terça-feira, 22 de novembro de 2011

As jabuticabas, as novas tomadas e o Enem

O engraçado é que, colocando-se à parte todas as formas de vida baseadas em carbono que, lá no começo, tiveram a mal calculada ideia de povoar este planeta, o glamour não é uma coisa franco-americana como aparenta na etimologia, nos cardápios de sobremesa, no vocabulário do paulistano e naqueles pré-shows que o E! exibe antes dos Oscars da vida. Se estou certo em afirmar que o conceito de glamour é fundamentado na ideia do exclusivo, então, minha senhora que tira as sextas-feiras para torrar cartões e enlouquecer seu cônjuge na Rua Oscar Freire, o tal do glamour é indubitavelmente brasileiro.
        Eu, que tenho todo esse tempo livre, poderia passar o dia citando exemplos do nosso exclusivismo por natureza. Mas eu só vou lembrar uma espécie Brazilian only, aquela que na minha opinião é mais incrível pensar que só cresce em solo brasileiro: o cronista.
        Vejam vocês: as crônicas, assim como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem, são brasileiras e nada mais. O mundo todo escreve artigos, claro, mas, na medida em que ninguém nunca conseguiu pensar em uma definição sequer razoável para o gênero "crônica", em toda a sua abrangência, fora do Brasil não há quem escreva um texto com aquele quê a mais que a crônica tem em relação ao artigo.
        Não é culpa dos gringos. Eles simplesmente a desconhecem. A empreitada rumo à redação de uma crônica propriamente dita é comparável à de um herói de desenhos infanto-juvenis que não recebe detalhes acerca de sua própria missão: você saberá que é quando vir, e ponto. Não há como definir uma crônica, ou explicar por que tal texto do Walcyr Carrasco no final da Vejinha é ou deixa de ser uma, mas você simplesmente sabe. Isto aqui, por exemplo, é uma crônica. Os textos 3, 9 ou 12 desse blog, por outro lado, eu já não tenho tanta certeza. Por quê? Nem Freud explica: Freud, coitado, era austríaco, e, como tal, não conhecia a crônica e tudo o que ela implica. Quem explica, conclui-se, não é uma apostila de português, a página da Wikipédia ou sequer o Luís Fernando Veríssimo.
        Como todas as coisas realmente boas da vida, crônicas não se explicam, nem mesmo através de metáforas como "Crônicas são o meio-termo entre poesia e prosa" e "Crônicas são a esfera mais humana da literatura" (ambas de minha autoria). Elas simplesmente (e eu não quero que isso soe como um enxerto de literatura modernista) são. E, por mais incrível que possa soar aos nossos ouvidos, com o complexo de vira-lata e tudo, elas são brasileiras. Como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem. Simples assim.

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