuro. E poucas pessoas no Brasil sabem sequer diferenciar o mandarim do japonês - ou pior, a China do Japão. Sim, eu já vi casos. Só mais uma das razões que me levam a desprezar estereótipos - como naqueles livrinhos infantis que falam da China como um monte de pessoinhas de olhinhos puxados que usam chapéus triangulares e quimonos vermelhos. Não me surpreenderei se acabar encontrando um livrinho que ilustre a China como uma miríade de bicicletas, produtos piratas, shoppings vertiginosos e proxys, em cuja capital residam um monte de engravatados apressados que atravessam aqueles cruzamentos horrorosamente grandes com uma pressa acima do normal. O que não deixa de ser um estereótipo, claro.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Descrever uma cor

Olhando daqui, parece mais incrível do que realmente é. O ângulo de visão da janela do quarto é razoável o suficiente para me deixar impressionado como eu sempre fico quando vejo. Ainda está acontecendo enquanto eu escrevo. Está mais rápido do que nunca. É fantástico, uma coisa dessas acontecendo e eu preocupado em escrever a respeito. Sequer estou olhando para o teclado. Poxa. Acabou de acontecer por inteiro. Ainda parecem haver algumas frestas. O centro da coisa toda está quase uniforme. Uau. Será que eu escrevi certo até aqui?
        Alguns eventos são indescritíveis. Esse, por exemplo. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Em alguns casos, é verdade; em outros, não. Nesse caso, em particular, é a mais pura das verdades. Posxa, isso soou piegas. Minha nossa. Fica surreal, com as máquinas voadoras passando e exibindo suas pinturas padronizadas em contraste com o resto. Chega a parecer uma pintura em relevo. Eu tenho certeza absoluta de que estou olhando para um golfinho. Ah, droga, sumiu.
        Alguém está entendendo alguma coisa? Puxa, algumas pessoas não sabem fazer um bom corte para um poodle toy. Largaram um espanador ali do lado. Outro golfinho. Aquilo é uma bigorna? Parece muito com uma bigorna, mas talvez seja só um cogumelo. Vendo daqui, não dá pra saber. Aquilo ali com certeza é um pastel feito em casa. Minha mãe faz muitos desses. Uma pessoa parece ter passado por ali. Nossa, eu nunca tinha visto uma raposa por aqui. Ah, deixa pra lá, era um husky. Onde é que está? Bom, já devem ter levado ele embora. Está tudo tão verde... Meus olhos estão doendo um pouco.
        O que eu estou sentindo é inexprimível. Nunca tinha visto tanta coisa assim. Geralmente, não se vê muita coisa nessa cidade. É sempre meio sem-graça. Aquilo parece uma... Como é o nome mesmo? Uma baleia. Caramba, elas são realmente grandes. Cruzes, que fantasia de mau gosto. Mas o que diabos é aquilo? Cada uma que me aparece... Essa aqui da frente parece mais escura que as outras. Parece que vai chover. Não, acho que já choveu. Ou não? Sei lá. Tá com cara de que vai chover. Aquele navio deve ser comercial, essa bandeira parece a da Suíça. Deu uma vontade de ir ao cinema... Pipoca. Qual foi a última vez em que eu comi pipoca? Hoje, acho que o preço é promocional. Ah, deixa pra lá. Céus, que abertura.
        É incrível como certos eventos são indescritíveis. (Eu não estou sob efeito de nenhuma droga alucinógena, e não tem nenhuma mensagem subliminar aí no meio, só pra constar. Eu espero que não, pelo menos.) Hã... Quem desenhou aquela gárgula precisava caprichar um pouco mais. Ih, o tempo está fechando. Acho melhor eu fechar a janela. Está ventando.
        Fale o que quiser, mas que atire a primeira pedra quem nunca se desligou observando as nuvens. Ei, aquilo é um porco com asas?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

E-carta

Estou esperando um e-mail que não chega. Nada de muito novo. Faz mais ou menos três semanas que eu recebi uma promessa de contato e nada ainda. Sem entrar em detalhes, é torturante. Dar uma olhada na caixa de entrada de vinte em vinte minutos, entusiasmar-se cada vez que o telefone toca, e tudo isso para nada. Muitos entendem pelo que eu estou passando. Agonizo por cada espiada no Inbox sem resultados, e não há nada que ampare meu sofrimento. É um sofrimento pequeno, não deixa de ser verdade, mas é insistente.
        Aquele ao qual me refiro nesse texto provavelmente não o lerá, e mesmo que o fizesse, em uma eventualidade remota, não saberia do que eu estou falando. Esperar por e-mails tem mais ou menos o mesmo teor psicológico de aguardar o resultado de um concurso, com a diferença de que, no caso do e-mail, não se sabe se aquilo pelo que ansiamos sequer chegará. A expectativa é uma das piores sensações que um ser humano pode experimentar. Ela levanta uma barreira que nos separa da tranquilidade, uma barreira que só desmorona quando a expectativa chega ao fim. Não sabemos com certeza o que esperar, apesar de sempre esperarmos, mesmo que em subconsciência, pelo melhor.
        Em épocas passadas, esperava-se por uma carta. Hoje, é mais natural, pelo menos para grande parte das pessoas, esperar por um e-mail. As duas comunicações não completamente seguras são iguais no fato de estarem fora do nosso controle: as respostas não são imediatas, e, assim, não sabemos o que pode acontecer com a mensagem ou mesmo se receberemos uma outra mensagem em réplica. Uma ligação telefônica é controlável; uma conversa por e-mail, não. Não sabemos se uma carta chegará, tanto quanto não sabemos se um e-mail será aberto. E se não quiserem abrir? E se tivermos endereçado errado? E se o carteiro morrer? E se a internet cair? Há mais possibilidades de dar errado do que de dar certo. Nunca se sabe. Esperamos pelo melhor e ponto final.
        A expectativa é inevitável, e nunca se sabe. O e-mail pode ter chegado enquanto eu escrevo. Por isso as checagens da caixa de entrada a cada vinte minutos. Porque o tempo não para, e, sendo assim, os e-mails também não. O Gmail não tem um horário de fechamento. Checamos de vez em quando e a vida continua. Aliás, é melhor eu checar meus e-mails assim que publicar essa postagem. De repente...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Santo domingo

Relaxem, esta crônica não é sobre a República Dominicana. Nem bem como sobre temas religiosos relativos à santidade do primeiro/último dia da semana. O título nada mais é do que um microrresumo de duas palavras sobre a postagem. E eu achei que "santo" ficaria legal para acompanhar o tema central.
        Qualquer pessoa com QI acima de 15 já percebeu que o tema da crônica é o domingo. Bom, se alguém tem vindo ao meu blog com frequência (se for o seu caso, parabéns, você é uma raridade), deve ter notado que eu não escrevi ontem. Não, não saí de casa; não, não recebi parentes e não, não passei o dia inteiro jogando Tibia. O caso é que, tendo escrevido nos seis dias anteriores, eu achei melhor dar um tempo. E, se existe um dia específico para se dar um tempo, esse dia é obviamente o domingo.
        Por que dar um tempo? Já tive outras pequenas experiências com blogs antes e, se eu aprendi uma coisa, foi que forçar-se a escrever todo dia só encerra mais rápido o estoque de inspiração. O furacão de ideias da primeira semana de atividade do blog passou, então paciência. Escrevi na sexta, escrevi no sábado, no domingo decidi não escrever. Ponto.
        Por que o domingo? Antes de mais nada: por que não? O domingo, dia da semana que causa polêmica a respeito de sua ordem cronológica simplesmente por posicionar-se entre o sábado e a segunda, é o dia que reservamos para ficar em casa sem fazer nada, porque tudo fecha mais cedo e é mais preferível ir na sexta ou no sábado. Pode-se imaginar que isso só tornaria o domingo mais propício ainda para escrever, mas é justamente o contrário. Sem passeios, sem aulas, sem eventos interessantes, não há boas ideias nas quais trabalhar. Escrever cansa, e descansar um dia não mataria ninguém (provavelmente, ninguém nem notaria, no meu caso). Além disso, pulando as questões censuradas pelo princípio da indiscussão de religião, política e futebol, o domingo é o dia em que tudo o que queremos fazer é aproveitar todas as felicidades que não nos cabem durante a semana. É o dia em que preferimos ficar no sofá assistindo às Vídeocassetadas a nos lembrar do dia seguinte; em que queremos fazer o possível para abafar de nossas ideias o desgaste psicológico provocado pela segunda-feira de manhã. Tudo o que não queremos fazer no domingo é ler uma crônica escrita por um garoto e xingá-lo por supostamente assinas as crônicas que seu pai escreve. Crônicas levam a reflexões, e reflexões nos conduzem invariavelmente a pensar "Ah, droga! Amanhã é segunda-feira". Ninguém quer isso no domingo. Nem eu.
        Hoje é segunda-feira. Eu tenho desprezo pelas segundas-feiras assim como qualquer estudante que preze seu tempo livre e seu sono. O dia transcorreu normalmente, exceto pelo fato de eu ter esquecido meu relógio. Com isso, o tempo pareceu passar mais lentamente, e, numa segunda-feira, isso é como assistir a uma corrida de tartarugas. Isso me deixou especialmente feliz por não ter feito nada no domingo. Quanto mais tempo se passa no domingo sem fazer nada, mais coisas podemos fazer de bom humor numa segunda-feira. Escrever uma crônica, por exemplo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mari

Mariana é diferente de todas as outras. Mais elegante que Madalena, mais vibrante que Sônia, mais simpática que Olímpia, mais bonita que Maria. Mariana tem mil caras, mas é absolutamente única. Mariana é tão alegre, divertida e gentil que não se pode não gostar dela. Mariana é de tudo um pouco, sem deixar de ser ela mesma em todos os momentos. Mariana ama a música, o cinema e todas as artes em que se possa pensar. Mariana é radiante pelas manhãs e charmosa ao cair da noite. Mariana é muda, mas sabe falar como nenhuma outra. Mariana expressa-se por seus próprios meios.
        Refiro-me, é claro, à Vila Mariana. Só um paulistano saberia o que eu estou querendo dizer. Sim, sou paulistano, e não moraria por nada em outra cidade no Brasil. Poderia listar os motivos, mas essa não é a razão pela qual eu digito estas linhas.
        A Vila Mariana, para os que não a conhecem, é um bairro. Mais que isso, é um distrito. Mais que isso, é uma subprefeitura. Mais que isso, é um universo. Para os artistas, ela é um museu a céu aberto. Para os arquitetos, ela é uma obra viva. Para os amantes de pizza, ela é o Nirvana. Para mim, ela é um universo. Ponto. Como é possível negar isso? Como é possível não acreditar na existência de planetas ao avistar a linha do horizonte da Rubem Berta? Como é plausível não crer na presença de sistemas solares ao desbravar os bairros que circundam o parque? Como não detectar buracos negros ao aproximar-se da Sena Madureira? Como não dar pela presença de extraterrestres ao sair para jantar?
        Embora a maioria das pessoas que tenham lido até aqui possa muito bem discordar de mim, a Vila Mariana é o mais inigualável dos bairros da cidade. Não tanto pela satisfação de seus moradores, ou pelos números, mas pelo organismo que se forma com a junção de suas avenidas, pelo sangue que corre de noite com os faróis dos carros presos no trânsito da 23 de Maio, pelo charme individual representado por avenidas imponentes como a República do Líbano e por ruas menos conhecidas como a Botucatu, pelas árvores compactadas da Praça Manuel Vaz de Toledo e pelas árvores com plaquinhas do Parque Ibirapuera.
        A possibilidade de render-se à atmosfera causada pelas luzes de rua amarelas, a existência de museus e teatros de tantos em tantos quarteirões, a infinitude de casas misturadas a incontáveis prédios residenciais, as pizzarias, as pessoas, a fauna urbana de cães, gatos e taturanas, as praças ao longo das avenidas, a Praça das Esculturas, o Sesc, a localização em uma região com o peculiar nome de centro-sul, a mistura do Jardim Paulista com a Saúde, o IDH e o Túnel Ayrton Senna são insignificantes nas primeiras vezes em que temos contato com eles, mas adquirem um significado incomensurável conforme o tempo passa. Pequenas coisas, acima de tudo, fazem com que a Vila Mariana seja... a Vila Mariana. Simples assim.
        Eu não moro na Vila Mariana, e não moraria lá nem em um milhão de anos. Dizem que, quando nos acostumamos a uma coisa, ela perde seu encanto.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A van roxa

Há um ano e meio, voltar pra casa era a parte mais legal do dia letivo. Saíamos pouco depois do meio-dia, nos sentávamos na escadaria e esperávamos. Conversa vai, conversa vem, às dez pra uma ouvíamos uma buzina e avistávamos a van roxa passando pela lombada em frente ao portão. Juntávamos nossas coisas, nos despedíamos de nossos amigos e íamos até a van a passos lentos, eu arrastando uma mochila de rodinhas. Entrávamos, nos ajeitávamos, esperávamos os outros. E a partida era dada.
        Descrevíamos sempre o mesmo caminho. Paradas eram feitas aqui e ali para deixar pessoas, mas a rota até em casa era sempre a mesma. Em alguns dias, o trânsito era maior, mas nunca demorava mais que meia hora pra chegar. E o tempo parecia passar muito rápido.
        As conversas, quando não passavam de conversas, sempre eram boas. Pontos de vista múltiplos, vindos desde pré-universitários de um metro e oitenta do terceiro colegial até crianças de um metro e trinta do quarto ano do ensino fundamental eram os pilares que sustentavam os tópicos das nossas confabulações. Tagarelávamos sobre tudo, de política a música, de cinema a criminalidade, de viagens de fim de semana a nossos planos para o futuro. Contávamos piadas, ríamos, brincávamos, fazíamos comentários sobre o que tocava na rádio, criávamos indiretas, questionávamos uns aos outros de vez em quando, e nunca deixávamos de pôr a conversa em dia. Nos divertíamos. Respeitávamos uns aos outros e ouvíamos. O silêncio acontecia, mas era raríssimo, e até estranho. Pessoas da minha idade, pessoas bem mais velhas do que eu, e até pessoas mais novas eram comprimidas em três apertadas fileiras de bancos, mas nunca parecia ficar lotado.
        Quando descíamos, havia ainda quatro ou cinco pessoas lá dentro. Chegávamos em casa risonhos, animados e com histórias para contar, tudo por causa da meia hora que háviamos passado dentro da van.
        Hoje, um ano e meio depois e tendo avançado dois anos letivos, voltar pra casa é a parte mais desgastante do dia. Saímos pouco depois do meio dia, nos sentamos na escadaria e esperamos. Conversamos pouco e às quinze pra uma ouvimos a buzina da van roxa passando pela lombada em frente ao portão. Juntamos nossas coisas, damos um "tchau" geral e vamos até a van a passos lentos, eu com uma mochila nas costas. Entramos, nos apertamos, esperamos os outros. E a partida é dada.
        O caminho nunca muda. Atravessamos um bom pedaço dos bairros ao redor antes de chegar em casa. Costumamos demorar mais de meia hora. E o tempo parece não passar.
        Com o grupo de estudantes que vão para casa na van roxa alterado completamente, sobrando apenas eu e meu irmão do grupo original de um ano e meio atrás, a van deixou de ser um espaço descontraído e passou a ser o autêntico local público: Passamos o tempo todo apertados nos bancos que nos comportam, sendo que o menor movimento em falso pode significar um pisão no pé de alguém. Não há conversa, apenas o som do motor da van e dos ruídos da cidade, ensopados na trilha repetitiva da rádio que nunca muda. Ninguém fala além do necessário. Quando muito, ou seja, quando o rádio está desligado, nos alienamos em nosso próprio silêncio, tendo nossos fones de ouvido como parceiros, e a falta de ruídos internos é tanta que chega a ser tétrica. Ninguém aparenta conhecer ninguém e não sabemos nada sobre os outros além, no mais, de onde eles moram, mesmo que estejamos juntos no mesmo cubículo por quase um ano. Não se pode atender ao celular sem receber olhares. Dez pessoas de diversas idades ficam comprimidas em três fileiras de bancos, e parece não haver nenhum espaço sobrando. Para completar, o calor é escaldante.
        Tudo o que se pode fazer é engolir a situação e esperar pela chegada da van ao nosso endereço. Moral da história: não se pode acreditar que lugar algum será feliz para sempre. Nem mesmo por um ano e meio.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Chatice

Há três tipos de dor de garganta: A chata, a aguda e a desgostosa. Cada uma tem peculiaridades absolutamente próprias em relação a intensidade, sensação e grau de inconveniência. Mas tem um detalhe a respeito de dor de garganta que diz respeito a todos os seus tipos, variações e credos: ela é a coisa mais chata do mundo.
        Alguns discordarão, lógico. Há coisas que podem ser quase tão chatas quanto dor de garganta. Ânsia de vômito, gases, filas, comercial infantil, morder a língua, perder o controle remoto, espirro que não chega, despertador, telemarketing, trânsito. Todos muito chatos, mas nenhum que se compare à tortura infindável e escravizadora que é uma garganta inflamada. A coisa mais chata a respeito da dor de garganta é o fato de ela ser como a sombra: Não temos como nos livrar dela. Analgésicos, receitas caseiras e laranjas ajudam, mas não há nada que realmente faça com que uma dor de garganta pare. E, quando você não tem dor de garganta há dois meses e não faz ideia de que ela esteja no seu encalço, ela parte pra cima, e, antes que você perceba, está fazendo careta pra engolir saliva.
        A dor de garganta desgostosa é aquela que é mais um gosto ruim na boca do que uma dor propriamente dita. Ela amarga nossa garganta, faz com que sintamos a sensação de algo morto acariciando nossas papilas gustativas e nos deixa com uma sutil careta duradoura, sem que possamos beber um copo d'água que não fique... argh!
        A dor de garganta aguda é a sensação de que a garganta está literalmente machucada, como se um pedaço muito grande de comida tivesse torturado nosso esôfago e o deixado inflamado. É a que passa mais rápido, e não deixa gosto nenhum, mas dói como nenhuma outra e nos pega tão de surpresa que é capaz de nos fazer dizer "Ai" com certa intensidade.
        Escrevo isso com uma dor de garganta chata. O choque térmico provocado pela mudança da temperatura da cidade de uma hora pra outra me causou um pequeno resfriado, e minhas fungadas são acompanhadas por uma infeliz inflamaçãozinha na faringe. A dor de garganta chata nada mais é do que aquela dorzinha arranhada bem no núcleo da garganta, que fica martelando sem parar e a respeito da qual não podemos fazer nada até que sare, nos afligindo e enlouquecendo sem um segundo de trégua, nos fazendo sofrer cada vez que engolimos saliva, nos sugando o ânimo e nos impedindo de apreciar uma refeição, nos privando de sobremesas geladas e nos forçando a tomar sopa no verão. É a própria chatice contida em um único sintoma. E o que podemos fazer? Nada.
        Talvez, a dor de garganta seja uma metáfora que o nosso corpo nos arma: chatices e dores de garganta fazem parte da vida. Não há remédio que cure para sempre as faringites, assim como não há bloqueio para as chatices. Nunca esperamos pelas dores de garganta/chatices, e elas geralmente (ênfase no "geralmente") não nos fazem tão mal assim, mas não podemos evitá-las e não conseguimos não ficar irritados com elas. Fazer o quê?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Último

"Qual seria seu último desejo?". Quando alguém me fez essa pergunta alguns dias atrás, precisei pensar bem antes de responder. Um último desejo! Não é nada simples decidir. Muito mais que representar o último ato de nossas existências, o tal "último desejo" sintetiza, de certa forma, tudo o que quisemos em nossa vida. Os mais fúteis desejariam algo relativo a uma vontade passageira, é claro. Alguns fariam desejos mais profundos e simples, mais com cara de "síntese", mesmo. E eu? Bom, é difícil dizer.
        Tirando os pensamentos pervertidos que invadem involuntariamente a cabeça da maioria das pessoas quando se faz uma pergunta dessas, a gama de opções é bem grande. Comer (um último sorvete, uma última fatia de pizza, uma última lasanha feita pela mãe, um último sushi, um último churrasco, um último marshmallow, um último ensopado, uma última salada de frutas, um último pão-de-queijo, um último cupcake, uma última melancia, um último quibe, uma última torta de limão, um último salgadinho, um último biscoito, uma última coxinha de frango com catupiry, um último iogurte, um último tablete de chocolate, ou provar caviar pela primeira vez), beber (um último suco de laranja, uma última coca-cola, uma última vitamina, um último chá, uma última cerveja, uma última taça de vinho, uma última caipirinha, um último copo d'água ou uma última xícara de café), divertir-se (um último capítulo da novela, uma última ida ao cinema, um último livro, uma última peça de teatro, uma última balada, uma última música, um último passeio no parque, uma última partida de videogame, um último jogo de pôquer, um último mergulho, uma última caminhada pela praia, um último gol), passar o tempo com pessoas (com a família, com os amigos, com o namorado, com os irmãos, com os avós, com a tia, com a esposa, com os filhos, com os netos, com os colegas, com os sócios, com os primos, com as pessoas necessitadas), festejar (um último Natal, um último aniversário, uma última Páscoa, um último dia dos namorados, um último Carnaval, um último Réveillon, um último dia de Ação de Graças), realizar sonhos (formar-se, voar de asadelta, dançar na chuva, visitar Paris, matar um inimigo, ir até o último andar do Burj Khalifa, ver o pôr-do-sol, conhecer um ídolo, ganhar o Prêmio Nobel, destruir um patrimônio nacional) e mesmo atos simbólicos (escrever um último texto, plantar uma árvore, enviar uma carta, twittar pela última vez, ligar para o número mais antigo da lista telefônica, gritar o nome no meio do shopping, doar todo o dinheiro para caridade, pintar o quarto, abraçar alguém, excluir a conta do Facebook) constam na imaginação de qualquer pessoa que se vê imaginando o que pediria com último desejo. Varia de acordo com a imaginação e as vontades de cada um. O ato final, se tivermos a oportunidade de controlá-lo, deve, de alguma forma, fechar todos os parênteses que deixamos abertos em nossas vidas. Mas como um único desejo resolveria todas as nossas dúvidas, as nossas ânsias, os nossos segredos e as nossas expectativas? Um único desejo!
        Bom, e quanto a mim? O que eu pediria como meu último desejo? Sinceramente, não vejo mais de uma opção. Com tantas coisas a fazer, tantas vontades a satisfazer, o meu último desejo deveria possibilitar que eu fizesse tudo o que queria.
        Eu desejaria um último mês de vida. Isso resolveria os problemas.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Contrastes

Os contrastes são coisas fantásticas. O conceito de dois elementos diferentes convivendo próximos um do outro o suficiente para que se possa notá-los sem que haja conflitos de qualquer tipo já é algo em que se possa reparar mesmo sem o acréscimo de outros detalhes igualmente surpreendentes. Quando estes detalhes existem, os contrastes se tornam coisas mais fantásticas ainda. Por exemplo: Já é incrível observar o contraste que existe entre os cartazes de uma comédia e um terror lado a lado na bilheteria de um cinema, ainda que isso não deixe de ser até ordinário. Mas o simples fato de os dois filmes estarem passando no mesmo horário ou na mesma sala nos leva a uma nova onda de conjecturas e ideias. Detalhes.
        A onipresença dos contrastes às vezes torna a sua observação ainda mais rica em surpresas e detalhes extraordinários. Todos os tipos de contrastes interferem indiretamente em nossa vida, e no entanto nunca paramos para perceber o quanto eles são impressionantes. E, nos escassos momentos em que o fazemos, o contraste entre o próprio contraste e a nossa indiferença o tornam ainda mais incrível.
        O mais inexplicável, e talvez mais revoltante dos fatos é que os contrastes mais autênticos e estupendos não nos surpreendem tanto quanto os mais banais. Caminhamos pela rua enquanto olhamos para um prédio luxuoso vizinho de semicasas germinadas sem pintura e achamos isso comum. Vemos os rostos mais feios vestindo trajes finíssimos e achamos isso normal. Não nos alteramos ao ver passar um caminhão de lixo ao lado de um carro para duas pessoas. Quando vemos de um avião a cidade dando lugar ao vazio verde das áreas que a circundam, não temos reação além de notar e esquecer quinze minutos depois. Pode até ser que isso seja por causa da naturalidade e da habitualidade de todos esses acontecimentos, mas nenhum deles deixa de ser surpreendente. E, mesmo assim, uma pessoa vestindo uma meia de cada cor nos deixa mais estupefatos que qualquer um deles.
        Alguns dos mais antológicos contrastes fazem parte da rotina da maioria das pessoas: Comer bananas, frutas das mais doces, como acompanhamento de uma feijoada; ouvir uma melodia de violoncelo com os fones-de-ouvido enquanto uma batida artificial toca a todo volume no rádio do carro, ou vice-versa; decidir entre um romancista clássico e um autor contemporâneo na escolha de uma leitura; comparar os números sorteados na loteria com a nossa aposta; navegar pelos canais da TV a cabo e parar em um programa educativo; ver na internet a imagem de um senhor milionário de mãos dadas com uma mulher quarenta anos mais nova; gastar horrores em um livro sobre economia. Contrastes, que alguns preferirão chamar de ironias, e que fazem parte do nosso dia-a-dia. Para alguns, nem tanto quanto para outros.
        Os contrastes existem, mas estamos acostumados com eles e nossa vida não vai mudar quando um dá as caras na nossa frente. São acontecimentos extremamente peculiares, mas tão massivos numericamente que nem nos damos conta deles. Em outras palavras, olhe à sua volta. Você vai encontrar, no mínimo, uma pessoa vestindo uma meia de cada cor.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Futurístico

Se algum dia este blog chegar a ser conhecido, talvez o mesmo não aconteça com esta postagem. A grande incógnita de escrever uma postagem de estreia é o famosíssimo desconhecido dilema do "Se ninguém vai ler o primeiro post, por que diabos eu devo empregar os meus 95% de transpiração nele?". A resposta tem muito mais a ver com o âmbito das satisfações pessoais do próprio autor do blog do que com a possibilidade de a postagem ser lida e admirada por pessoas. No confinamento de suas autocobranças viciosas e não raro autodestrutivas, um escritor - por mais insignificante que seja - exige de si mesmo que cada linha de cada mísero parágrafo saia o mais próximo da perfeição possível. Jamais haverá autor que se encontre realizado em sua existência sem ter corrigido-se duas, três, cem vezes em cada um de seus textos.
        Aplicando-se essa lógica em maiores proporções, conservar uma reles excelência em cada post de um blog talvez seja a correspondência mais ínfima desse princípio na era digital. Postar em um blog é como escrever um diário, só que público. E estrear um blog é como apresentar-se em uma reunião, só que privada. Enquanto os dedos de um blogueiro datilografam nervosamente as linhas de cada texto, a sua mente salpica-se de reflexões internas, ainda que das mais superficiais. No caso de uma crônica, essas reflexões são ainda mais profundas. Quando se dá partida em um blog, tais reflexões expandem-se em devaneios futurísticos e pensamentos semiconcretos sobre o porvir. Expectativas, dúvidas e planos são comprimidos no espaço de uma postagem. O resultado é um texto de estreia.
        Se você tiver lido até aqui, é possível que esteja se perguntando o porquê de eu dar estas explicações sem fazer eu mesmo uma introdução ao blog. Bom, se você tiver lido até aqui, já deve ter entendido que esta introdução já está feita. Afinal de contas, o propósito de um texto de abertura não é apresentar o blog? Pois bem. O texto está aí; interprete-o como quiser.