37 anos, casado, duas filhas, emprego estável, classe média-alta, residente em um apartamento no penúltimo andar de um edifício em Alphaville, comprado e decorado pela planta; íntegro, um livro aberto, sem ressentimentos familiares ou inimigos platônicos; um exemplo de ética e bons costumes no âmbito de seu condomínio e um profissional respeitado no âmbito do workplace vizinho ao seu condomínio. Um cidadão comum, por assim dizer; pai de família de comercial da Hasbro - tinha, inclusive, uma ou duas versões do Monopoly encaixados entre os outros artigos mundanos da estante da sala.
Certo dia, sentindo-se particularmente bem-humorado - o que geralmente significaria um prelúdio de uma cena digna de informe publicitário de apartamento, com a família rindo e jogando-se pelo carpete da sala -, decidiu contar uma piada à mesa.
- Qual é a diferença - inquiriu, do alto de sua inócua espontaneidade - entre um bastão de madeira e um asiático?
Sua esposa tossiu, prevendo o eufemismo que findaria o gracejo. Censurou-o com o olhar, temendo o efeito que o desfecho da anedota poderia ter aos castos ouvidos de suas duas filhas.
Ignorando os temores dela, ele sorriu, tão despreocupadamente quanto sua natureza lhe permitia.
Ela cerrou os punhos. Logo ele, que sempre havia sido um totem de integridade, vinha agora com aquela história, aquela piadinha de mau gosto, e com as crianças na mesa! Aquela piada não era tão somente uma piada: era uma invasão à sua vida pacata e moralizada, uma brecha que deixava entrar a vulgaridade, a obscenidade, os maus costumes, a imoralidade, a marginalização, o crime, e, logo mais, as drogas. Como a mãe de pulso firme que os vizinhos tinham por modelo, ela não devia aceitar aquilo. Ela não podia aceitar aquilo.
- Imorigerado! Libertino! Depravado! Energúmeno! - exclamou, num ímpeto. - Como você pôde?
- Eu...
- E ainda tem a pachorra de tentar se defender! Saia desta mesa! Você não é digno das receitas do meu novo livro da Palmirinha! Eu quero o divórcio!
Tentou reverter a situação, mas a mulher já não o ouvia. A mulher o queria longe daquele apartamento, de preferência longe daquele condomínio; melhor, fora do Brasil. Ele não discutiu. Arrumou as coisas e foi bater na porta de um amigo em Santana.
- Tem lugar aí dentro pra um desabrigado? - perguntou.
O amigo franziu a testa.
- Meça suas piadas! - disse, e fechou-lhe a porta na cara.
Mudou-se para um albergue em Tamboré. Esteve mudo pelas três semanas que se seguiram.
Continuou trabalhando em Alphaville. Certa vez, descobriu que era Dia da Secretária.
- Depois passe no meu escritório que eu tenho um presente - avisou à sua. - Sabe que dia é hoje?
Deu-lhe um tapa na cara e pediu demissão. O episódio o levou a ser dispensado pela companhia, com justa causa.
Foi morar em um hotel no centro. Certo dia, no aniversário da filha mais velha, levantou-se para discursar.
- A minha filha... - começou, perante os olhares esperançosos dos convidados. - O tempo que eu tive a oportunidade de passar com ela foi uma experiência simplesmente incrível!
A aniversariante se levantou e saiu correndo aos prantos para dentro de casa. Trancou-se no quarto. A mãe fitou o discursante, em fúria contida.
Ele deixou a festa antes do parabéns. Chamou um táxi.
- Para onde, chefe? - o taxista perguntou.
- Tenho de ir lá pra dentro - respondeu. - Dá?
- Pra dentro de onde?
- "Pra dentro de onde", ora essa.
Foi chutado para fora do táxi. Acabou pegando um ônibus para o hotel.
- Estou com problemas pessoais seríssimos - avisou ao porteiro. - Conhece alguém que eu possa ver?
O porteiro não soube o que dizer. Informou o caso à gerência. Em um ato de repúdio ao pedido, a gerência expulsou-o do hotel na manhã seguinte.
Dirigiu-se com o notebook a um café com Wi-Fi na vizinhança. Acabou encontrando uma moça alugando um quarto na Mooca. Foi dar uma olhada.
- Quanto é o período? - perguntou quando lhe atenderam.
Calhou de a moça ser uma ex-acompanhante. Virou-lhe as costas, ofendida, e bateu a porta.
Voltou ao mesmo café, determinado a encontrar um teto sob o qual viver. Acabou se distraindo com vídeos de auto-ajuda.
Sentiu um aperto no estômago. Não sabia o que fazer com o computador, então chegou para um atendente.
- Com licença - disse -, eu posso levar o meu notebook comigo para o banheiro?
- Senhor, este é um local público - o atendente, disse, surpreso.
- Eu sei, mas eu realmente preciso ir e eu não sei o que fazer com ele nesse meio-tempo. Além do mais, aqueles vídeos são realmente inspiradores. A rede Wi-Fi chega até os boxes?
O atendente foi falar com seus colegas atendentes e finalmente atingiu um veredicto.
- O senhor está convidado a se retirar desse estabelecimento, senhor - disse-lhe.
Saiu, sem saber para onde ir, carregando uma maleta com metade de sua estatura. Acabou indo a um bar.
Chegando lá, pediu um Kuat Zero ao barman, que o encarou como se ele tivesse pedido seu cabelo emprestado.
Ele desistiu. Começou a conversar com um sujeito ao seu lado, que lhe pagou um drinque.
- Eu não bebo - explicou.
O sujeito insistiu e ele bebeu.
Algum tempo depois, acabou indo morar na quitinete do sujeito. Ficou por lá uma semana e meia, quando então teve um estalo:
- Preciso de um emprego!
- Conheço um ótimo - o sujeito lhe disse.
- Sério?
- Sério. Aqui perto, vinte e seis a hora, pouca coisa. Se quiser, eu falo com o chefe.
- Melhor que isso, só...
- Não termine a frase - o sujeito o interrompeu. - Não gosto desse tipo de piada.
- Tudo bem... mas eu só ia...
- Eu sei o que você só ia. Eu sei muito bem o que você só ia. Eu só não gosto dessas piadas. É humor baixo. Horrível. Não conte esse tipo de piada.
Discutiram. Ele acabou banido.
Foi passar a noite em um motel ali perto. Na manhã seguinte, procurou um terapeuta. Encontrou uma na República que cobrava R$ 100 a sessão.
- Não sei mais o que eu faço, doutora - queixou-se. - Minha mulher me odeia, minhas filhas me odeiam, já fui expulso de vários lugares diferentes, todos me rejeitam, e não sei por quê.
- Você disse que haviam ficado ressentidos com algo que você havia falado?
- Ficaram, doutora. Não sei com o quê. O que eu acho é que todos estão com a mente na sarjeta. Acho que todos estão com a cabeça cheia de besteira. O que a doutora acha disso, doutora?
- O senhor está me assediando?
- De forma alguma, doutora.
- Eu sou uma mulher casada!
- Justamente, doutora.
- Como se atreve?
- Me atrevo a quê, doutora?
Ela prestou queixa e ele foi preso por assédio.
Na cadeia, foi contar sua história aos interessados.
- Foi tudo um mal-entendido, sabe? - ele explicou. - Foi tudo um grande mal-entendido.
- Claro - um dos colegas disse. - Sempre é. Eu não assaltei aquele casal, por exemplo. Aquele cara ali do canto não assassinou doze gatos domésticos entre março e agosto. São sempre mal-entendidos.
- Certamente - ele concordou. - Fico feliz que vocês entendam o meu sofrimento. Espero que possamos ter um relacionamento decente, apesar de tudo.
- Tá me tirando? - o colega disse, levantando-se. - Tá pensando que eu sou daqueles que...
- Calma, vocês entenderam mal. Eu não insinuei nada.
- Como é que é? - outro disse. - Cê acha que...
- Por favor, acalmem-se.
- Ah, entendi sua jogada - o primeiro falou. - Bom, a decisão é sua.
- Espera aí. Espera aí!...
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