sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Procrastinai

É triste constatar, ao final do processo de cumprimento de uma meta, que uma meta é só uma meta. É triste constatar que, mesmo depois do trabalho árduo que se teve para terminar a redação do seu roteiro a tempo do prazo final do concurso, ainda há uma pilha metafórica de coisas que encherão o seu saco até você dar um jeito nelas - o que, claro, é exponencialmente agravado pelo seu impulso natural de passar a maior parte do tempo útil lendo artigos no Rotten Tomatoes e pesquisando notícias sobre o revival de Arrested Development.
        Você já está cansado de ouvir pessoas lhe aconselhando a parar de desperdiçar a sua juventude sentado em frente a um laptop - com a postura totalmente incorreta, ainda por cima - e não aguenta mais confrontar o vácuo inexorável da morte que te aguarda lá na linha de chegada e que se torna cada vez mais próximo proporcionalmente à sua protelação deliberada de coisas que realmente valeriam a pena - como terminar, por exemplo, aquele livro do Oscar Wilde que você não toca há semanas. Está sendo irresponsável, e sabe disso. Escreve sobre isso, e não age.
        Houve desilusões no seu passado imediato, e você sabe que terá, mais cedo ou mais tarde, que alterar os planos para o seu futuro. Mas você não se preocupa com o fato de estar canalizando todas as suas forças na mesma direção; você consegue se sentir superior aos outros por não ter uma conta no Facebook, e se contenta com essa realização vazia mesmo ao perceber que a sua situação está no mesmo nível da dos outros, com suas redes sociais e idas ao Shopping Ibirapuera.
        Há tantos planos na sua planilha mental, mas você não tem coragem de colocar nenhum em prática porque teme deixar ainda mais projetos inacabados, mais documentos do Word sem nenhuma importância real ocupando espaço no disco C pela sua falsa esperança de que um dia conseguirá lhes dar um desfecho digno. Você pensa em talvez deixar os planos maiores para lá e começar a pensar em que faculdade irá fazer, até perceber que não faz ideia ainda do que realmente almeja na vida sem contar aquele sonho maluco que, em termos acadêmicos, não é uma opção prática.
        Há tarefas domésticas a serem realizadas, mas você não tem paciência de se entregar a nenhuma delas voluntariamente. Há tarefas escolares a serem realizadas, mas as aulas se aproximam do fim e sua nota de Produção Integrada ao Conteúdo já foi computada a essa altura, restando-lhe apenas a preparação para uma prova para a qual você não vê necessário se preparar. Não há saída - você está preso ao ócio, e não adianta engatinhar de volta para aquele site de fanfiction porque você sabe que aquilo é um desperdício de vida que vai cansar após algumas semanas. Você precisa de um hobby, mas não consegue se investir em nenhum completamente, e se consegue logo chegam pessoas a lhe dizer que vá procurar algo mais útil pra fazer.
        Você decide voltar a escrever resenhas, mas não consegue o tempo para ver filmes, o que, na sua condição de aspirante ao ofício, é bastante patético. Você decide talvez escrever artigos, mas lhe falta um contexto, e lhe falta a experiência. A inexperiência impede você de voltar a escrever roteiros sem entrar em bloqueios criativos, e as pessoas acham que você tem que começar a dividir a sua atenção em mais de um foco. As pessoas estão certas; não é direito todos os seus sites mais visitados no Google Chrome serem agregadores de críticas, Tumblrs de pôsteres minimalistas, bases de dados sobre produções hollywoodianas e a Wikipédia. Há algo faltando em sua vida - e, ao menor sinal de inquietação, você imediatamente infere que esse algo é o feed do 9gag.
        Finalmente, cansado da sua indolência criativa, você decide restartar aquele velho blog que sempre é abandonado depois de um tempo - e você não necessariamente tem pretensão de mantê-lo em atividade uniforme, mas espera que ele seja pelo menos um veículo para as suas forças, enquanto elas ainda existirem. Você percebe que talvez a morte não esteja tão próxima assim - você está pelo menos a uns 90 anos de atingir a expectativa de vida para essa geração, e essa onda de assassinatos em São Paulo deu uma esfriada - e se anima em continuar ticando coisas da sua planilha mental até ser inevitável escolher que faculdade irá fazer. E, se porventura algumas dessas coisas se revelarem demasiadamente difíceis de se cumprir, assim como tantos de seus objetivos passados, você sempre terá a ilusão de que Mario Kart não é um desperdício de vida tão grande assim. Tudo há, pois, de ficar bem.