domingo, 8 de junho de 2014

Prezado Blogger

Sejamos francos: era questão de tempo. Você é um veículo muito simpático, não há dúvida; ao seu lado, eu atravessei tempestades e calmarias, me apoiando a todo tempo nos seus ombros binários, buscando refúgio nas suas águas paradas toda vez que correntezas existenciais ameaçavam me carregar para o epicentro de um estado perpétuo de ócio criativo. Você foi a minha lousa por mais de três anos, o contêiner dos meus despejos literários irregulares, a janelinha que me colocou mais ou menos em comunicação com o resto do mundo, sempre alicerceando os caracteres que eu dava para arranjar em padrões, jamais se queixando da saturação de metáforas pedestres em que é do meu feitio incorrer. O que eu e você tivemos não se tem levianamente; contamos ambos as nossas faltas -- eu, com meus períodos de ausência inexplicada; você, com sua teimosia em mudar a fonte do título do blog para Comic Sans -- mas nunca deixamos de nos acertar. Foi uma parceria formidável, a nossa. Mas era questão de tempo.
        Eu não quero que você me entenda mal. Nós dois temos nossos problemas com mudanças radicais, mas você vai concordar comigo que já está na hora de empreender algumas. Sim, você está certo em se resignar da minha decisão de trocá-lo por outro, mas não é que ele seja melhor ou mais popular ou mais moderno que você; se eu estou te abandonando agora, é porque eu não quero que a nossa ligação se esfacele por ação do tempo, que fiquemos presos um ao outro até a separação ser o único curso de ação viável; nós podemos fazer de conta que não, que nada mudou nesses três anos e nada mudará, mas isso não fará bem nenhum pra mim, nem pra você, nem pra ele. Você envelheceu, e eu também, e nossos caminhos, conquanto ainda se cruzem em um ou outro ponto, não têm mais como coincidir. Você é um porto seguro, uma morada; eu não teria chegado até aqui sem a proteção do seu código-fonte, mas agora o que eu preciso é de HTML novo, de aventura, de gente ao meu redor e de alguém que abra portas. O que eu preciso é dele.
        Sim, sim, eu entendo os seus problemas com ele. Eu sei que ele é de uma família com que a sua não se entende, que ele tem uma disposição latente para a petulância, que ele se cerca de companhias ambíguas. Mas nada disso muda o fato de ele ser o Tumblr. O Tumblr, você bem sabe, é o que está em voga; o Tumblr conhece todo mundo; o Tumblr é ágil, é plural, é clean. Onde você me deu espaço para exercer o meu amadurecimento artístico, ele me faz promessas de permitir que eu saia para os olhos do mundo. Eu não vou dizer que não tenho flertado com ele já faz um tempo, e tampouco nego que eu e ele tenhamos nossas contendas, mas ele é o certo, o natural, para essa altura da minha vida. Eu preciso dele, sim, assim como já precisei de você. É um salto que eu me sinto na obrigação pessoal de fazer.
        Pode ser até que dê errado. Pode ser que as ações dele despenquem na semana que vem, por causa de algum bug ou algum fenômeno social, e que o Yahoo o coloque de lado e atraia seus usuários para uma nova plataforma; pode ser que eu tenha a minha conta suspendida por engano e nunca mais possa ressarci-la. É improvável, talvez inexequível, que algo assim aconteça em tão pouco tempo a alguém do porte dele, mas é verdade que nós vivemos em uma era volátil. Eu não tenho certeza de que sei mesmo quem ele é, apesar do quanto ele me corteja. É, entenda, um risco assumido. Mas, agora mais do que nunca, eu estou pronto a correr riscos. Se o Tumblr for uma furada, será uma furada; paciência. Há muitos veículos-de-expressão-criativa-barra-redes sociais nesse mundo.
        A última coisa que eu te peço, então, é que você me deseje sorte. Lá, exposto a milhares de visitantes casuais em potencial e àquele bizarro sistema de "notas", eu não sei direito o que esperar. Cronistas ele contabiliza em massa; talvez você também, mas ele, que foi feito para ser uma vitrine de tudo, ostenta os meus competidores por espaço mais claramente, e assim me mete ainda mais medo de passar em branco. É uma jornada, em que os meus deuses, se existirem, não mais serão pacientes e aptos a parar tudo para ler textos calóricos (não que alguma vez tenham sido aqui, já que não eram coisa nenhuma; um dos nossos problemas sempre foi que você pouco fez para me ajudar a sair da reclusão total); no Tumblr, as coisas, com uma exceção ou outra, são fugazes, dão duas voltas no mundo para então estacionarem. E, se estiver além da sua capacidade me perdoar, pelo menos acredite quando eu digo que você sempre terá um lugar no meu coração. Eu acredito firmemente que o seu domínio semi-árido e as suas ferramentas simplonas continuarão por muito tempo a fomentar talentos brutos e lhes dar margem para crescer e se aperfeiçoar, assim como pode ou não ter sido o caso comigo; tudo o mais se resume ao fato de eu ter mudado demais de 2011 pra cá para continuar apostando nos mesmos meios. Não é você, Blogger; sou eu.


(O novo endereço do Cronismos é http://cronismos.tumblr.com/. Vejo vocês lá, meus queridos e inexistentes leitores.)