O maior dilema que um escritor iniciante enfrenta não diz respeito à métrica, ou à coerência de tal frase, ou à originalidade do estilo de escrever, ou ao quão profissional a query letter está, ou ao excesso de metáforas no parágrafo de encerramento. A questão fundamental que atormenta todos aqueles que se dispõem a cometer o provável suicídio de fazer carreira na literatura é, de forma sucinta: Como eu assino?
Discordarão, lógico, e não os culpo. Eu, mesmo, sou um iniciante no que diz respeito a ser um iniciante. A minha opinião, já aviso, é pouco confiável. Mas, se me perguntassem o que mais me fez quebrar a cabeça e passar noites em claro desde que decidi que poderia exercer a profissão da escrita paralelamente àquilo que almejo fazer desde menor - cinema -, eu responderia isso mesmo, e provavelmente nem saberia o que dizer quando então me perguntassem "Qual é o seu nome?"
É claro que a maioria das pessoas - aquelas que eu gosto de chamar de standard-named - não têm esse problema. Nomes, assim como músicas pop e bestsellers juvenis, seguem uma fórmula simples, uma estrutura predefinida e inalterável na ausência de criatividade paterna e/ou materna. Nome Nomedomeio Sobrenome, pronto, acabou: acrescente algo e seu filho estará fadado a chamar atenção de todos aqueles que estiverem passando os olhos casualmente por listas de chamada nas quais ele estiver incluído. E, se porventura ele decidir se tornar escritor, prepare-se para a desconciliação afetiva.
Acontece que esse é exatamente o meu caso. Meu nome segue uma estrutura não-convencional, assim como as músicas de Regina Spektor e os livros de José Saramago: Nome Segundonome Híbridoambíguodenomedomeioesobrenome Sobrenome. Imagina-se, então, o sofrimento que tenho só de pensar no meu nome nos créditos de abertura de um filme em Cannes. Noboru ou Lima?, pergunto-me. Minha família (por parte de mãe, pois, assim como em muitas famílias, meus parentes do lado do pai são bem menos acessíveis) é mais inclinada ao Noboru - meu avô que nunca conheci, vejam vocês, era assim chamado, daí o rótulo de segundo nome. Mas, na esfera escolar, dos relacionamentos opcionais e dos apelidos não-opcionais, me conhecem por Lima mesmo. Montado o palco, o meu dilema é inevitável.
Um escritor metafórico, daqueles tipo o Antonio Prata, estabeleceria uma relação esquerda-direita entre os sobrenomes: Lima é de direita, genérico, conservador, produzido em larga escala, funciona melhor na prática; Noboru é de esquerda, único, diferente, familiar, soa melhor. Eu, mesmo, sempre fui mais Noboru (contudo, não me tome por esquerdista), mas fico com receio de que ouçam meu nome um dia no rádio e fiquem pensando em um japonês atarracado com cabelo espetado, o que eu, por incrível que pareça, não sou. (Não o culpo, no entanto, se sua imagem de mim era algo semelhante: eu sou a única pessoa em meu colégio a ter um sobrenome japonês sem ter olhos puxados.)
Agora mesmo estou em dúvida quanto ao que colocar abaixo do "quem sou eu" aí do lado. Leonardo Noboru, Leonardo Lima, o nome inteiro, só Leonardo, L. L. Ogoshi (por que não?): possibilidades demais, prós e contras demais, criatividade de menos, e tudo acaba em pizza. Quem sabe eu até acabo adotando um pseudônimo, como fizeram muitos do meu ramo. De qualquer forma, por ora você, leitor, me conheça mesmo por Leonardo de Lima, como já se faz lá pras bandas do Brooklin Novo. Até eu pensar no que fazer, ser genérico é o menor dos problemas.
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