sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O vinil

Se o mundo fosse uma vitrola, o Brasil seria um single com lado A e lado B. Seria um vinil riscado, no caso, com um lado menos audível do que o outro, e teria uma capa colorida e bem-acabada, na qual o disco não caberia direito. E, interpretações à parte, nele um bom ouvinte reconheceria uma bela gravação, que teria sofrido com o péssimo manuseio de seus proprietários ao longo dos anos.
        O Brasil é, sem dúvida, um dos mais belos países do mundo. Temos flora e fauna invejáveis, belas praias, paisagens únicas, solo fértil e - como se isso tudo não bastasse - invulnerabilidade contra quase todos os desastres naturais conhecidos. É quase um paraíso!
        Ironia ou não, qualquer pessoa bem informada entre os 191 milhões e poucos habitantes da raça humana que ocupam este paraíso corre sério risco de se perguntar, mais cedo ou mais tarde, se nasceu no país certo. O Brasil é o ápice do terceiro-mundismo contemporâneo, uma potência em potencial com números que sugerem crescimento econômico mas negam qualquer outro crescimento, a não ser o do patrimônio de nossos líderes. Na política, a frase "o poder corrompe" é privada de exceções; na cultura, o que é realmente bom rareia e o que é ruim é ruim mesmo; na sociedade, estão os culpados de tudo isso.
        Desde a nossa definição histórica como "colônia de exploração" até a lástima que hoje é assistir a um telejornal, passando por atos de liberdade regados a interesses, mortes misteriosas, impeachments esquecidos, derrotas nos mais diversos campos e o confronto um-é-pior-que-o-outro entre militares e guerrilheiros durante a ditadura, tudo na nossa história parece ter dado errado. Tudo parece apontar que o único caminho são é até o aeroporto internacional mais próximo.
        Mas o vinil sempre tem um lado B.
        E o lado B do Brasil é sua pluralidade. Há 26 estados (25, para quem acha mais sensato afirmar que o Acre não existe) distribuídos pelo nosso território, cada um com uma cultura rica em peculiaridades. Há desvantagens, é claro, em ter o quinto maior território do mundo, mas é desse dado que parece vir o único argumento válido dos patriotas. Cada uma das regiões do Brasil é única e nutre uma cultura e um folclore absolutamente particulares. Não é à toa que ir do sul para o norte do Brasil é como ir a um outro país; as artes típicas de todos os espaços entre - desculpem a cafonice - o Oiapoque e o Chuí são dignas de admiração; a comida, os costumes, as roupas, tudo é espetacular para os que se esforçam em conhecer. E é isso que faz com que o Brasil não seja um caso perdido.
        Por isso, viva o Brasil, este belíssimo país em que certas regiões são tidas como desnecessárias, patriotas são mal-informados, leitores de jornal são masoquistas e a burocracia é temperamental. Ainda vamos nos perguntar se nascemos no país certo algumas vezes, e, a julgar pelo nosso histórico, o que está ruim não vai mudar tão cedo, mas podemos levar tudo numa boa por mais algum tempo, porque, segundo a propaganda partidária, somos todos de classe média alta.


Nota do autor: Esse é o famoso texto que me levou à conquista daquele tablet da crônica 17, conforme explicado no último post. Foi escrito em meados de abril ou maio, se não me falha a memória, seguindo o tema "Brasil: pluralidade e contrastes". Eu mudei algumas coisinhas do original, incluindo o título (o original é "511 anos depois"), mas fora isso está tudo igual.

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