Dezesseis deles desceriam do Boeing em Galeão e dirigiriam-se, entusiasmados, até a ponte de desembarque, com máquinas em punho e a observar o Pão de Açúcar pronunciando-se no horizonte. Adentrariam o terminal de passageiros, no qual seriam recebidos por mulheres em uniformes coloridos - e curtos - dizendo "Bienvenidos a el Río, amigos!", e seriam então localizados por um guia turístico com feições latinas, chapéu panamá e camisa de cores tropicais. Seguiriam-lhe até a saída, antes da qual fariam uma parada em uma cafeteria. Lá, tomariam caipirinhas e fechariam a conta com uma provada do famoso "café brasileño" - como diria o guia, enquanto se recostasse desleixadamente na cadeira e sorrisse para todo mundo.
Sairiam do aeroporto já perto o suficiente de Ipanema para poder ver as moças de corpo dourado que por ali estariam passando, e tomariam então o ônibus aberto da companhia turística em direção à orla. O guia falaria das belezas naturais da cidade - em inglês, embora com um sotaque latino acentuadíssimo - e algum deles levaria uma bolada na cara de uns garotos que estariam improvisando uma pelada no meio da rua. Não ligariam, sorririam de volta, algum talvez descesse e arriscasse uma cobrança de pênalti - e a viagem seguiria, na maior tranquilidade, pois aquilo seria nada mais que a rotina.
Enquanto penetrassem a massa de pessoas em trajes carnavalescos que estariam sambando também no meio da rua ao som de um samba ambiente que dispensaria origem física, tirariam fotos de tudo, da massa que estariam penetrando ao horizonte sem nuvens de Copacabana, da praia onde meninas que viriam e passariam estariam de topless, rindo à beça com seus óculos escuros e chapelões artesanais, à calçada larguérrima e perfeitamente limpa pintada com um alegre padrão geométrico. Chegariam logo ao hotel, com vista para o mar castamente azul, e lá não fariam nada senão largar as malas e correr de volta para o ônibus.
Fariam como primeira parada uma visita à terceira maravilha do mundo, ao redor da qual bateriam uma série de fotos em que imitariam sua famosa pose de T minúsculo. Fariam uma pausa para contemplar a vista da cidade - mais de 80% da porção interior dela seria ocupada por mata virgem (um pedaço da Floresta Amazônica, explicaria o guia), bem para dentro da qual talvez fosse possível ver uma pirâmide maia ou duas. Dali eles desceriam eufóricos - de bonde, claro - e dirigiriam-se de imediato à famosa borda do continente que por ali se incluía. Lá, seriam contagiados por um clima upbeat de festa integral, pessoas cantando e dançando, iguarias sem par, um oceano convidativo e talvez até pássaros coloridos voando soltos, e alguns provavelmente arrumariam companhia para a noite que se anunciaria sem pressa - estamos, afinal de contas, no Brasil.
De volta ao hotel, os desocupados seriam avisados que a Sapucaí estaria sendo agitada pelo Carnaval semanal. Eles rapidamente se juntariam à comitiva de uma escola de samba - a Unidos da Tijuca, por exemplo - e sairiam dançando por aí como em seus sonhos mais, digamos, potencialmente turísticos. Voltariam, finalmente, ao hotel, e ali dormiriam. No dia seguinte, um tour incluso no pacote pelo pedaço da Amazônia, com seu patrimônio histórico, sua fauna exótica, seus índios.
Seguiriam na mesma toada até o fim do dia, da semana; até, enfim, expirar o pacote e eles estarem de volta a Galeão, ouvindo ressoar as folclóricas palavras "Última. Chamada. Voo. Um. Sete. Dois. Para. Nova. York. Portão. Quatro.". Isso, é claro, fosse este um cenário mundano: sendo este um cenário hollywoodiano, eles simplesmente iriam de lancha, você sabe, e conforme o barco se aproximasse do horizonte e se distanciasse de nós, projetariam-se na nossa frente, cobertas de glória, as palavras "The End".
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Escola católica
Era de fato um colégio fora dos padrões comuns às demais instituições; para nós, seus alunos de mais longa data, tratava-se de uma ilha no oceano pedagogo-burocrático de Vértices, Etapas, Bandeirantes e Objetivos. Talvez por ser uma escola católica, ou talvez apenas por ser um colégio mais indie, digamos, em meio a tantos sistemas de ensino consagrados e propagandeados nos veículos de comunicação, era mais do que isso: atrás de suas incontáveis paredes, nós estávamos abrigados dos problemas reais, do ensino privado real, daquilo que tanto falavam os adultos e do melhor desempenho no Enem confirmado pelo MEC de que se gabavam, incansavelmente, seus afamados concorrentes.
Também talvez por ser uma escola católica, estava sempre comemorando alguma coisa, fosse a Páscoa ou o aniversário da beata que inspirou o nome gravado nas fachadas, fosse o Natal ou a primeira comunhão das crianças da catequese. Havia, apropriadamente, um auditório, no qual nós, os alunos do curso opcional de teatro, subíamos anualmente sob a tutela de um professor notoriamente querido por todos - mais querido, até, e por grande margem, do que as irredutíveis e antipáticas senhoras de autoridade ambígua (freiras? pedagogas? empresárias?) que tocavam tudo. A Irmã S., em particular, era inacessível. Quando muito, nos lançava um olhar amedrontador ao topar conosco nos corredores.
Nossos professores, nos anos dourados do Ensino Fundamental I, eram polivalentes, e sempre tinham dois cromossomos X. (Todas, sem exceções, tinham o cabelo cor de caramelo.) No começo, eram nossas mães das 7h10 às 11h35; gradualmente, o complexo se dissolveu e elas envelheceram, já nos preparando para a desgraça que seria a troca constante de rostos em frente à lousa nos anos que se seguiriam. Fazíamos uso de uma agenda com certa frequência; não havia horários para as aulas e tudo fazia sentido na medida em que a professora o dissesse. Tudo era mais simples, embora as provas - lá conhecidas pelo nome de salão "avaliações" - fossem quase semanais.
A definição formal nos folhetos era a de uma escola sem fins lucrativos, embora ela não a fosse, como nossos pais viriam a perceber com o passar do tempo. Não importava: se tivéssemos que pagar para entrar em uma festa junina na qual nós mesmos iríamos apresentar coreografias, que assim fosse; se tivéssemos que nos contentar com 5% de desconto conseguidos na base do choro, que assim fosse; se tivéssemos que comprar livros de Ensino Religioso para aprender basicamente os fundamentos e pregações do catolicismo, que assim fosse. Os adultos é que se preocupassem com as finanças, nós só queríamos estar ali e continuar ali até que não desse mais.
Naquela escola, em que nas matérias reinava o politicamente correto e fora delas a ausência de questionamentos por nossa parte, transcorreram os quatro últimos anos da minha infância propriamente dita. Se ainda bate às vezes uma nostalgia ao me lembrar do curso opcional de teatro, da sala de artes, da nossa ignorância em relação aos horários e do caráter indie das aulas, deve ser porque a adolescência ainda não deu aquele último golpe que, dizem os mais velhos, deve me desconectar da minha fase Ensino Fundamental I, e, assim, deixar entrar aquilo que eu vou acabar contemplando como a melhor fase da minha vida - mesmo ela já tendo, estranhamente, me feito mergulhar no tal oceano pedagogo-burocrático e me matricular no Objetivo, que, para a minha sorte, teve o melhor desempenho no Enem confirmado pelo MEC.
Também talvez por ser uma escola católica, estava sempre comemorando alguma coisa, fosse a Páscoa ou o aniversário da beata que inspirou o nome gravado nas fachadas, fosse o Natal ou a primeira comunhão das crianças da catequese. Havia, apropriadamente, um auditório, no qual nós, os alunos do curso opcional de teatro, subíamos anualmente sob a tutela de um professor notoriamente querido por todos - mais querido, até, e por grande margem, do que as irredutíveis e antipáticas senhoras de autoridade ambígua (freiras? pedagogas? empresárias?) que tocavam tudo. A Irmã S., em particular, era inacessível. Quando muito, nos lançava um olhar amedrontador ao topar conosco nos corredores.
Nossos professores, nos anos dourados do Ensino Fundamental I, eram polivalentes, e sempre tinham dois cromossomos X. (Todas, sem exceções, tinham o cabelo cor de caramelo.) No começo, eram nossas mães das 7h10 às 11h35; gradualmente, o complexo se dissolveu e elas envelheceram, já nos preparando para a desgraça que seria a troca constante de rostos em frente à lousa nos anos que se seguiriam. Fazíamos uso de uma agenda com certa frequência; não havia horários para as aulas e tudo fazia sentido na medida em que a professora o dissesse. Tudo era mais simples, embora as provas - lá conhecidas pelo nome de salão "avaliações" - fossem quase semanais.
A definição formal nos folhetos era a de uma escola sem fins lucrativos, embora ela não a fosse, como nossos pais viriam a perceber com o passar do tempo. Não importava: se tivéssemos que pagar para entrar em uma festa junina na qual nós mesmos iríamos apresentar coreografias, que assim fosse; se tivéssemos que nos contentar com 5% de desconto conseguidos na base do choro, que assim fosse; se tivéssemos que comprar livros de Ensino Religioso para aprender basicamente os fundamentos e pregações do catolicismo, que assim fosse. Os adultos é que se preocupassem com as finanças, nós só queríamos estar ali e continuar ali até que não desse mais.
Naquela escola, em que nas matérias reinava o politicamente correto e fora delas a ausência de questionamentos por nossa parte, transcorreram os quatro últimos anos da minha infância propriamente dita. Se ainda bate às vezes uma nostalgia ao me lembrar do curso opcional de teatro, da sala de artes, da nossa ignorância em relação aos horários e do caráter indie das aulas, deve ser porque a adolescência ainda não deu aquele último golpe que, dizem os mais velhos, deve me desconectar da minha fase Ensino Fundamental I, e, assim, deixar entrar aquilo que eu vou acabar contemplando como a melhor fase da minha vida - mesmo ela já tendo, estranhamente, me feito mergulhar no tal oceano pedagogo-burocrático e me matricular no Objetivo, que, para a minha sorte, teve o melhor desempenho no Enem confirmado pelo MEC.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Colchão no recinto
Estávamos nós sentados no sofá como é de praxe, ouvindo a Fátima agradecer pelo apoio dos telespectadores nesses 14 anos de Jornal Nacional, nos preparando para adentrar a noite assistindo televisão, quando notei, silenciosamente, que ele continuava lá - talvez nunca tivesse ficado ali por tanto tempo, na verdade, e eu sabia que a sua remoção era iminente, mas ele continuava lá, firme e forte, a ignorar nossas pisadas e nossas tentativas de nos mantermos confortáveis a despeito de ele estar bloqueando os descansos para os pés.
Nós o colocamos lá no sábado, para viabilizar nosso pernoite deslocado enquanto visitas ocupavam o nosso quarto. Sobre ele dormimos, sobre ele acordamos e sobre ele nos mantivemos por todo o tempo em que estivemos a jogar videogame ou assistir o primeiro Senhor dos Anéis no dia seguinte: conforme íamos nos acostumando à ideia de tirar os chinelos para adentrar a sala de tevê, ele ia se infiltrando na nossa rotina, nos fazendo remir pacientemente seus contras de ordem prática, nos conquistando através de seu amortecimento e da possibilidade de se deitar no meio da sala, adaptando-se à paisagem com seu lençol tabaco. As visitas se foram no final do dia e ele continuou lá, apesar de tudo; um par de cidadãos que lá se deitara para ver TV por lá ficou durante a madrugada, e ele aproveitou para prolongar sua permanência por mais uma noite, mais uma tarde, mais vinte e quatro horas.
Nada passageiro resistiria à rotina em situações normais; decorações de Natal se desfazem, aglomerações de fungos se desfazem, pilhas de livros organizadas por cor e tamanho se desfazem, sonhos se desfazem, mas o colchão persistia, o colchão continuava deitado sobre o tapete da sala, perseverante e inabalável, atestando que aquela não era uma situação normal, que ele estava acima da rotina, que a vida poderia ser tão divertida quanto um pernoite deslocado e que se quiséssemos nos deitar no meio da sala, havia de ser tudo da lei. O colchão que então eu esperava que os demais presentes ignorassem era um refúgio, uma revolta contra a rotina, um acréscimo de humanidade ao ato de assistir televisão e ao fluxo ininterrupto e inclemente da vida. Enquanto houvesse um colchão no recinto, haveria o que fazer além do que eu já fazia havia treze anos e meio, haveria a possibilidade de se deitar no meio da sala, haveria esperança de um futuro mais livre da rotina e haveria um amortecimento para eventuais quedas de objetos.
No entanto, hoje à tarde voltamos para casa e nos deparamos com uma sala de estar vazia. Sem que eu tivesse tido a oportunidade de agir, o colchão e tudo o que ele significava em minha vida haviam sido engolidos pela rotina. Tudo voltou ao que era antes daquele fatídico sábado em um estalo; agora, nós podemos usar os descansos para os pés.
Nós o colocamos lá no sábado, para viabilizar nosso pernoite deslocado enquanto visitas ocupavam o nosso quarto. Sobre ele dormimos, sobre ele acordamos e sobre ele nos mantivemos por todo o tempo em que estivemos a jogar videogame ou assistir o primeiro Senhor dos Anéis no dia seguinte: conforme íamos nos acostumando à ideia de tirar os chinelos para adentrar a sala de tevê, ele ia se infiltrando na nossa rotina, nos fazendo remir pacientemente seus contras de ordem prática, nos conquistando através de seu amortecimento e da possibilidade de se deitar no meio da sala, adaptando-se à paisagem com seu lençol tabaco. As visitas se foram no final do dia e ele continuou lá, apesar de tudo; um par de cidadãos que lá se deitara para ver TV por lá ficou durante a madrugada, e ele aproveitou para prolongar sua permanência por mais uma noite, mais uma tarde, mais vinte e quatro horas.
Nada passageiro resistiria à rotina em situações normais; decorações de Natal se desfazem, aglomerações de fungos se desfazem, pilhas de livros organizadas por cor e tamanho se desfazem, sonhos se desfazem, mas o colchão persistia, o colchão continuava deitado sobre o tapete da sala, perseverante e inabalável, atestando que aquela não era uma situação normal, que ele estava acima da rotina, que a vida poderia ser tão divertida quanto um pernoite deslocado e que se quiséssemos nos deitar no meio da sala, havia de ser tudo da lei. O colchão que então eu esperava que os demais presentes ignorassem era um refúgio, uma revolta contra a rotina, um acréscimo de humanidade ao ato de assistir televisão e ao fluxo ininterrupto e inclemente da vida. Enquanto houvesse um colchão no recinto, haveria o que fazer além do que eu já fazia havia treze anos e meio, haveria a possibilidade de se deitar no meio da sala, haveria esperança de um futuro mais livre da rotina e haveria um amortecimento para eventuais quedas de objetos.
No entanto, hoje à tarde voltamos para casa e nos deparamos com uma sala de estar vazia. Sem que eu tivesse tido a oportunidade de agir, o colchão e tudo o que ele significava em minha vida haviam sido engolidos pela rotina. Tudo voltou ao que era antes daquele fatídico sábado em um estalo; agora, nós podemos usar os descansos para os pés.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Os 87%
Imagino que o leitor adepto do brasão corintiano, nos intervalos em que não está nas ruas a berrar a plenos pulmões as razões genéricas pelas quais daria a própria vida por uma organização esportiva, considere-se uma maioria consolidada e indiscutível no Brasil no campo das relações futebolísticas torcedor-time. Doravante, porém, recomendo-lhe que revise esta ideia, pois ela não poderia estar mais incorreta.
É um fato datafolhado que 13% dos torcedores no Brasil são corintianos, o que os torna a segunda maior torcida do país (e, a julgar pela situação da minha rua no período das 17h às 19h de ontem, a mais barulhenta). É um fato não-datafolhado, mas do conhecimento da população em geral, que esses 13% não hesitam em gabar-se desta estatística quando comparações entre os escudos vêm à tona. Mas um fato elementar ao qual os corintianos aparentam ser cegos é que, no que diz respeito ao Corinthians, os torcedores não se dividem em corintianos, gremistas, são-paulinos, palmeirenses: eles se dividem em corintianos e anti-corintianos.
A situação deles é semelhante à dos EUA, que são ao mesmo tempo amados incondicionalmente por seus patrióticos habitantes e odiados por virtualmente todo o terceiro mundo. O Corinthians, como o leitor não-corintiano bem sabe e o leitor corintiano finge não saber, é possivelmente o time mais odiado do Brasil: se 13% da população assume sem ter vergonha seu corintianismo muitas vezes doentio, os outros 87% da população assumem seu anti-corintianismo muitas vezes doentio sem menor segurança.
Veja um exemplo: faltam quatro dias para a decisão do campeonato. O assunto, claro, é pauta das discussões casuais entre os 29 alunos de uma turma do 8º ano de São Paulo (que, por coincidência, é onde a maior parte desses 13% se concentram). 4 desses alunos se assumem corintianos (o que, se você fizer as contas, equivale a 13%). Entre os demais, um consenso: Corinthians must not win, parafraseando Zelda. Todos sabem que seus respectivos times já não têm chances de vitória ou grandes conquistas; a reação imediata a essa constatação é torcer contra o Corinthians, com todas as forças que encontrarem, pois é assim que a torcida brasileira funciona.
Seja este ódio coletivo derivado dos problemas comportamentais de muitos corintianos, dos argumentos repetitivos usados por eles quando se fazem comparações entre os times, do fato de eles serem loucos assumidos ou da dificuldade em obter paz e sossego no período das 17h às 19h de domingo em ruas que, como a minha, são apinhadas de exemplares desses 13%, o fato é que todo mundo odeia o Corinthians, tanto quanto ou mais que ama o próprio time. E a decisão de última hora do Campeonato Brasileiro de 2011 não serviu para evidenciar a maioria absoluta da torcida corintiana e de seus 20 e poucos milhões, mas para comprovar a sua esmagadora minoria em relação aos 166 milhões de brasileiros que por ela nutrem um ódio muitas vezes doentio. Nos dias que antecederam o confronto final e indireto Corinthians x Vasco, gremistas, são-paulinos e palmeirenses uniram-se por um inimigo em comum: os 20 e poucos milhões que se achavam maioria. Eram, então, 166 milhões de torcedores contra, 166 milhões de vascaínos, 166 milhões de corações batendo vacilantemente sob a expectativa de um resultado que alegraria a nação: o Corinthians perder e o Vasco ganhar.
Apresentados os fatos, a gente imagina o quanto seria engraçado - e lógico - se uma multidão cercasse o Estádio do Pacaembu na tarde de ontem com placas dizendo "We are the 87%", à la Occupy Wall Street, e reivindicasse que os 13% baixassem um pouco a bola, porque - não adianta fingir que não - eles são minoria e se acham o contrário. Tivessem o Corinthians perdido e o Vasco ganhado, tudo que se seguisse seria melhor; a minha rua dormiria mais tranquila, o Faustão apresentaria a segunda parte de seu programa com um sorriso maior no rosto e o Sócrates ganharia uma menção póstuma mais digna na primeira página do Estadão.
Mas o Corinthians empatou em 0 a 0 e o Brasil amanheceu mais triste. Tomara que pelo menos você tenha ficado feliz aí em cima, doutor.
É um fato datafolhado que 13% dos torcedores no Brasil são corintianos, o que os torna a segunda maior torcida do país (e, a julgar pela situação da minha rua no período das 17h às 19h de ontem, a mais barulhenta). É um fato não-datafolhado, mas do conhecimento da população em geral, que esses 13% não hesitam em gabar-se desta estatística quando comparações entre os escudos vêm à tona. Mas um fato elementar ao qual os corintianos aparentam ser cegos é que, no que diz respeito ao Corinthians, os torcedores não se dividem em corintianos, gremistas, são-paulinos, palmeirenses: eles se dividem em corintianos e anti-corintianos.
A situação deles é semelhante à dos EUA, que são ao mesmo tempo amados incondicionalmente por seus patrióticos habitantes e odiados por virtualmente todo o terceiro mundo. O Corinthians, como o leitor não-corintiano bem sabe e o leitor corintiano finge não saber, é possivelmente o time mais odiado do Brasil: se 13% da população assume sem ter vergonha seu corintianismo muitas vezes doentio, os outros 87% da população assumem seu anti-corintianismo muitas vezes doentio sem menor segurança.
Veja um exemplo: faltam quatro dias para a decisão do campeonato. O assunto, claro, é pauta das discussões casuais entre os 29 alunos de uma turma do 8º ano de São Paulo (que, por coincidência, é onde a maior parte desses 13% se concentram). 4 desses alunos se assumem corintianos (o que, se você fizer as contas, equivale a 13%). Entre os demais, um consenso: Corinthians must not win, parafraseando Zelda. Todos sabem que seus respectivos times já não têm chances de vitória ou grandes conquistas; a reação imediata a essa constatação é torcer contra o Corinthians, com todas as forças que encontrarem, pois é assim que a torcida brasileira funciona.
Seja este ódio coletivo derivado dos problemas comportamentais de muitos corintianos, dos argumentos repetitivos usados por eles quando se fazem comparações entre os times, do fato de eles serem loucos assumidos ou da dificuldade em obter paz e sossego no período das 17h às 19h de domingo em ruas que, como a minha, são apinhadas de exemplares desses 13%, o fato é que todo mundo odeia o Corinthians, tanto quanto ou mais que ama o próprio time. E a decisão de última hora do Campeonato Brasileiro de 2011 não serviu para evidenciar a maioria absoluta da torcida corintiana e de seus 20 e poucos milhões, mas para comprovar a sua esmagadora minoria em relação aos 166 milhões de brasileiros que por ela nutrem um ódio muitas vezes doentio. Nos dias que antecederam o confronto final e indireto Corinthians x Vasco, gremistas, são-paulinos e palmeirenses uniram-se por um inimigo em comum: os 20 e poucos milhões que se achavam maioria. Eram, então, 166 milhões de torcedores contra, 166 milhões de vascaínos, 166 milhões de corações batendo vacilantemente sob a expectativa de um resultado que alegraria a nação: o Corinthians perder e o Vasco ganhar.
Apresentados os fatos, a gente imagina o quanto seria engraçado - e lógico - se uma multidão cercasse o Estádio do Pacaembu na tarde de ontem com placas dizendo "We are the 87%", à la Occupy Wall Street, e reivindicasse que os 13% baixassem um pouco a bola, porque - não adianta fingir que não - eles são minoria e se acham o contrário. Tivessem o Corinthians perdido e o Vasco ganhado, tudo que se seguisse seria melhor; a minha rua dormiria mais tranquila, o Faustão apresentaria a segunda parte de seu programa com um sorriso maior no rosto e o Sócrates ganharia uma menção póstuma mais digna na primeira página do Estadão.
Mas o Corinthians empatou em 0 a 0 e o Brasil amanheceu mais triste. Tomara que pelo menos você tenha ficado feliz aí em cima, doutor.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
O hífen
Eis mais uma prova de que o novo acordo ortográfico e os Jogos Pan-Americanos são uma combinação destruidora de lares:
- E então?
- Legal, filho.
- Só isso?
- Só, por quê?
- Eu esperava que você dissesse mais alguma coisa.
- Ah, o texto está bem escrito.
- E?
- E só.
- Só?
- Só. Você podia ter caprichado um pouquinho mais no layout.
- Lei o quê?
- Nada não.
- Tá ok.
- Ah, só mais uma coisa.
- Hã.
- Quadro de medalhas não tem hífen.
- Como não?
- Não tem, ué.
- Tem sim.
- Tem não.
- Claro que tem. É m termo só, tem um significado único. Quadro, hífen, de, hífen, medalhas.
- Não é não. Veja bem: "de medalhas" é adjunto. Não leva hífen.
- Leva, sim. "Casa-grande" leva, como é que hífen pode não levar?
- Por causa do "de".
- Que diferença faz o "de"?
- Torna composto, ou qualquer coisa assim.
- Não importa. Adjunto é adjunto. A regra é a mesma.
- Não, não é. Agora, com o novo acordo ortográfico...
- Peraí. Isso é por causa do novo acordo ortográfico?
- Não.
- Perdeu o hífen?
- Não...
- Era como, antes? Tudo junto, "quadrodemedalhas"?
- Não. Sempre foi separado e sem hífen.
- Pois mudou, então. Agora tem hífen.
- Nem é possível! Com o acordo, as coisas só perderam hífens.
- Pai, quem você acha que sabe mais do acordo?
- Hã?
- Até outro dia, você achava que "sanguíneo" tivesse trema.
- Aquilo foi um mal-entendido. Eu apenas...
- Você me fez escrever "guarda-chuva" sem hífen uma vez. Eu não vou deixar isso se repetir.
- Quando foi que eu falei pra você escrever "guarda-chuva" sem hífen?!
- Ah, não lembro, mas que falou, falou.
- Você está duvidando da minha competência ortográfica?
- Sim, bastante.
- Pois me dê este trabalho.
- Pra quê? O que é isso?!
- Isso é pra você aprender a não desafiar seu pai.
- Você tá maluco? Rasgar meu trabalho! Feito a mão!
- Não captou a mensagem? Meia quinzena sem McDonald's!
- "Meia quinzena"?
- Duas quinzenas!
- Não é mais fácil falar "uma semana" ou "um mês"?
- Tá se achando engraçado? Quatro quinzenas!
- Por que não trinta e oito, logo?
- Pois bem!
- O quê?
- Você que pediu!
- O quê?
- Não reclame.
- O quê?
- Baixou o vinil riscado, agora?
- Vinil?
- Pro seu quarto agora!
- Por quê?
- Pra você aprender a se comportar!
- Trancado no quarto sem fazer nada? Ótimo, vou aprender mais que na escola!
- Se não estiver gostando, eu paro de pagar e mando você para uma escola pública.
- Que seja! Eu nem sei pra que eu preciso saber que rochas magmáticas são formadas pelo acúmulo de sedimentos!
- É o contrário!
Solta-se um palavrão.
- Cuidado com a língua, menino!
Outro palavrão.
- Vai pro seu quarto!
- Não!
- Não?!
- Não! Você está sendo teimoso!
- Eeeu estou sendo teimoso?
- Isso mesmo! Você não tá pensando direito! Você tá ficando louco! Você tá ficando insuportável! Você não é mais meu pai!
- Não seja besta!
- Você não manda em mim!
- Chega!
- Chega nada! Eu não sou mais seu filho!
- Pois então... a recíproca é verdadeira!
- O que raios isso significa?!
- Eu é que não vou continuar pagando sua escola! Trate de procurar uma boa escola pública!
- É ruim!
- Ah, é, é?
- Eu vou pro meu quarto!
- Pois vai sair é deste apartamento e nunca mais põe os pés aqui!
- Se a mamãe conseguiu, eu consigo!
- Cale a boca!
- Eu nunca mais vou sair do meu quarto!
- Pois vai morrer de fome!
- Melhor que de raiva!
- Quem vai acabar morrendo de raiva sou eu!
- Então morra, morra!
- Perfeito!
- Que bom!
Vão cada um para um lado. Quase uma hora de silêncio se passa.
- Pai.
- Hã.
- Eu dei uma olhada no Google, e...
- E então?
- Legal, filho.
- Só isso?
- Só, por quê?
- Eu esperava que você dissesse mais alguma coisa.
- Ah, o texto está bem escrito.
- E?
- E só.
- Só?
- Só. Você podia ter caprichado um pouquinho mais no layout.
- Lei o quê?
- Nada não.
- Tá ok.
- Ah, só mais uma coisa.
- Hã.
- Quadro de medalhas não tem hífen.
- Como não?
- Não tem, ué.
- Tem sim.
- Tem não.
- Claro que tem. É m termo só, tem um significado único. Quadro, hífen, de, hífen, medalhas.
- Não é não. Veja bem: "de medalhas" é adjunto. Não leva hífen.
- Leva, sim. "Casa-grande" leva, como é que hífen pode não levar?
- Por causa do "de".
- Que diferença faz o "de"?
- Torna composto, ou qualquer coisa assim.
- Não importa. Adjunto é adjunto. A regra é a mesma.
- Não, não é. Agora, com o novo acordo ortográfico...
- Peraí. Isso é por causa do novo acordo ortográfico?
- Não.
- Perdeu o hífen?
- Não...
- Era como, antes? Tudo junto, "quadrodemedalhas"?
- Não. Sempre foi separado e sem hífen.
- Pois mudou, então. Agora tem hífen.
- Nem é possível! Com o acordo, as coisas só perderam hífens.
- Pai, quem você acha que sabe mais do acordo?
- Hã?
- Até outro dia, você achava que "sanguíneo" tivesse trema.
- Aquilo foi um mal-entendido. Eu apenas...
- Você me fez escrever "guarda-chuva" sem hífen uma vez. Eu não vou deixar isso se repetir.
- Quando foi que eu falei pra você escrever "guarda-chuva" sem hífen?!
- Ah, não lembro, mas que falou, falou.
- Você está duvidando da minha competência ortográfica?
- Sim, bastante.
- Pois me dê este trabalho.
- Pra quê? O que é isso?!
- Isso é pra você aprender a não desafiar seu pai.
- Você tá maluco? Rasgar meu trabalho! Feito a mão!
- Não captou a mensagem? Meia quinzena sem McDonald's!
- "Meia quinzena"?
- Duas quinzenas!
- Não é mais fácil falar "uma semana" ou "um mês"?
- Tá se achando engraçado? Quatro quinzenas!
- Por que não trinta e oito, logo?
- Pois bem!
- O quê?
- Você que pediu!
- O quê?
- Não reclame.
- O quê?
- Baixou o vinil riscado, agora?
- Vinil?
- Pro seu quarto agora!
- Por quê?
- Pra você aprender a se comportar!
- Trancado no quarto sem fazer nada? Ótimo, vou aprender mais que na escola!
- Se não estiver gostando, eu paro de pagar e mando você para uma escola pública.
- Que seja! Eu nem sei pra que eu preciso saber que rochas magmáticas são formadas pelo acúmulo de sedimentos!
- É o contrário!
Solta-se um palavrão.
- Cuidado com a língua, menino!
Outro palavrão.
- Vai pro seu quarto!
- Não!
- Não?!
- Não! Você está sendo teimoso!
- Eeeu estou sendo teimoso?
- Isso mesmo! Você não tá pensando direito! Você tá ficando louco! Você tá ficando insuportável! Você não é mais meu pai!
- Não seja besta!
- Você não manda em mim!
- Chega!
- Chega nada! Eu não sou mais seu filho!
- Pois então... a recíproca é verdadeira!
- O que raios isso significa?!
- Eu é que não vou continuar pagando sua escola! Trate de procurar uma boa escola pública!
- É ruim!
- Ah, é, é?
- Eu vou pro meu quarto!
- Pois vai sair é deste apartamento e nunca mais põe os pés aqui!
- Se a mamãe conseguiu, eu consigo!
- Cale a boca!
- Eu nunca mais vou sair do meu quarto!
- Pois vai morrer de fome!
- Melhor que de raiva!
- Quem vai acabar morrendo de raiva sou eu!
- Então morra, morra!
- Perfeito!
- Que bom!
Vão cada um para um lado. Quase uma hora de silêncio se passa.
- Pai.
- Hã.
- Eu dei uma olhada no Google, e...
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Apelo
Primeiramente, diga-se, leitor, que isto não é uma crônica. E não da mesma forma que o cachimbo naquela pintura de René Magritte não é um cachimbo ("Ceci n'est pas une chronique"?). Isso que você agora (no seu tempo) lê e que eu agora (no meu tempo) escrevo é, para ser franco, um apelo desesperado.
Veja bem: em 24 postagens - todas destinadas a serem crônicas, embora seja discutível quais delas tiveram sucesso - e 9 meses e meio de existência quase anônima, o meu blog recebeu um total acachapante de quatro comentários. Pode-se dizer que é ótimo para um iniciante, e eu realmente não tenho argumentos para refutar essa popular posição, mas o fato é que, sendo um escritor em busca de reconhecimento, eu sou completamente a favor de qualquer coisa que seja feita em prol de uma existência com mais feedback - a saber, o seu comentário.
Não tenha medo de postar sua opinião, leitor, pois o máximo que pode acontecer é eu removê-la deste domínio por indignação e sujar seu nome no campo das relações inter-bloggers (até agora não tenho nenhuma, mas quem sabe o que o futuro me reserva?). Sua vida continuará rigorosamente a mesma. E a minha se tornará inexprimivelmente melhor.
Um true writer escreve independentemente da opinião pública, é verdade; o leitor há de compreender, todavia, que eu ainda estou em processo de me tornar um true writer, e portanto julgo-me no direito de cometer os pecados que são praxe entre os rookie writers como eu. Ocorre que, entre tais pecados, o mais urgente, na atual conjuntura, é o meu desespero por feedback.
O leitor, que sempre foi tão compreensivo, deve entender que um rookie writer do meu estrato se alimenta da sua opinião e de bolachas maisena. Como o processo de envio de bolachas maisena pelo correio envolve um denso e desagradável papelório, a maior caridade que você leitor poderia fazer pela alma que escreve estas linhas é dar a sua opinião. Seja um comentário genérico de encorajamento, seja uma crítica construtiva, seja uma réplica de trinta linhas explicando como a mídia brasileira manipula as coisas em favor da direita, não importa; eu realmente só quero deixar de ignorar seu pensamento. Não cometa o imenso egoísmo de guardar suas opiniões acerca desta coletânea de crônicas para si, leitor; dê-lhes uma existência fora da sua mente, dê-lhes uma forma através dos afamados signos latinos (ou gregos, se lhe convier), posicione-as na caixa branca sob esta postagem e deixe que eu e o mundo saibam o que você acha dessa coisa anônima que é o meu blog: é tudo o que eu lhe peço para começar dezembro com o melhor pé (não me atrevo a dizer "direito" porque talvez menosprezar os canhotos seja politicamente incorreto). Obrigado.
Veja bem: em 24 postagens - todas destinadas a serem crônicas, embora seja discutível quais delas tiveram sucesso - e 9 meses e meio de existência quase anônima, o meu blog recebeu um total acachapante de quatro comentários. Pode-se dizer que é ótimo para um iniciante, e eu realmente não tenho argumentos para refutar essa popular posição, mas o fato é que, sendo um escritor em busca de reconhecimento, eu sou completamente a favor de qualquer coisa que seja feita em prol de uma existência com mais feedback - a saber, o seu comentário.
Não tenha medo de postar sua opinião, leitor, pois o máximo que pode acontecer é eu removê-la deste domínio por indignação e sujar seu nome no campo das relações inter-bloggers (até agora não tenho nenhuma, mas quem sabe o que o futuro me reserva?). Sua vida continuará rigorosamente a mesma. E a minha se tornará inexprimivelmente melhor.
Um true writer escreve independentemente da opinião pública, é verdade; o leitor há de compreender, todavia, que eu ainda estou em processo de me tornar um true writer, e portanto julgo-me no direito de cometer os pecados que são praxe entre os rookie writers como eu. Ocorre que, entre tais pecados, o mais urgente, na atual conjuntura, é o meu desespero por feedback.
O leitor, que sempre foi tão compreensivo, deve entender que um rookie writer do meu estrato se alimenta da sua opinião e de bolachas maisena. Como o processo de envio de bolachas maisena pelo correio envolve um denso e desagradável papelório, a maior caridade que você leitor poderia fazer pela alma que escreve estas linhas é dar a sua opinião. Seja um comentário genérico de encorajamento, seja uma crítica construtiva, seja uma réplica de trinta linhas explicando como a mídia brasileira manipula as coisas em favor da direita, não importa; eu realmente só quero deixar de ignorar seu pensamento. Não cometa o imenso egoísmo de guardar suas opiniões acerca desta coletânea de crônicas para si, leitor; dê-lhes uma existência fora da sua mente, dê-lhes uma forma através dos afamados signos latinos (ou gregos, se lhe convier), posicione-as na caixa branca sob esta postagem e deixe que eu e o mundo saibam o que você acha dessa coisa anônima que é o meu blog: é tudo o que eu lhe peço para começar dezembro com o melhor pé (não me atrevo a dizer "direito" porque talvez menosprezar os canhotos seja politicamente incorreto). Obrigado.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
O meu iPod
É um mal cada vez mais comum no Brasil, e, se você padece dessa síndrome, leitor, não vejo outra opção senão engolir e tocar adiante. Assim é a vida: para eles, os despreocupados, os sagitarianos, os cariocas, Deus reservou dias e noites tranquilos, possibilidades e uma sorte inacreditável, enquanto nós, os cabeças-quente, os perfeccionistas, os paulistanos, fomos relegados à obsessão sem causa, aos sonhos intranquilos, às responsabilidades e à Lei de Murphy - e, em cima de tudo, à irreversibilidade de nossa condição.
Não o digo em vingança contra nenhum despreocupado, sagitariano ou carioca que cruzou meu caminho, tampouco em desabafo pelos desprazeres dessa vida de neuroses e preocupações. O que me atribula é a súbita consciência que tomei da minha situação, no momento em que me vi livre de uma das suas inúmeras ingerências em meu cotidiano; o momento, para ser mais exato, em que iniciei a transferência de músicas da minha biblioteca para o tablet.
É tão desnecessário quanto soa, tão excessivamente burocrático quanto soa, e tão limitativo quanto soa, mas, por motivos que jamais fui capaz de entender, não consigo me desvencilhar do hábito de sair pesquisando a obra do artista no site da Amazon antes de começar a correr atrás dos finalmentes (as faixas, que fique claro). Minha vida torna-se mais complicada e o botão "Next" torna-se mais desgastado com as regras que, sabe Deus ou o diabo por quê, eu impus a mim mesmo desde o início do processo. Quantas vezes já não tive de escolher entre duas músicas de um artista, ou me forçar a ouvir determinada faixa do Michael Bublé de que eu nem gosto muito quando estou mais para Lily Allen, ou até mesmo cancelar completamente um artista de meus diretórios musicais por falta de material suficiente? Quantas vezes eu já não me flagrei sonhando com uma vida sem fronteiras e um iPod sem regras? E por que, oh meu Deus, por que eu não faço nada a respeito?
Já pensou se todos decidissem seguir o mau exemplo? O iTunes se tornaria um cartório, e uma vez que até nossa mais particular fonte de entretenimento fosse forçada a adaptar-se a padrões, seria uma questão de tempo até a vida tornar-se um mar burocrático, oprimido sem intervalo pela rígida fiscalização e por desumanismos como a categorização e a ordem alfabética; no mais, tudo perderia a graça e nós eventualmente nos pegaríamos vivendo em um caos da ordem, tal e qual uma repartição pública. E, ainda assim, eu continuo invariavelmente adicionando um par de artistas de cada vez.
E eis que, assim de repente, o tablet aparece na minha vida, vazio e pronto para ser preenchido com quaisquer faixas, e eis que eu tenho a oportunidade de começar do zero e fazer direito. Do dia para a noite, eu fui de um obcecado por organização com um tocador de MP3 desnecessariamente organizado para um obcecado por organização com um tocador de MP3 com não mais que a organização devida - tudo bem que uma geringonça de sete polegadas de diagonal não cabe no bolso, mas, enquanto houver sol e enquanto houver uma tomada de três pinos num raio de três metros, eu poderei ouvir música sem me preocupar com os próximos 2 artistas que pesquisarei no site da Amazon.
A vida agora é mais simples, o tempo começa a sobrar com mais frequência, tudo flui e de repente tudo pode continuar fluindo; o meu cotidiano, com todas as ingerências de minha situação, agora pode se descomplicar gradualmente; em breve, talvez, a medicina ocidental encontre uma cura e nós, cabeças-quente, perfeccionistas, paulistanos, seremos felizes para sempre a ouvir Lily Allen, ou, se estivermos mais a fim, Michael Bublé. E então, tudo estará melhor - com a provável exceção, lastimavelmente, do meu iPod.
Não o digo em vingança contra nenhum despreocupado, sagitariano ou carioca que cruzou meu caminho, tampouco em desabafo pelos desprazeres dessa vida de neuroses e preocupações. O que me atribula é a súbita consciência que tomei da minha situação, no momento em que me vi livre de uma das suas inúmeras ingerências em meu cotidiano; o momento, para ser mais exato, em que iniciei a transferência de músicas da minha biblioteca para o tablet.
Uma das maiores provas de minha neurose crônica e sem justificativa é o dogma que rege a seleção de músicas que chegam até meu iPod. A regra é clara, como diria Arnaldo César Coelho: 1) cada artista deve
ter oito músicas, nem mais nem menos, o que significa que uma música, por
melhor que seja, não pode ser adicionada sem que outras sete do mesmo artista
também sejam dignas; 2) o número de artistas femininos e masculinos deve ser o
mesmo; 3) as músicas adicionadas não podem ter sido compostas para trilhas
sonoras de filmes ou seriados; 4) deve haver um número igual de músicas por
idioma (até agora, todas são in english,
então tudo bem); 5) as músicas devem vir de discos lançados de 1996 para cima; 6)
faixas com qualquer tipo de ligação com o filho do Fábio Júnior são
terminantemente proibidas.
Já pensou se todos decidissem seguir o mau exemplo? O iTunes se tornaria um cartório, e uma vez que até nossa mais particular fonte de entretenimento fosse forçada a adaptar-se a padrões, seria uma questão de tempo até a vida tornar-se um mar burocrático, oprimido sem intervalo pela rígida fiscalização e por desumanismos como a categorização e a ordem alfabética; no mais, tudo perderia a graça e nós eventualmente nos pegaríamos vivendo em um caos da ordem, tal e qual uma repartição pública. E, ainda assim, eu continuo invariavelmente adicionando um par de artistas de cada vez.
E eis que, assim de repente, o tablet aparece na minha vida, vazio e pronto para ser preenchido com quaisquer faixas, e eis que eu tenho a oportunidade de começar do zero e fazer direito. Do dia para a noite, eu fui de um obcecado por organização com um tocador de MP3 desnecessariamente organizado para um obcecado por organização com um tocador de MP3 com não mais que a organização devida - tudo bem que uma geringonça de sete polegadas de diagonal não cabe no bolso, mas, enquanto houver sol e enquanto houver uma tomada de três pinos num raio de três metros, eu poderei ouvir música sem me preocupar com os próximos 2 artistas que pesquisarei no site da Amazon.
A vida agora é mais simples, o tempo começa a sobrar com mais frequência, tudo flui e de repente tudo pode continuar fluindo; o meu cotidiano, com todas as ingerências de minha situação, agora pode se descomplicar gradualmente; em breve, talvez, a medicina ocidental encontre uma cura e nós, cabeças-quente, perfeccionistas, paulistanos, seremos felizes para sempre a ouvir Lily Allen, ou, se estivermos mais a fim, Michael Bublé. E então, tudo estará melhor - com a provável exceção, lastimavelmente, do meu iPod.
sábado, 26 de novembro de 2011
Sarjeta metafórica
37 anos, casado, duas filhas, emprego estável, classe média-alta, residente em um apartamento no penúltimo andar de um edifício em Alphaville, comprado e decorado pela planta; íntegro, um livro aberto, sem ressentimentos familiares ou inimigos platônicos; um exemplo de ética e bons costumes no âmbito de seu condomínio e um profissional respeitado no âmbito do workplace vizinho ao seu condomínio. Um cidadão comum, por assim dizer; pai de família de comercial da Hasbro - tinha, inclusive, uma ou duas versões do Monopoly encaixados entre os outros artigos mundanos da estante da sala.
Certo dia, sentindo-se particularmente bem-humorado - o que geralmente significaria um prelúdio de uma cena digna de informe publicitário de apartamento, com a família rindo e jogando-se pelo carpete da sala -, decidiu contar uma piada à mesa.
- Qual é a diferença - inquiriu, do alto de sua inócua espontaneidade - entre um bastão de madeira e um asiático?
Sua esposa tossiu, prevendo o eufemismo que findaria o gracejo. Censurou-o com o olhar, temendo o efeito que o desfecho da anedota poderia ter aos castos ouvidos de suas duas filhas.
Ignorando os temores dela, ele sorriu, tão despreocupadamente quanto sua natureza lhe permitia.
Ela cerrou os punhos. Logo ele, que sempre havia sido um totem de integridade, vinha agora com aquela história, aquela piadinha de mau gosto, e com as crianças na mesa! Aquela piada não era tão somente uma piada: era uma invasão à sua vida pacata e moralizada, uma brecha que deixava entrar a vulgaridade, a obscenidade, os maus costumes, a imoralidade, a marginalização, o crime, e, logo mais, as drogas. Como a mãe de pulso firme que os vizinhos tinham por modelo, ela não devia aceitar aquilo. Ela não podia aceitar aquilo.
- Imorigerado! Libertino! Depravado! Energúmeno! - exclamou, num ímpeto. - Como você pôde?
- Eu...
- E ainda tem a pachorra de tentar se defender! Saia desta mesa! Você não é digno das receitas do meu novo livro da Palmirinha! Eu quero o divórcio!
Tentou reverter a situação, mas a mulher já não o ouvia. A mulher o queria longe daquele apartamento, de preferência longe daquele condomínio; melhor, fora do Brasil. Ele não discutiu. Arrumou as coisas e foi bater na porta de um amigo em Santana.
- Tem lugar aí dentro pra um desabrigado? - perguntou.
O amigo franziu a testa.
- Meça suas piadas! - disse, e fechou-lhe a porta na cara.
Mudou-se para um albergue em Tamboré. Esteve mudo pelas três semanas que se seguiram.
Continuou trabalhando em Alphaville. Certa vez, descobriu que era Dia da Secretária.
- Depois passe no meu escritório que eu tenho um presente - avisou à sua. - Sabe que dia é hoje?
Deu-lhe um tapa na cara e pediu demissão. O episódio o levou a ser dispensado pela companhia, com justa causa.
Foi morar em um hotel no centro. Certo dia, no aniversário da filha mais velha, levantou-se para discursar.
- A minha filha... - começou, perante os olhares esperançosos dos convidados. - O tempo que eu tive a oportunidade de passar com ela foi uma experiência simplesmente incrível!
A aniversariante se levantou e saiu correndo aos prantos para dentro de casa. Trancou-se no quarto. A mãe fitou o discursante, em fúria contida.
Ele deixou a festa antes do parabéns. Chamou um táxi.
- Para onde, chefe? - o taxista perguntou.
- Tenho de ir lá pra dentro - respondeu. - Dá?
- Pra dentro de onde?
- "Pra dentro de onde", ora essa.
Foi chutado para fora do táxi. Acabou pegando um ônibus para o hotel.
- Estou com problemas pessoais seríssimos - avisou ao porteiro. - Conhece alguém que eu possa ver?
O porteiro não soube o que dizer. Informou o caso à gerência. Em um ato de repúdio ao pedido, a gerência expulsou-o do hotel na manhã seguinte.
Dirigiu-se com o notebook a um café com Wi-Fi na vizinhança. Acabou encontrando uma moça alugando um quarto na Mooca. Foi dar uma olhada.
- Quanto é o período? - perguntou quando lhe atenderam.
Calhou de a moça ser uma ex-acompanhante. Virou-lhe as costas, ofendida, e bateu a porta.
Voltou ao mesmo café, determinado a encontrar um teto sob o qual viver. Acabou se distraindo com vídeos de auto-ajuda.
Sentiu um aperto no estômago. Não sabia o que fazer com o computador, então chegou para um atendente.
- Com licença - disse -, eu posso levar o meu notebook comigo para o banheiro?
- Senhor, este é um local público - o atendente, disse, surpreso.
- Eu sei, mas eu realmente preciso ir e eu não sei o que fazer com ele nesse meio-tempo. Além do mais, aqueles vídeos são realmente inspiradores. A rede Wi-Fi chega até os boxes?
O atendente foi falar com seus colegas atendentes e finalmente atingiu um veredicto.
- O senhor está convidado a se retirar desse estabelecimento, senhor - disse-lhe.
Saiu, sem saber para onde ir, carregando uma maleta com metade de sua estatura. Acabou indo a um bar.
Chegando lá, pediu um Kuat Zero ao barman, que o encarou como se ele tivesse pedido seu cabelo emprestado.
Ele desistiu. Começou a conversar com um sujeito ao seu lado, que lhe pagou um drinque.
- Eu não bebo - explicou.
O sujeito insistiu e ele bebeu.
Algum tempo depois, acabou indo morar na quitinete do sujeito. Ficou por lá uma semana e meia, quando então teve um estalo:
- Preciso de um emprego!
- Conheço um ótimo - o sujeito lhe disse.
- Sério?
- Sério. Aqui perto, vinte e seis a hora, pouca coisa. Se quiser, eu falo com o chefe.
- Melhor que isso, só...
- Não termine a frase - o sujeito o interrompeu. - Não gosto desse tipo de piada.
- Tudo bem... mas eu só ia...
- Eu sei o que você só ia. Eu sei muito bem o que você só ia. Eu só não gosto dessas piadas. É humor baixo. Horrível. Não conte esse tipo de piada.
Discutiram. Ele acabou banido.
Foi passar a noite em um motel ali perto. Na manhã seguinte, procurou um terapeuta. Encontrou uma na República que cobrava R$ 100 a sessão.
- Não sei mais o que eu faço, doutora - queixou-se. - Minha mulher me odeia, minhas filhas me odeiam, já fui expulso de vários lugares diferentes, todos me rejeitam, e não sei por quê.
- Você disse que haviam ficado ressentidos com algo que você havia falado?
- Ficaram, doutora. Não sei com o quê. O que eu acho é que todos estão com a mente na sarjeta. Acho que todos estão com a cabeça cheia de besteira. O que a doutora acha disso, doutora?
- O senhor está me assediando?
- De forma alguma, doutora.
- Eu sou uma mulher casada!
- Justamente, doutora.
- Como se atreve?
- Me atrevo a quê, doutora?
Ela prestou queixa e ele foi preso por assédio.
Na cadeia, foi contar sua história aos interessados.
- Foi tudo um mal-entendido, sabe? - ele explicou. - Foi tudo um grande mal-entendido.
- Claro - um dos colegas disse. - Sempre é. Eu não assaltei aquele casal, por exemplo. Aquele cara ali do canto não assassinou doze gatos domésticos entre março e agosto. São sempre mal-entendidos.
- Certamente - ele concordou. - Fico feliz que vocês entendam o meu sofrimento. Espero que possamos ter um relacionamento decente, apesar de tudo.
- Tá me tirando? - o colega disse, levantando-se. - Tá pensando que eu sou daqueles que...
- Calma, vocês entenderam mal. Eu não insinuei nada.
- Como é que é? - outro disse. - Cê acha que...
- Por favor, acalmem-se.
- Ah, entendi sua jogada - o primeiro falou. - Bom, a decisão é sua.
- Espera aí. Espera aí!...
Certo dia, sentindo-se particularmente bem-humorado - o que geralmente significaria um prelúdio de uma cena digna de informe publicitário de apartamento, com a família rindo e jogando-se pelo carpete da sala -, decidiu contar uma piada à mesa.
- Qual é a diferença - inquiriu, do alto de sua inócua espontaneidade - entre um bastão de madeira e um asiático?
Sua esposa tossiu, prevendo o eufemismo que findaria o gracejo. Censurou-o com o olhar, temendo o efeito que o desfecho da anedota poderia ter aos castos ouvidos de suas duas filhas.
Ignorando os temores dela, ele sorriu, tão despreocupadamente quanto sua natureza lhe permitia.
Ela cerrou os punhos. Logo ele, que sempre havia sido um totem de integridade, vinha agora com aquela história, aquela piadinha de mau gosto, e com as crianças na mesa! Aquela piada não era tão somente uma piada: era uma invasão à sua vida pacata e moralizada, uma brecha que deixava entrar a vulgaridade, a obscenidade, os maus costumes, a imoralidade, a marginalização, o crime, e, logo mais, as drogas. Como a mãe de pulso firme que os vizinhos tinham por modelo, ela não devia aceitar aquilo. Ela não podia aceitar aquilo.
- Imorigerado! Libertino! Depravado! Energúmeno! - exclamou, num ímpeto. - Como você pôde?
- Eu...
- E ainda tem a pachorra de tentar se defender! Saia desta mesa! Você não é digno das receitas do meu novo livro da Palmirinha! Eu quero o divórcio!
Tentou reverter a situação, mas a mulher já não o ouvia. A mulher o queria longe daquele apartamento, de preferência longe daquele condomínio; melhor, fora do Brasil. Ele não discutiu. Arrumou as coisas e foi bater na porta de um amigo em Santana.
- Tem lugar aí dentro pra um desabrigado? - perguntou.
O amigo franziu a testa.
- Meça suas piadas! - disse, e fechou-lhe a porta na cara.
Mudou-se para um albergue em Tamboré. Esteve mudo pelas três semanas que se seguiram.
Continuou trabalhando em Alphaville. Certa vez, descobriu que era Dia da Secretária.
- Depois passe no meu escritório que eu tenho um presente - avisou à sua. - Sabe que dia é hoje?
Deu-lhe um tapa na cara e pediu demissão. O episódio o levou a ser dispensado pela companhia, com justa causa.
Foi morar em um hotel no centro. Certo dia, no aniversário da filha mais velha, levantou-se para discursar.
- A minha filha... - começou, perante os olhares esperançosos dos convidados. - O tempo que eu tive a oportunidade de passar com ela foi uma experiência simplesmente incrível!
A aniversariante se levantou e saiu correndo aos prantos para dentro de casa. Trancou-se no quarto. A mãe fitou o discursante, em fúria contida.
Ele deixou a festa antes do parabéns. Chamou um táxi.
- Para onde, chefe? - o taxista perguntou.
- Tenho de ir lá pra dentro - respondeu. - Dá?
- Pra dentro de onde?
- "Pra dentro de onde", ora essa.
Foi chutado para fora do táxi. Acabou pegando um ônibus para o hotel.
- Estou com problemas pessoais seríssimos - avisou ao porteiro. - Conhece alguém que eu possa ver?
O porteiro não soube o que dizer. Informou o caso à gerência. Em um ato de repúdio ao pedido, a gerência expulsou-o do hotel na manhã seguinte.
Dirigiu-se com o notebook a um café com Wi-Fi na vizinhança. Acabou encontrando uma moça alugando um quarto na Mooca. Foi dar uma olhada.
- Quanto é o período? - perguntou quando lhe atenderam.
Calhou de a moça ser uma ex-acompanhante. Virou-lhe as costas, ofendida, e bateu a porta.
Voltou ao mesmo café, determinado a encontrar um teto sob o qual viver. Acabou se distraindo com vídeos de auto-ajuda.
Sentiu um aperto no estômago. Não sabia o que fazer com o computador, então chegou para um atendente.
- Com licença - disse -, eu posso levar o meu notebook comigo para o banheiro?
- Senhor, este é um local público - o atendente, disse, surpreso.
- Eu sei, mas eu realmente preciso ir e eu não sei o que fazer com ele nesse meio-tempo. Além do mais, aqueles vídeos são realmente inspiradores. A rede Wi-Fi chega até os boxes?
O atendente foi falar com seus colegas atendentes e finalmente atingiu um veredicto.
- O senhor está convidado a se retirar desse estabelecimento, senhor - disse-lhe.
Saiu, sem saber para onde ir, carregando uma maleta com metade de sua estatura. Acabou indo a um bar.
Chegando lá, pediu um Kuat Zero ao barman, que o encarou como se ele tivesse pedido seu cabelo emprestado.
Ele desistiu. Começou a conversar com um sujeito ao seu lado, que lhe pagou um drinque.
- Eu não bebo - explicou.
O sujeito insistiu e ele bebeu.
Algum tempo depois, acabou indo morar na quitinete do sujeito. Ficou por lá uma semana e meia, quando então teve um estalo:
- Preciso de um emprego!
- Conheço um ótimo - o sujeito lhe disse.
- Sério?
- Sério. Aqui perto, vinte e seis a hora, pouca coisa. Se quiser, eu falo com o chefe.
- Melhor que isso, só...
- Não termine a frase - o sujeito o interrompeu. - Não gosto desse tipo de piada.
- Tudo bem... mas eu só ia...
- Eu sei o que você só ia. Eu sei muito bem o que você só ia. Eu só não gosto dessas piadas. É humor baixo. Horrível. Não conte esse tipo de piada.
Discutiram. Ele acabou banido.
Foi passar a noite em um motel ali perto. Na manhã seguinte, procurou um terapeuta. Encontrou uma na República que cobrava R$ 100 a sessão.
- Não sei mais o que eu faço, doutora - queixou-se. - Minha mulher me odeia, minhas filhas me odeiam, já fui expulso de vários lugares diferentes, todos me rejeitam, e não sei por quê.
- Você disse que haviam ficado ressentidos com algo que você havia falado?
- Ficaram, doutora. Não sei com o quê. O que eu acho é que todos estão com a mente na sarjeta. Acho que todos estão com a cabeça cheia de besteira. O que a doutora acha disso, doutora?
- O senhor está me assediando?
- De forma alguma, doutora.
- Eu sou uma mulher casada!
- Justamente, doutora.
- Como se atreve?
- Me atrevo a quê, doutora?
Ela prestou queixa e ele foi preso por assédio.
Na cadeia, foi contar sua história aos interessados.
- Foi tudo um mal-entendido, sabe? - ele explicou. - Foi tudo um grande mal-entendido.
- Claro - um dos colegas disse. - Sempre é. Eu não assaltei aquele casal, por exemplo. Aquele cara ali do canto não assassinou doze gatos domésticos entre março e agosto. São sempre mal-entendidos.
- Certamente - ele concordou. - Fico feliz que vocês entendam o meu sofrimento. Espero que possamos ter um relacionamento decente, apesar de tudo.
- Tá me tirando? - o colega disse, levantando-se. - Tá pensando que eu sou daqueles que...
- Calma, vocês entenderam mal. Eu não insinuei nada.
- Como é que é? - outro disse. - Cê acha que...
- Por favor, acalmem-se.
- Ah, entendi sua jogada - o primeiro falou. - Bom, a decisão é sua.
- Espera aí. Espera aí!...
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Maldito litoral
Olha, eu até entendo as pessoas que, na falta de uma piscina ou coisa que o valha, afastam as implicações de uma sensação térmica elevada descendo à borda do continente, se dispondo a ir a público seminuas e ocasionalmente se arriscando a, até que a maré suba, mergulhar em um mar de incontáveis fluidos não-identificados. O que eu não entendo, o leitor que me desculpe, são aqueles que o fazem em toda oportunidade que avistam, seja ela uma semana de férias, um feriado de quarta-feira ou duas horas a menos no expediente, faça frio ou faça calor, queiram os demais envolvidos ou não.
Não tenho nada contra as praias propriamente ditas; são lugares até simpáticos, dependendo da hora e do local (convenhamos que há praias e praias). Fosse este um mundo sem praia, muitos sairiam perdendo: os casais apaixonados; o patrimônio natural da humanidade; as indústrias de filtro solar; o cinema; as tartarugas. Mas, senhor leitor que desce de carro até a orla de Santos por opção na ausência do calor e de uma data justificável, procure entender o meu ponto de vista.
Praias, ao menos aquelas que o destino e a ocupação populacional irregular reservaram para nós, integrantes da tão famosa classe média, nunca foram lugares agradáveis para mim. Fico sempre à espera de um acontecimento estarrecedor, seja ele um tsunami, uma bolada, um arrastão ou um siri; estremeço só de imaginar todas as partículas estranhas ali e no mar salgado presentes; nunca fiquei muito confortável em apresentar-me em trajes de banho para passeios em locais públicos; além de tudo, não sou fã de água-de-coco.
Já são fatores suficientes para justificar minha aversão um tanto compulsiva às áreas litorâneas comuns ao público. A isso, some o fato de que todo paulistano parece preferir ir à praia sempre que se vê livre da labuta. O resultado, os engarrafamentos humanos que tomam as areias do litoral paulista a cada feriado, é praticamente um sinal de "Pare" para alguém que, como aquele que vos fala (escreve), não é inclinado às multidões, principalmente às multidões em trajes mínimos.
Os meus assuntos não-resolvidos com as bordas continentais não param por aí. Sempre que eu e os meus, em um de nossos devaneios excessivamente otimistas, nos perguntamos onde passar o resto de nossas vidas caso um prêmio das Loterias Caixa venha a nos agraciar, eu evito locais com vista para o mar - o leitor menos informado deve entender que há uma chance de, até 2050, o gelo das calotas polares derreter com o efeito estufa e ir parar nos litorais, dando um ponto final à história de vida de qualquer casal apaixonado ou tartaruga que se meta a ficar por ali mesmo. Como eu tenho um fraco pela existência, fico com os que preferem não correr o risco e montar acampamento o mais longe possível do mar, mesmo ele sendo tão lindo e azul.
Seguindo essa linha de pensamento, eu tive até sorte de ter nascido cá em São Paulo, apesar dos pesares. Até que eu precise da SP-160 para servir a meus objetivos, não terei que me preocupar em bater de frente com o maldito litoral e as discórdias entre nós. Pois, fosse esse um mundo sem praia, muitos sairiam ganhando: os parques em visitantes; o dogma dos feriados em riqueza cultural; a Imigrantes em tranquilidade; os mares em condições biológicas; eu em simpatizantes. E o litoral, imagino, poderia descansar em paz.
Não tenho nada contra as praias propriamente ditas; são lugares até simpáticos, dependendo da hora e do local (convenhamos que há praias e praias). Fosse este um mundo sem praia, muitos sairiam perdendo: os casais apaixonados; o patrimônio natural da humanidade; as indústrias de filtro solar; o cinema; as tartarugas. Mas, senhor leitor que desce de carro até a orla de Santos por opção na ausência do calor e de uma data justificável, procure entender o meu ponto de vista.
Praias, ao menos aquelas que o destino e a ocupação populacional irregular reservaram para nós, integrantes da tão famosa classe média, nunca foram lugares agradáveis para mim. Fico sempre à espera de um acontecimento estarrecedor, seja ele um tsunami, uma bolada, um arrastão ou um siri; estremeço só de imaginar todas as partículas estranhas ali e no mar salgado presentes; nunca fiquei muito confortável em apresentar-me em trajes de banho para passeios em locais públicos; além de tudo, não sou fã de água-de-coco.
Já são fatores suficientes para justificar minha aversão um tanto compulsiva às áreas litorâneas comuns ao público. A isso, some o fato de que todo paulistano parece preferir ir à praia sempre que se vê livre da labuta. O resultado, os engarrafamentos humanos que tomam as areias do litoral paulista a cada feriado, é praticamente um sinal de "Pare" para alguém que, como aquele que vos fala (escreve), não é inclinado às multidões, principalmente às multidões em trajes mínimos.
Os meus assuntos não-resolvidos com as bordas continentais não param por aí. Sempre que eu e os meus, em um de nossos devaneios excessivamente otimistas, nos perguntamos onde passar o resto de nossas vidas caso um prêmio das Loterias Caixa venha a nos agraciar, eu evito locais com vista para o mar - o leitor menos informado deve entender que há uma chance de, até 2050, o gelo das calotas polares derreter com o efeito estufa e ir parar nos litorais, dando um ponto final à história de vida de qualquer casal apaixonado ou tartaruga que se meta a ficar por ali mesmo. Como eu tenho um fraco pela existência, fico com os que preferem não correr o risco e montar acampamento o mais longe possível do mar, mesmo ele sendo tão lindo e azul.
Seguindo essa linha de pensamento, eu tive até sorte de ter nascido cá em São Paulo, apesar dos pesares. Até que eu precise da SP-160 para servir a meus objetivos, não terei que me preocupar em bater de frente com o maldito litoral e as discórdias entre nós. Pois, fosse esse um mundo sem praia, muitos sairiam ganhando: os parques em visitantes; o dogma dos feriados em riqueza cultural; a Imigrantes em tranquilidade; os mares em condições biológicas; eu em simpatizantes. E o litoral, imagino, poderia descansar em paz.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
As jabuticabas, as novas tomadas e o Enem
O engraçado é que, colocando-se à parte todas as formas de vida baseadas em carbono que, lá no começo, tiveram a mal calculada ideia de povoar este planeta, o glamour não é uma coisa franco-americana como aparenta na etimologia, nos cardápios de sobremesa, no vocabulário do paulistano e naqueles pré-shows que o E! exibe antes dos Oscars da vida. Se estou certo em afirmar que o conceito de glamour é fundamentado na ideia do exclusivo, então, minha senhora que tira as sextas-feiras para torrar cartões e enlouquecer seu cônjuge na Rua Oscar Freire, o tal do glamour é indubitavelmente brasileiro.
Eu, que tenho todo esse tempo livre, poderia passar o dia citando exemplos do nosso exclusivismo por natureza. Mas eu só vou lembrar uma espécie Brazilian only, aquela que na minha opinião é mais incrível pensar que só cresce em solo brasileiro: o cronista.
Vejam vocês: as crônicas, assim como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem, são brasileiras e nada mais. O mundo todo escreve artigos, claro, mas, na medida em que ninguém nunca conseguiu pensar em uma definição sequer razoável para o gênero "crônica", em toda a sua abrangência, fora do Brasil não há quem escreva um texto com aquele quê a mais que a crônica tem em relação ao artigo.
Não é culpa dos gringos. Eles simplesmente a desconhecem. A empreitada rumo à redação de uma crônica propriamente dita é comparável à de um herói de desenhos infanto-juvenis que não recebe detalhes acerca de sua própria missão: você saberá que é quando vir, e ponto. Não há como definir uma crônica, ou explicar por que tal texto do Walcyr Carrasco no final da Vejinha é ou deixa de ser uma, mas você simplesmente sabe. Isto aqui, por exemplo, é uma crônica. Os textos 3, 9 ou 12 desse blog, por outro lado, eu já não tenho tanta certeza. Por quê? Nem Freud explica: Freud, coitado, era austríaco, e, como tal, não conhecia a crônica e tudo o que ela implica. Quem explica, conclui-se, não é uma apostila de português, a página da Wikipédia ou sequer o Luís Fernando Veríssimo.
Como todas as coisas realmente boas da vida, crônicas não se explicam, nem mesmo através de metáforas como "Crônicas são o meio-termo entre poesia e prosa" e "Crônicas são a esfera mais humana da literatura" (ambas de minha autoria). Elas simplesmente (e eu não quero que isso soe como um enxerto de literatura modernista) são. E, por mais incrível que possa soar aos nossos ouvidos, com o complexo de vira-lata e tudo, elas são brasileiras. Como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem. Simples assim.
Eu, que tenho todo esse tempo livre, poderia passar o dia citando exemplos do nosso exclusivismo por natureza. Mas eu só vou lembrar uma espécie Brazilian only, aquela que na minha opinião é mais incrível pensar que só cresce em solo brasileiro: o cronista.
Vejam vocês: as crônicas, assim como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem, são brasileiras e nada mais. O mundo todo escreve artigos, claro, mas, na medida em que ninguém nunca conseguiu pensar em uma definição sequer razoável para o gênero "crônica", em toda a sua abrangência, fora do Brasil não há quem escreva um texto com aquele quê a mais que a crônica tem em relação ao artigo.
Não é culpa dos gringos. Eles simplesmente a desconhecem. A empreitada rumo à redação de uma crônica propriamente dita é comparável à de um herói de desenhos infanto-juvenis que não recebe detalhes acerca de sua própria missão: você saberá que é quando vir, e ponto. Não há como definir uma crônica, ou explicar por que tal texto do Walcyr Carrasco no final da Vejinha é ou deixa de ser uma, mas você simplesmente sabe. Isto aqui, por exemplo, é uma crônica. Os textos 3, 9 ou 12 desse blog, por outro lado, eu já não tenho tanta certeza. Por quê? Nem Freud explica: Freud, coitado, era austríaco, e, como tal, não conhecia a crônica e tudo o que ela implica. Quem explica, conclui-se, não é uma apostila de português, a página da Wikipédia ou sequer o Luís Fernando Veríssimo.
Como todas as coisas realmente boas da vida, crônicas não se explicam, nem mesmo através de metáforas como "Crônicas são o meio-termo entre poesia e prosa" e "Crônicas são a esfera mais humana da literatura" (ambas de minha autoria). Elas simplesmente (e eu não quero que isso soe como um enxerto de literatura modernista) são. E, por mais incrível que possa soar aos nossos ouvidos, com o complexo de vira-lata e tudo, elas são brasileiras. Como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem. Simples assim.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
O vinil
Se o mundo fosse uma vitrola, o Brasil seria um single com lado A e lado B. Seria um vinil riscado, no caso, com um lado menos audível do que o outro, e teria uma capa colorida e bem-acabada, na qual o disco não caberia direito. E, interpretações à parte, nele um bom ouvinte reconheceria uma bela gravação, que teria sofrido com o péssimo manuseio de seus proprietários ao longo dos anos.
O Brasil é, sem dúvida, um dos mais belos países do mundo. Temos flora e fauna invejáveis, belas praias, paisagens únicas, solo fértil e - como se isso tudo não bastasse - invulnerabilidade contra quase todos os desastres naturais conhecidos. É quase um paraíso!
Ironia ou não, qualquer pessoa bem informada entre os 191 milhões e poucos habitantes da raça humana que ocupam este paraíso corre sério risco de se perguntar, mais cedo ou mais tarde, se nasceu no país certo. O Brasil é o ápice do terceiro-mundismo contemporâneo, uma potência em potencial com números que sugerem crescimento econômico mas negam qualquer outro crescimento, a não ser o do patrimônio de nossos líderes. Na política, a frase "o poder corrompe" é privada de exceções; na cultura, o que é realmente bom rareia e o que é ruim é ruim mesmo; na sociedade, estão os culpados de tudo isso.
Desde a nossa definição histórica como "colônia de exploração" até a lástima que hoje é assistir a um telejornal, passando por atos de liberdade regados a interesses, mortes misteriosas, impeachments esquecidos, derrotas nos mais diversos campos e o confronto um-é-pior-que-o-outro entre militares e guerrilheiros durante a ditadura, tudo na nossa história parece ter dado errado. Tudo parece apontar que o único caminho são é até o aeroporto internacional mais próximo.
Mas o vinil sempre tem um lado B.
E o lado B do Brasil é sua pluralidade. Há 26 estados (25, para quem acha mais sensato afirmar que o Acre não existe) distribuídos pelo nosso território, cada um com uma cultura rica em peculiaridades. Há desvantagens, é claro, em ter o quinto maior território do mundo, mas é desse dado que parece vir o único argumento válido dos patriotas. Cada uma das regiões do Brasil é única e nutre uma cultura e um folclore absolutamente particulares. Não é à toa que ir do sul para o norte do Brasil é como ir a um outro país; as artes típicas de todos os espaços entre - desculpem a cafonice - o Oiapoque e o Chuí são dignas de admiração; a comida, os costumes, as roupas, tudo é espetacular para os que se esforçam em conhecer. E é isso que faz com que o Brasil não seja um caso perdido.
Por isso, viva o Brasil, este belíssimo país em que certas regiões são tidas como desnecessárias, patriotas são mal-informados, leitores de jornal são masoquistas e a burocracia é temperamental. Ainda vamos nos perguntar se nascemos no país certo algumas vezes, e, a julgar pelo nosso histórico, o que está ruim não vai mudar tão cedo, mas podemos levar tudo numa boa por mais algum tempo, porque, segundo a propaganda partidária, somos todos de classe média alta.
O Brasil é, sem dúvida, um dos mais belos países do mundo. Temos flora e fauna invejáveis, belas praias, paisagens únicas, solo fértil e - como se isso tudo não bastasse - invulnerabilidade contra quase todos os desastres naturais conhecidos. É quase um paraíso!
Ironia ou não, qualquer pessoa bem informada entre os 191 milhões e poucos habitantes da raça humana que ocupam este paraíso corre sério risco de se perguntar, mais cedo ou mais tarde, se nasceu no país certo. O Brasil é o ápice do terceiro-mundismo contemporâneo, uma potência em potencial com números que sugerem crescimento econômico mas negam qualquer outro crescimento, a não ser o do patrimônio de nossos líderes. Na política, a frase "o poder corrompe" é privada de exceções; na cultura, o que é realmente bom rareia e o que é ruim é ruim mesmo; na sociedade, estão os culpados de tudo isso.
Desde a nossa definição histórica como "colônia de exploração" até a lástima que hoje é assistir a um telejornal, passando por atos de liberdade regados a interesses, mortes misteriosas, impeachments esquecidos, derrotas nos mais diversos campos e o confronto um-é-pior-que-o-outro entre militares e guerrilheiros durante a ditadura, tudo na nossa história parece ter dado errado. Tudo parece apontar que o único caminho são é até o aeroporto internacional mais próximo.
Mas o vinil sempre tem um lado B.
E o lado B do Brasil é sua pluralidade. Há 26 estados (25, para quem acha mais sensato afirmar que o Acre não existe) distribuídos pelo nosso território, cada um com uma cultura rica em peculiaridades. Há desvantagens, é claro, em ter o quinto maior território do mundo, mas é desse dado que parece vir o único argumento válido dos patriotas. Cada uma das regiões do Brasil é única e nutre uma cultura e um folclore absolutamente particulares. Não é à toa que ir do sul para o norte do Brasil é como ir a um outro país; as artes típicas de todos os espaços entre - desculpem a cafonice - o Oiapoque e o Chuí são dignas de admiração; a comida, os costumes, as roupas, tudo é espetacular para os que se esforçam em conhecer. E é isso que faz com que o Brasil não seja um caso perdido.
Por isso, viva o Brasil, este belíssimo país em que certas regiões são tidas como desnecessárias, patriotas são mal-informados, leitores de jornal são masoquistas e a burocracia é temperamental. Ainda vamos nos perguntar se nascemos no país certo algumas vezes, e, a julgar pelo nosso histórico, o que está ruim não vai mudar tão cedo, mas podemos levar tudo numa boa por mais algum tempo, porque, segundo a propaganda partidária, somos todos de classe média alta.
Nota do autor: Esse é o famoso texto que me levou à conquista daquele tablet da crônica 17, conforme explicado no último post. Foi escrito em meados de abril ou maio, se não me falha a memória, seguindo o tema "Brasil: pluralidade e contrastes". Eu mudei algumas coisinhas do original, incluindo o título (o original é "511 anos depois"), mas fora isso está tudo igual.
CLIQUE aqui
E não é que, após anos especulando intensamente, as pessoas realmente acham que eu escrevo bem afinal de contas? A constatação me atingiu quinta-feira passada, dia 10, mais ou menos às 23h, no teatro do campus Indianópolis da Unip, na Avenida José Maria Whitaker, 373, Mirandópolis, São Paulo.
O negócio é mais ou menos o seguinte: todo ano, o Objetivo (sim, eu estudo no Objetivo) faz esse concurso literário conhecido pela enxuta sigla CLICO, em que todos aqueles sujeitos classe-média-alta/bolsistas que estudam em Objetivos de Alphaville ao Brooklin escrevem um texto livre em torno de um tema que varia anualmente, o que culmina no dia em que, após os referidos textos atravessarem várias camadas burocráticas e só alguns sobreviverem para contar a história, é realizada uma noite de gala na Vila Mariana na qual ficamos sentados por duas horas e pouco torcendo uns contra os outros enquanto nossos pais passam o tempo filmando aqueles que vão ao palco cantar e dançar. No fim de tudo, os autores dos cinco textos de cada categoria etária que mais agradaram o júri - que sempre é exclusivamente feminino - são agraciados com um aparato tech da moda, um livro do Rick Riordan e a publicação de seu texto em um livreto de folhas semi-plásticas que é distribuído na saída, além do direito à bazófia e do ódio coletivo dos demais participantes e dos colegas de classe que cobiçavam o tal aparato tech.
Acontece de eu já ter saído vencedor do tal CLICO, logo que entrei no Objetivo, dois anos atrás. À época, os elogios de familiares e professores não foram poucos e os problemas descobertos no Windows Vista de meu prêmio também não. Falou-se do quão oportuno meu texto tinha sido ao tratar de um blecaute, quando, alguns meses após ele ter sido escrito e alguns meses antes da premiação ocorrer, deu-se um grande blecaute de fato na metade sul deste país.
Isso me levou a temer as consequências de escrever um texto muito negativo sobre o tema "Água" no ano seguinte, mas eu o fiz, ignorando as possíveis consequências de minha poesia ter mais poder do que eu podia compreender. Felizmente para minha consciência, afogamento não se tornou uma causa de morte significativamente mais comum no aftermath e eu ainda fiquei em quarto.
Um ano se passou.
E chegamos em 2011, ano do meu ingresso na categoria Sênior, também conhecida como a categoria peso-pesado do concurso. O tema era um convite ao clichê: "Brasil". É claro que, como tudo que há de bom no país, a burocracia protelou o anúncio dos vencedores pra o final do ano, quando o texto foi por nós escrito em meados de maio.
Meses se passaram, a vida foi sendo vivida, e Novembro chegou, assim tão de repente que eu até já me esquecera do concurso em questão. Tudo ótimo; segundo a melhor fonte a que eu tinha acesso, que atende pelo nome de Professora Tal de Português (seu nome será omitido para evitar desconfortos no jurídico), eu tinha, afinal, garantido uma lasca do prêmio: os vinte e cinco finalistas foram divulgados, e meu nome estava lá no meio novamente.
Continuei vivendo, tentando ignorar o momento em que tudo mudaria, mas ele deu as caras antes que eu tivesse tempo de me preparar psicologicamente para a minha provável eliminação precoce - que jurado que tema a possibilidade de perder a credibilidade daria o prêmio ao mesmo infeliz duas vezes no espaço de três anos? -, e de repente eu estava no shopping comprando uma roupa nova para a cerimônia.
O dia chegou, enfim, e tudo transcorreu como deveria. Após atravessar uma noite cheia de surpresas, um infarto era iminente, tanto para mim quanto para o resto da minha torcida composta primariamente por familiares e afins. Acabando, após duas rodadas de eliminação (que não tinham esse nome no cronograma), por ficar sabendo que eu estava entre os dois primeiros colocados, eu comecei a torcer por um segundo lugar - ao que me parecia, a segunda colocada da categoria etária inferior tinha ganhado um notebook, e eu realmente precisava de um novo; esse meu ainda tem Windows Vista!
O segundo lugar não veio. E eu passei tão rápido pelo palco quando enfim chamaram meu nome, no final da solenidade, que comentou-se nos bastidores que fora difícil bater uma foto minha apertando a mão do coordenador-geral de Português.
E, como de costume, a primeira coisa que perguntaram no dia seguinte foi qual era o prêmio. Lembra do tablet da crônica 17? Pois é.
Por fim, eu acordei no sábado com uma tosse em decorrência do que meus pais chamaram de "emoções muito fortes". Não pude contra-argumentar, fato; embora eu tivesse passado a sexta-feira enxergando defeitos em meu próprio texto, como é de praxe em escritores que relêem material seu meses após ele ter sido escrito, se eu realmente sou alguém digno do primeiro lugar duas vezes sob condição de possível linchamento da comissão julgadora, quer dizer que me acham, realmente, um bom escritor. E, por enquanto, ainda que na ausência do Windows 7, isso basta.
O negócio é mais ou menos o seguinte: todo ano, o Objetivo (sim, eu estudo no Objetivo) faz esse concurso literário conhecido pela enxuta sigla CLICO, em que todos aqueles sujeitos classe-média-alta/bolsistas que estudam em Objetivos de Alphaville ao Brooklin escrevem um texto livre em torno de um tema que varia anualmente, o que culmina no dia em que, após os referidos textos atravessarem várias camadas burocráticas e só alguns sobreviverem para contar a história, é realizada uma noite de gala na Vila Mariana na qual ficamos sentados por duas horas e pouco torcendo uns contra os outros enquanto nossos pais passam o tempo filmando aqueles que vão ao palco cantar e dançar. No fim de tudo, os autores dos cinco textos de cada categoria etária que mais agradaram o júri - que sempre é exclusivamente feminino - são agraciados com um aparato tech da moda, um livro do Rick Riordan e a publicação de seu texto em um livreto de folhas semi-plásticas que é distribuído na saída, além do direito à bazófia e do ódio coletivo dos demais participantes e dos colegas de classe que cobiçavam o tal aparato tech.
Acontece de eu já ter saído vencedor do tal CLICO, logo que entrei no Objetivo, dois anos atrás. À época, os elogios de familiares e professores não foram poucos e os problemas descobertos no Windows Vista de meu prêmio também não. Falou-se do quão oportuno meu texto tinha sido ao tratar de um blecaute, quando, alguns meses após ele ter sido escrito e alguns meses antes da premiação ocorrer, deu-se um grande blecaute de fato na metade sul deste país.
Isso me levou a temer as consequências de escrever um texto muito negativo sobre o tema "Água" no ano seguinte, mas eu o fiz, ignorando as possíveis consequências de minha poesia ter mais poder do que eu podia compreender. Felizmente para minha consciência, afogamento não se tornou uma causa de morte significativamente mais comum no aftermath e eu ainda fiquei em quarto.
Um ano se passou.
E chegamos em 2011, ano do meu ingresso na categoria Sênior, também conhecida como a categoria peso-pesado do concurso. O tema era um convite ao clichê: "Brasil". É claro que, como tudo que há de bom no país, a burocracia protelou o anúncio dos vencedores pra o final do ano, quando o texto foi por nós escrito em meados de maio.
Meses se passaram, a vida foi sendo vivida, e Novembro chegou, assim tão de repente que eu até já me esquecera do concurso em questão. Tudo ótimo; segundo a melhor fonte a que eu tinha acesso, que atende pelo nome de Professora Tal de Português (seu nome será omitido para evitar desconfortos no jurídico), eu tinha, afinal, garantido uma lasca do prêmio: os vinte e cinco finalistas foram divulgados, e meu nome estava lá no meio novamente.
Continuei vivendo, tentando ignorar o momento em que tudo mudaria, mas ele deu as caras antes que eu tivesse tempo de me preparar psicologicamente para a minha provável eliminação precoce - que jurado que tema a possibilidade de perder a credibilidade daria o prêmio ao mesmo infeliz duas vezes no espaço de três anos? -, e de repente eu estava no shopping comprando uma roupa nova para a cerimônia.
O dia chegou, enfim, e tudo transcorreu como deveria. Após atravessar uma noite cheia de surpresas, um infarto era iminente, tanto para mim quanto para o resto da minha torcida composta primariamente por familiares e afins. Acabando, após duas rodadas de eliminação (que não tinham esse nome no cronograma), por ficar sabendo que eu estava entre os dois primeiros colocados, eu comecei a torcer por um segundo lugar - ao que me parecia, a segunda colocada da categoria etária inferior tinha ganhado um notebook, e eu realmente precisava de um novo; esse meu ainda tem Windows Vista!
O segundo lugar não veio. E eu passei tão rápido pelo palco quando enfim chamaram meu nome, no final da solenidade, que comentou-se nos bastidores que fora difícil bater uma foto minha apertando a mão do coordenador-geral de Português.
E, como de costume, a primeira coisa que perguntaram no dia seguinte foi qual era o prêmio. Lembra do tablet da crônica 17? Pois é.
Por fim, eu acordei no sábado com uma tosse em decorrência do que meus pais chamaram de "emoções muito fortes". Não pude contra-argumentar, fato; embora eu tivesse passado a sexta-feira enxergando defeitos em meu próprio texto, como é de praxe em escritores que relêem material seu meses após ele ter sido escrito, se eu realmente sou alguém digno do primeiro lugar duas vezes sob condição de possível linchamento da comissão julgadora, quer dizer que me acham, realmente, um bom escritor. E, por enquanto, ainda que na ausência do Windows 7, isso basta.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Genérico
O maior dilema que um escritor iniciante enfrenta não diz respeito à métrica, ou à coerência de tal frase, ou à originalidade do estilo de escrever, ou ao quão profissional a query letter está, ou ao excesso de metáforas no parágrafo de encerramento. A questão fundamental que atormenta todos aqueles que se dispõem a cometer o provável suicídio de fazer carreira na literatura é, de forma sucinta: Como eu assino?
Discordarão, lógico, e não os culpo. Eu, mesmo, sou um iniciante no que diz respeito a ser um iniciante. A minha opinião, já aviso, é pouco confiável. Mas, se me perguntassem o que mais me fez quebrar a cabeça e passar noites em claro desde que decidi que poderia exercer a profissão da escrita paralelamente àquilo que almejo fazer desde menor - cinema -, eu responderia isso mesmo, e provavelmente nem saberia o que dizer quando então me perguntassem "Qual é o seu nome?"
É claro que a maioria das pessoas - aquelas que eu gosto de chamar de standard-named - não têm esse problema. Nomes, assim como músicas pop e bestsellers juvenis, seguem uma fórmula simples, uma estrutura predefinida e inalterável na ausência de criatividade paterna e/ou materna. Nome Nomedomeio Sobrenome, pronto, acabou: acrescente algo e seu filho estará fadado a chamar atenção de todos aqueles que estiverem passando os olhos casualmente por listas de chamada nas quais ele estiver incluído. E, se porventura ele decidir se tornar escritor, prepare-se para a desconciliação afetiva.
Acontece que esse é exatamente o meu caso. Meu nome segue uma estrutura não-convencional, assim como as músicas de Regina Spektor e os livros de José Saramago: Nome Segundonome Híbridoambíguodenomedomeioesobrenome Sobrenome. Imagina-se, então, o sofrimento que tenho só de pensar no meu nome nos créditos de abertura de um filme em Cannes. Noboru ou Lima?, pergunto-me. Minha família (por parte de mãe, pois, assim como em muitas famílias, meus parentes do lado do pai são bem menos acessíveis) é mais inclinada ao Noboru - meu avô que nunca conheci, vejam vocês, era assim chamado, daí o rótulo de segundo nome. Mas, na esfera escolar, dos relacionamentos opcionais e dos apelidos não-opcionais, me conhecem por Lima mesmo. Montado o palco, o meu dilema é inevitável.
Um escritor metafórico, daqueles tipo o Antonio Prata, estabeleceria uma relação esquerda-direita entre os sobrenomes: Lima é de direita, genérico, conservador, produzido em larga escala, funciona melhor na prática; Noboru é de esquerda, único, diferente, familiar, soa melhor. Eu, mesmo, sempre fui mais Noboru (contudo, não me tome por esquerdista), mas fico com receio de que ouçam meu nome um dia no rádio e fiquem pensando em um japonês atarracado com cabelo espetado, o que eu, por incrível que pareça, não sou. (Não o culpo, no entanto, se sua imagem de mim era algo semelhante: eu sou a única pessoa em meu colégio a ter um sobrenome japonês sem ter olhos puxados.)
Agora mesmo estou em dúvida quanto ao que colocar abaixo do "quem sou eu" aí do lado. Leonardo Noboru, Leonardo Lima, o nome inteiro, só Leonardo, L. L. Ogoshi (por que não?): possibilidades demais, prós e contras demais, criatividade de menos, e tudo acaba em pizza. Quem sabe eu até acabo adotando um pseudônimo, como fizeram muitos do meu ramo. De qualquer forma, por ora você, leitor, me conheça mesmo por Leonardo de Lima, como já se faz lá pras bandas do Brooklin Novo. Até eu pensar no que fazer, ser genérico é o menor dos problemas.
Discordarão, lógico, e não os culpo. Eu, mesmo, sou um iniciante no que diz respeito a ser um iniciante. A minha opinião, já aviso, é pouco confiável. Mas, se me perguntassem o que mais me fez quebrar a cabeça e passar noites em claro desde que decidi que poderia exercer a profissão da escrita paralelamente àquilo que almejo fazer desde menor - cinema -, eu responderia isso mesmo, e provavelmente nem saberia o que dizer quando então me perguntassem "Qual é o seu nome?"
É claro que a maioria das pessoas - aquelas que eu gosto de chamar de standard-named - não têm esse problema. Nomes, assim como músicas pop e bestsellers juvenis, seguem uma fórmula simples, uma estrutura predefinida e inalterável na ausência de criatividade paterna e/ou materna. Nome Nomedomeio Sobrenome, pronto, acabou: acrescente algo e seu filho estará fadado a chamar atenção de todos aqueles que estiverem passando os olhos casualmente por listas de chamada nas quais ele estiver incluído. E, se porventura ele decidir se tornar escritor, prepare-se para a desconciliação afetiva.
Acontece que esse é exatamente o meu caso. Meu nome segue uma estrutura não-convencional, assim como as músicas de Regina Spektor e os livros de José Saramago: Nome Segundonome Híbridoambíguodenomedomeioesobrenome Sobrenome. Imagina-se, então, o sofrimento que tenho só de pensar no meu nome nos créditos de abertura de um filme em Cannes. Noboru ou Lima?, pergunto-me. Minha família (por parte de mãe, pois, assim como em muitas famílias, meus parentes do lado do pai são bem menos acessíveis) é mais inclinada ao Noboru - meu avô que nunca conheci, vejam vocês, era assim chamado, daí o rótulo de segundo nome. Mas, na esfera escolar, dos relacionamentos opcionais e dos apelidos não-opcionais, me conhecem por Lima mesmo. Montado o palco, o meu dilema é inevitável.
Um escritor metafórico, daqueles tipo o Antonio Prata, estabeleceria uma relação esquerda-direita entre os sobrenomes: Lima é de direita, genérico, conservador, produzido em larga escala, funciona melhor na prática; Noboru é de esquerda, único, diferente, familiar, soa melhor. Eu, mesmo, sempre fui mais Noboru (contudo, não me tome por esquerdista), mas fico com receio de que ouçam meu nome um dia no rádio e fiquem pensando em um japonês atarracado com cabelo espetado, o que eu, por incrível que pareça, não sou. (Não o culpo, no entanto, se sua imagem de mim era algo semelhante: eu sou a única pessoa em meu colégio a ter um sobrenome japonês sem ter olhos puxados.)
Agora mesmo estou em dúvida quanto ao que colocar abaixo do "quem sou eu" aí do lado. Leonardo Noboru, Leonardo Lima, o nome inteiro, só Leonardo, L. L. Ogoshi (por que não?): possibilidades demais, prós e contras demais, criatividade de menos, e tudo acaba em pizza. Quem sabe eu até acabo adotando um pseudônimo, como fizeram muitos do meu ramo. De qualquer forma, por ora você, leitor, me conheça mesmo por Leonardo de Lima, como já se faz lá pras bandas do Brooklin Novo. Até eu pensar no que fazer, ser genérico é o menor dos problemas.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
A magnífica reestreia de um dos blogs mais insignificantes de todos os tempos
E eis que, ao ouvir pela enésima vez o meu progenitor reclamar do meu desligamento integral daquele famoso (risos sarcásticos) blog, eu decidi que o momento era propício para reverter a situação.
Very well. Cheguei em casa um pouco antes do tempo regulamentar, em decorrência de uma cadeia de eventos complexa que teve origem mais ou menos na época em que Judas perdeu as botas. Fiz o que tinha de fazer, etc, sentei na cama, peguei o tablet (isso eu explico depois) e abri o dito cujo. Lê-se, lê-se, e nessa toada se vai até eu terminar de ler o que eu achava - ops, acho - mais razoável ler. Enfim me dirigi até a sala, lidei com um pequeno contratempo, carreguei a bolsa preta até o dormitório, burocracia, burocracia, e aqui estamos nós.
Então você, leitor, que eu imagino ser um ser simplesmente extraordinário por continuar prestando atenção ao meu blog até mesmo agora que os dois ou três leitores que ele costumava ter foram-se embora com as mágoas do passado, me pergunta por onde andei quando você me procurava (sic). A resposta mais crua é: aqui. Nada no contínuo espaço-tempo se interpôs entre este blog e seu autor senão a demasiada preguiça do mesmo de sentar e escrever algo pra variar. Talvez as coisas estivessem melhores se este fosse um emprego remunerado... mas isso não vem ao caso agora. A questão é que eu simplesmente não tive aquele estalo que temos de ter para escrever uma crônica por vontade própria - como se verifica em certas colunas de certos jornais, escrever uma crônica a contragosto quase sempre dá terrivelmente errado - e acabou se formando uma zona de conforto. A minha vida está ótima, tudo bem, tudo bom, agora eu tenho até um tablet; quem precisa daquele blog?
O problema, leitor, é que o blog precisa de mim. E, por mais que eu tentasse fugir da realidade, ele continuava lá, num canto da sala metafórica em que se desenrolava minha (ainda facebookless) vida digital, me encarando com aqueles olhos pidões, pedindo para ser alimentado. Mais ou menos como meu cachorro na hora do almoço.
Ora, houve avanços. Por mais que o meu blog ainda esteja mergulhado em um irremediável anonimato, coisas aconteceram e podem ainda vir a acontecer. As condições astrológicas que me levaram à conquista daquele tal tablet, por exemplo, são por si mesmas vitórias no campo literário. Se o e-mail que estou esperando chegar (não o da crônica 8, que fique claro), tudo pode dar certo. Aconteceu até de um dia desses alguém na Alemanha visualizar meu blog. Quem sabe, então, eu não levo essa coisa pra frente mais um pouquinho? Eu já não sou mais um ser humano multirracial comum de 12 anos. Eu sou agora um ser humano comum de 13 anos, e, conforme fiquei sabendo hoje em Genética, não necessariamente multirracial. É tudo muito subjetivo, sabe?
Não é que eu queira reviver nenhum passado. Mas chega um ponto em que você não aguenta mais o blog te encarando de um lado e aquele livro que você pegou na seção de Contos & Crônicas da Saraiva te induzindo a escrever do outro. Chega um ponto em que você simplesmente senta e escreve algo pra variar. Esse ponto, leitor, calhou de cair hoje, logo depois do feriado, quando todos estão retomando aos poucos a rotina, fazendo mini-recomeços como aqueles que sustentamos por uma semana ou duas depois do Réveillon. Não poderia haver momento mais propício, por conseguinte, para retomar a redação de um blog como este, tão inoportunamente entitulado (alguém faz alguma ideia do significado real de "cronismo"?) e tão modernosamente diagramado, alterar o meu texto de apresentação, corrigir errinhos de ortografia em postagens antigas, comer mais proteína, falar mais com os amigos, terminar uma borracha, fechar os parênteses - em tempo, hopefully, de escrever uma crônica decente para o ano-novo. Muita coisa aconteceu de 14 de abril pra cá. Se eu não registrar tudo como se deve, quem o fará?
O Google, disseram-me, já vem registrando uma boa fração das coisas.
Very well. Cheguei em casa um pouco antes do tempo regulamentar, em decorrência de uma cadeia de eventos complexa que teve origem mais ou menos na época em que Judas perdeu as botas. Fiz o que tinha de fazer, etc, sentei na cama, peguei o tablet (isso eu explico depois) e abri o dito cujo. Lê-se, lê-se, e nessa toada se vai até eu terminar de ler o que eu achava - ops, acho - mais razoável ler. Enfim me dirigi até a sala, lidei com um pequeno contratempo, carreguei a bolsa preta até o dormitório, burocracia, burocracia, e aqui estamos nós.
Então você, leitor, que eu imagino ser um ser simplesmente extraordinário por continuar prestando atenção ao meu blog até mesmo agora que os dois ou três leitores que ele costumava ter foram-se embora com as mágoas do passado, me pergunta por onde andei quando você me procurava (sic). A resposta mais crua é: aqui. Nada no contínuo espaço-tempo se interpôs entre este blog e seu autor senão a demasiada preguiça do mesmo de sentar e escrever algo pra variar. Talvez as coisas estivessem melhores se este fosse um emprego remunerado... mas isso não vem ao caso agora. A questão é que eu simplesmente não tive aquele estalo que temos de ter para escrever uma crônica por vontade própria - como se verifica em certas colunas de certos jornais, escrever uma crônica a contragosto quase sempre dá terrivelmente errado - e acabou se formando uma zona de conforto. A minha vida está ótima, tudo bem, tudo bom, agora eu tenho até um tablet; quem precisa daquele blog?
O problema, leitor, é que o blog precisa de mim. E, por mais que eu tentasse fugir da realidade, ele continuava lá, num canto da sala metafórica em que se desenrolava minha (ainda facebookless) vida digital, me encarando com aqueles olhos pidões, pedindo para ser alimentado. Mais ou menos como meu cachorro na hora do almoço.
Ora, houve avanços. Por mais que o meu blog ainda esteja mergulhado em um irremediável anonimato, coisas aconteceram e podem ainda vir a acontecer. As condições astrológicas que me levaram à conquista daquele tal tablet, por exemplo, são por si mesmas vitórias no campo literário. Se o e-mail que estou esperando chegar (não o da crônica 8, que fique claro), tudo pode dar certo. Aconteceu até de um dia desses alguém na Alemanha visualizar meu blog. Quem sabe, então, eu não levo essa coisa pra frente mais um pouquinho? Eu já não sou mais um ser humano multirracial comum de 12 anos. Eu sou agora um ser humano comum de 13 anos, e, conforme fiquei sabendo hoje em Genética, não necessariamente multirracial. É tudo muito subjetivo, sabe?
Não é que eu queira reviver nenhum passado. Mas chega um ponto em que você não aguenta mais o blog te encarando de um lado e aquele livro que você pegou na seção de Contos & Crônicas da Saraiva te induzindo a escrever do outro. Chega um ponto em que você simplesmente senta e escreve algo pra variar. Esse ponto, leitor, calhou de cair hoje, logo depois do feriado, quando todos estão retomando aos poucos a rotina, fazendo mini-recomeços como aqueles que sustentamos por uma semana ou duas depois do Réveillon. Não poderia haver momento mais propício, por conseguinte, para retomar a redação de um blog como este, tão inoportunamente entitulado (alguém faz alguma ideia do significado real de "cronismo"?) e tão modernosamente diagramado, alterar o meu texto de apresentação, corrigir errinhos de ortografia em postagens antigas, comer mais proteína, falar mais com os amigos, terminar uma borracha, fechar os parênteses - em tempo, hopefully, de escrever uma crônica decente para o ano-novo. Muita coisa aconteceu de 14 de abril pra cá. Se eu não registrar tudo como se deve, quem o fará?
O Google, disseram-me, já vem registrando uma boa fração das coisas.
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