"Senhor, a sua carteira caiu."
A mais primitiva das interações sociais. Não era nada além da coisa certa a fazer. A pessoa me seria grata e eu a salvaria de uma dor-de-cabeça. Era a coisa mais simples, mais correta e mais genérica que se poderia dizer a alguém. Apenas um aviso de cinco palavras, e tudo estaria melhor. Nada complicado. Era só eu me esticar até a mesa ao lado, chamar a atenção do senhor que conversava e avisá-lo. Pronto. Nada que qualquer um não pudesse fazer. Mas eu era o único próximo, e dependia de mim evitar que aquele senhor tivesse que enfrentar as enxaquecas da burocracia que surge quando uma carteira se perde. Então por que eu travei?
Eu nunca fui muito de falar com estranhos, mesmo nas situações mais costumeiras. Não sabia direito como deveria chamar a atenção do senhor, nem o que deveria falar. Qualquer pessoa normal o avisaria sem piscar, mas eu não. Eu travei. Eu fiquei na dúvida. Eu hesitei por tempo demais. Eu praticamente deixei pra lá, embora soubesse que aquilo era errado. Eu tinha de avisar o senhor, e não conseguia reunir forças para fazer uma coisa besta dessas. Enquanto a carteira dele ainda estava dependurada em seu bolso, apenas com risco de ir ao chão, eu pude adiar e até fingir que nada acontecia. Mas quando o projétil efetivamente atingiu o piso de madeira, eu não tive escolha. Me levantei e me estiquei até a outra mesa.
"Senhor." Nada. "Senhor." Nada ainda. Bati na mesa. "Senhor." Ele olhou pra mim e eu o avisei. Ele agradeceu, pegou a carteira com um gesto amplo e rápido e eu voltei para meu lugar. Olhei para meu relógio de pulso, como sempre faço quando estou nervoso. O problema estava resolvido. Eu não tinha morrido, e tinha sido de grande ajuda para o senhor descuidado, pelo menos em minha cabeça. Eu estava de volta à minha mesa, sentado em minha cadeira, novamente conversando com meu pai, e estava tudo certo. Eu tinha feito a coisa certa, e não tinha doído nada. Mas, seguindo a linha de comportamento que eu sempre sigo quando faço alguma coisa que eu não me sinto confortável fazendo, eu comecei a pensar o que eu tinha feito de errado.
Eu tinha estalado os dedos. Eu deveria ter feito isso? Eu talvez tivesse sido meio seco. Será que eu tinha interrompido alguma conversa? Havia soado muito infantil? Talvez eu pudesse ser mais rápido. Eu tinha agido corretamente ao chamá-lo de senhor? Será que ele tinha se ofendido? Será que tinham achado o meu cabelo feio? Deveria eu mesmo ter pegado a carteira para ele? Eram dúvidas muito idiotas - eu havia feito a coisa certa, ponto final - entretanto, eu não conseguia me afastar delas. Questões vazias sempre me afligem nesse tipo de situação. Não era nenhuma novidade. O pior é que eu já tinha terminado o sorvete, e não havia nada instantâneo que eu pudesse fazer pra esquecer aquilo. Esquecer o quê? O meu subconsciente duelava consigo mesmo. Pobre de mim. Pelo menos eu tinha feito a coisa certa. Ou não.
Tenho uma dica de um texto p/ vc: o q fazer quando não há nada a fazer...
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