Sejamos francos: era questão de tempo. Você é um veículo muito simpático, não há dúvida; ao seu lado, eu atravessei tempestades e calmarias, me apoiando a todo tempo nos seus ombros binários, buscando refúgio nas suas águas paradas toda vez que correntezas existenciais ameaçavam me carregar para o epicentro de um estado perpétuo de ócio criativo. Você foi a minha lousa por mais de três anos, o contêiner dos meus despejos literários irregulares, a janelinha que me colocou mais ou menos em comunicação com o resto do mundo, sempre alicerceando os caracteres que eu dava para arranjar em padrões, jamais se queixando da saturação de metáforas pedestres em que é do meu feitio incorrer. O que eu e você tivemos não se tem levianamente; contamos ambos as nossas faltas -- eu, com meus períodos de ausência inexplicada; você, com sua teimosia em mudar a fonte do título do blog para Comic Sans -- mas nunca deixamos de nos acertar. Foi uma parceria formidável, a nossa. Mas era questão de tempo.
Eu não quero que você me entenda mal. Nós dois temos nossos problemas com mudanças radicais, mas você vai concordar comigo que já está na hora de empreender algumas. Sim, você está certo em se resignar da minha decisão de trocá-lo por outro, mas não é que ele seja melhor ou mais popular ou mais moderno que você; se eu estou te abandonando agora, é porque eu não quero que a nossa ligação se esfacele por ação do tempo, que fiquemos presos um ao outro até a separação ser o único curso de ação viável; nós podemos fazer de conta que não, que nada mudou nesses três anos e nada mudará, mas isso não fará bem nenhum pra mim, nem pra você, nem pra ele. Você envelheceu, e eu também, e nossos caminhos, conquanto ainda se cruzem em um ou outro ponto, não têm mais como coincidir. Você é um porto seguro, uma morada; eu não teria chegado até aqui sem a proteção do seu código-fonte, mas agora o que eu preciso é de HTML novo, de aventura, de gente ao meu redor e de alguém que abra portas. O que eu preciso é dele.
Sim, sim, eu entendo os seus problemas com ele. Eu sei que ele é de uma família com que a sua não se entende, que ele tem uma disposição latente para a petulância, que ele se cerca de companhias ambíguas. Mas nada disso muda o fato de ele ser o Tumblr. O Tumblr, você bem sabe, é o que está em voga; o Tumblr conhece todo mundo; o Tumblr é ágil, é plural, é clean. Onde você me deu espaço para exercer o meu amadurecimento artístico, ele me faz promessas de permitir que eu saia para os olhos do mundo. Eu não vou dizer que não tenho flertado com ele já faz um tempo, e tampouco nego que eu e ele tenhamos nossas contendas, mas ele é o certo, o natural, para essa altura da minha vida. Eu preciso dele, sim, assim como já precisei de você. É um salto que eu me sinto na obrigação pessoal de fazer.
Pode ser até que dê errado. Pode ser que as ações dele despenquem na semana que vem, por causa de algum bug ou algum fenômeno social, e que o Yahoo o coloque de lado e atraia seus usuários para uma nova plataforma; pode ser que eu tenha a minha conta suspendida por engano e nunca mais possa ressarci-la. É improvável, talvez inexequível, que algo assim aconteça em tão pouco tempo a alguém do porte dele, mas é verdade que nós vivemos em uma era volátil. Eu não tenho certeza de que sei mesmo quem ele é, apesar do quanto ele me corteja. É, entenda, um risco assumido. Mas, agora mais do que nunca, eu estou pronto a correr riscos. Se o Tumblr for uma furada, será uma furada; paciência. Há muitos veículos-de-expressão-criativa-barra-redes sociais nesse mundo.
A última coisa que eu te peço, então, é que você me deseje sorte. Lá, exposto a milhares de visitantes casuais em potencial e àquele bizarro sistema de "notas", eu não sei direito o que esperar. Cronistas ele contabiliza em massa; talvez você também, mas ele, que foi feito para ser uma vitrine de tudo, ostenta os meus competidores por espaço mais claramente, e assim me mete ainda mais medo de passar em branco. É uma jornada, em que os meus deuses, se existirem, não mais serão pacientes e aptos a parar tudo para ler textos calóricos (não que alguma vez tenham sido aqui, já que não eram coisa nenhuma; um dos nossos problemas sempre foi que você pouco fez para me ajudar a sair da reclusão total); no Tumblr, as coisas, com uma exceção ou outra, são fugazes, dão duas voltas no mundo para então estacionarem. E, se estiver além da sua capacidade me perdoar, pelo menos acredite quando eu digo que você sempre terá um lugar no meu coração. Eu acredito firmemente que o seu domínio semi-árido e as suas ferramentas simplonas continuarão por muito tempo a fomentar talentos brutos e lhes dar margem para crescer e se aperfeiçoar, assim como pode ou não ter sido o caso comigo; tudo o mais se resume ao fato de eu ter mudado demais de 2011 pra cá para continuar apostando nos mesmos meios. Não é você, Blogger; sou eu.
(O novo endereço do Cronismos é http://cronismos.tumblr.com/. Vejo vocês lá, meus queridos e inexistentes leitores.)
Cronismos
Caracteres arranjados em padrões
domingo, 8 de junho de 2014
terça-feira, 7 de maio de 2013
Completamente off-topic, se é que isso é possível no que diz respeito a este blog
E então, para que o blog não ficasse estático por tempo demais (o que, apesar de tudo, acabaria pesando na minha consciência), eu resolvi postar um poema nonsense.
Trinta cavalos brancos em estouro
Vão-se de encontro a um extintor de incêndio.
Gente feliz se amando desvairada
Todos se jogam sobre o agiota.
Doce aroma de fritas enche o ar:
Mais ou menos feliz está Gervásio.
A virilidade das azaleias
Transforma-se em leite de magnésia.
Cada vida vivida é gelo seco;
Megalítico cal, tuberculose,
Linda alimentação balanceada.
Vão-se de encontro a um extintor de incêndio.
Gente feliz se amando desvairada
Todos se jogam sobre o agiota.
Doce aroma de fritas enche o ar:
Mais ou menos feliz está Gervásio.
A virilidade das azaleias
Transforma-se em leite de magnésia.
Cada vida vivida é gelo seco;
Megalítico cal, tuberculose,
Linda alimentação balanceada.
Viva eu, viva tu, cenoura frita
Mórula, blástula, gástrula, nêurula
Pise na erva antes que seja tarde.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Aviso importantíssimo
Não sou dado a palavras de baixo calão, portanto me absterei de utilizar uma linguagem agressiva nesse post, apesar de que ela seria, teoricamente, cabível.
É o seguinte: eu ter negligenciado esse blog novamente é problema meu e eu não preciso explicar nada, até porque ninguém no mundo lê esse blog, eu não sei por que continuo a me iludir tão cegamente, então se uma hora dessas eu tiver vontade de escrever, eu vou escrever sem dar satisfação a ninguém e pronto e acabou.
Entenda, leitor desse blog (se você existir), que a minha vida tem sido bem pouco produtiva. Se tem uma coisa que eu já posso afirmar por experiência própria a respeito do Ensino Médio é que ele atrasa as coisas. Com a neura da preparação para o vestibular, as provas constantes e escoltadas por tarefas de casa infinitas, e a fastidiosa dificuldade de manter equilibradas a vida acadêmica e a social, esse período de três anos entre a parte boa e a parte não tão boa da vida mergulha a pessoa, durante todo o seu tempo livre e sozinho, em uma geleia espessa de ócio voluntarioso e transforma qualquer estudante aplicado ou poeta de Tumblr entusiástico em um ser modorrento e inútil. (É por essas e outras que o Brasil não vai pra frente.)
O que eu quero, como já devo ter citado no último texto (e é lamentável que a minha vida tenha mudado tão pouco nesse aspecto de lá pra cá), é reverter esse status quo lânguido, levantar-me contra a geleia e fazer algo de útil com o pouco de vida sobre o qual eu ainda tenho poder de veto. Esse blog será o meu veículo, aqui e ali, nessa empreitada. Toda vez que meus sucos criativos se acumularem, despejarei eles sobre esse teclado em que digito agora essas letras (por favor, leitor, tenha mais maturidade que um aluno do Ensino Médio e não interprete essa última frase da maneira errada) e produzirei um texto novo para extravasar o excesso de nada.
A colaboração do leitor é sempre bem-vinda, mas eu ainda não pretendo dar satisfação a ninguém sobre o que me manteve distante nos últimos cinco meses. É coisa demais pra pôr em dia...
É o seguinte: eu ter negligenciado esse blog novamente é problema meu e eu não preciso explicar nada, até porque ninguém no mundo lê esse blog, eu não sei por que continuo a me iludir tão cegamente, então se uma hora dessas eu tiver vontade de escrever, eu vou escrever sem dar satisfação a ninguém e pronto e acabou.
Entenda, leitor desse blog (se você existir), que a minha vida tem sido bem pouco produtiva. Se tem uma coisa que eu já posso afirmar por experiência própria a respeito do Ensino Médio é que ele atrasa as coisas. Com a neura da preparação para o vestibular, as provas constantes e escoltadas por tarefas de casa infinitas, e a fastidiosa dificuldade de manter equilibradas a vida acadêmica e a social, esse período de três anos entre a parte boa e a parte não tão boa da vida mergulha a pessoa, durante todo o seu tempo livre e sozinho, em uma geleia espessa de ócio voluntarioso e transforma qualquer estudante aplicado ou poeta de Tumblr entusiástico em um ser modorrento e inútil. (É por essas e outras que o Brasil não vai pra frente.)
O que eu quero, como já devo ter citado no último texto (e é lamentável que a minha vida tenha mudado tão pouco nesse aspecto de lá pra cá), é reverter esse status quo lânguido, levantar-me contra a geleia e fazer algo de útil com o pouco de vida sobre o qual eu ainda tenho poder de veto. Esse blog será o meu veículo, aqui e ali, nessa empreitada. Toda vez que meus sucos criativos se acumularem, despejarei eles sobre esse teclado em que digito agora essas letras (por favor, leitor, tenha mais maturidade que um aluno do Ensino Médio e não interprete essa última frase da maneira errada) e produzirei um texto novo para extravasar o excesso de nada.
A colaboração do leitor é sempre bem-vinda, mas eu ainda não pretendo dar satisfação a ninguém sobre o que me manteve distante nos últimos cinco meses. É coisa demais pra pôr em dia...
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Procrastinai
É triste constatar, ao final do processo de cumprimento de uma meta, que uma meta é só uma meta. É triste constatar que, mesmo depois do trabalho árduo que se teve para terminar a redação do seu roteiro a tempo do prazo final do concurso, ainda há uma pilha metafórica de coisas que encherão o seu saco até você dar um jeito nelas - o que, claro, é exponencialmente agravado pelo seu impulso natural de passar a maior parte do tempo útil lendo artigos no Rotten Tomatoes e pesquisando notícias sobre o revival de Arrested Development.
Você já está cansado de ouvir pessoas lhe aconselhando a parar de desperdiçar a sua juventude sentado em frente a um laptop - com a postura totalmente incorreta, ainda por cima - e não aguenta mais confrontar o vácuo inexorável da morte que te aguarda lá na linha de chegada e que se torna cada vez mais próximo proporcionalmente à sua protelação deliberada de coisas que realmente valeriam a pena - como terminar, por exemplo, aquele livro do Oscar Wilde que você não toca há semanas. Está sendo irresponsável, e sabe disso. Escreve sobre isso, e não age.
Houve desilusões no seu passado imediato, e você sabe que terá, mais cedo ou mais tarde, que alterar os planos para o seu futuro. Mas você não se preocupa com o fato de estar canalizando todas as suas forças na mesma direção; você consegue se sentir superior aos outros por não ter uma conta no Facebook, e se contenta com essa realização vazia mesmo ao perceber que a sua situação está no mesmo nível da dos outros, com suas redes sociais e idas ao Shopping Ibirapuera.
Há tantos planos na sua planilha mental, mas você não tem coragem de colocar nenhum em prática porque teme deixar ainda mais projetos inacabados, mais documentos do Word sem nenhuma importância real ocupando espaço no disco C pela sua falsa esperança de que um dia conseguirá lhes dar um desfecho digno. Você pensa em talvez deixar os planos maiores para lá e começar a pensar em que faculdade irá fazer, até perceber que não faz ideia ainda do que realmente almeja na vida sem contar aquele sonho maluco que, em termos acadêmicos, não é uma opção prática.
Há tarefas domésticas a serem realizadas, mas você não tem paciência de se entregar a nenhuma delas voluntariamente. Há tarefas escolares a serem realizadas, mas as aulas se aproximam do fim e sua nota de Produção Integrada ao Conteúdo já foi computada a essa altura, restando-lhe apenas a preparação para uma prova para a qual você não vê necessário se preparar. Não há saída - você está preso ao ócio, e não adianta engatinhar de volta para aquele site de fanfiction porque você sabe que aquilo é um desperdício de vida que vai cansar após algumas semanas. Você precisa de um hobby, mas não consegue se investir em nenhum completamente, e se consegue logo chegam pessoas a lhe dizer que vá procurar algo mais útil pra fazer.
Você decide voltar a escrever resenhas, mas não consegue o tempo para ver filmes, o que, na sua condição de aspirante ao ofício, é bastante patético. Você decide talvez escrever artigos, mas lhe falta um contexto, e lhe falta a experiência. A inexperiência impede você de voltar a escrever roteiros sem entrar em bloqueios criativos, e as pessoas acham que você tem que começar a dividir a sua atenção em mais de um foco. As pessoas estão certas; não é direito todos os seus sites mais visitados no Google Chrome serem agregadores de críticas, Tumblrs de pôsteres minimalistas, bases de dados sobre produções hollywoodianas e a Wikipédia. Há algo faltando em sua vida - e, ao menor sinal de inquietação, você imediatamente infere que esse algo é o feed do 9gag.
Finalmente, cansado da sua indolência criativa, você decide restartar aquele velho blog que sempre é abandonado depois de um tempo - e você não necessariamente tem pretensão de mantê-lo em atividade uniforme, mas espera que ele seja pelo menos um veículo para as suas forças, enquanto elas ainda existirem. Você percebe que talvez a morte não esteja tão próxima assim - você está pelo menos a uns 90 anos de atingir a expectativa de vida para essa geração, e essa onda de assassinatos em São Paulo deu uma esfriada - e se anima em continuar ticando coisas da sua planilha mental até ser inevitável escolher que faculdade irá fazer. E, se porventura algumas dessas coisas se revelarem demasiadamente difíceis de se cumprir, assim como tantos de seus objetivos passados, você sempre terá a ilusão de que Mario Kart não é um desperdício de vida tão grande assim. Tudo há, pois, de ficar bem.
Você já está cansado de ouvir pessoas lhe aconselhando a parar de desperdiçar a sua juventude sentado em frente a um laptop - com a postura totalmente incorreta, ainda por cima - e não aguenta mais confrontar o vácuo inexorável da morte que te aguarda lá na linha de chegada e que se torna cada vez mais próximo proporcionalmente à sua protelação deliberada de coisas que realmente valeriam a pena - como terminar, por exemplo, aquele livro do Oscar Wilde que você não toca há semanas. Está sendo irresponsável, e sabe disso. Escreve sobre isso, e não age.
Houve desilusões no seu passado imediato, e você sabe que terá, mais cedo ou mais tarde, que alterar os planos para o seu futuro. Mas você não se preocupa com o fato de estar canalizando todas as suas forças na mesma direção; você consegue se sentir superior aos outros por não ter uma conta no Facebook, e se contenta com essa realização vazia mesmo ao perceber que a sua situação está no mesmo nível da dos outros, com suas redes sociais e idas ao Shopping Ibirapuera.
Há tantos planos na sua planilha mental, mas você não tem coragem de colocar nenhum em prática porque teme deixar ainda mais projetos inacabados, mais documentos do Word sem nenhuma importância real ocupando espaço no disco C pela sua falsa esperança de que um dia conseguirá lhes dar um desfecho digno. Você pensa em talvez deixar os planos maiores para lá e começar a pensar em que faculdade irá fazer, até perceber que não faz ideia ainda do que realmente almeja na vida sem contar aquele sonho maluco que, em termos acadêmicos, não é uma opção prática.
Há tarefas domésticas a serem realizadas, mas você não tem paciência de se entregar a nenhuma delas voluntariamente. Há tarefas escolares a serem realizadas, mas as aulas se aproximam do fim e sua nota de Produção Integrada ao Conteúdo já foi computada a essa altura, restando-lhe apenas a preparação para uma prova para a qual você não vê necessário se preparar. Não há saída - você está preso ao ócio, e não adianta engatinhar de volta para aquele site de fanfiction porque você sabe que aquilo é um desperdício de vida que vai cansar após algumas semanas. Você precisa de um hobby, mas não consegue se investir em nenhum completamente, e se consegue logo chegam pessoas a lhe dizer que vá procurar algo mais útil pra fazer.
Você decide voltar a escrever resenhas, mas não consegue o tempo para ver filmes, o que, na sua condição de aspirante ao ofício, é bastante patético. Você decide talvez escrever artigos, mas lhe falta um contexto, e lhe falta a experiência. A inexperiência impede você de voltar a escrever roteiros sem entrar em bloqueios criativos, e as pessoas acham que você tem que começar a dividir a sua atenção em mais de um foco. As pessoas estão certas; não é direito todos os seus sites mais visitados no Google Chrome serem agregadores de críticas, Tumblrs de pôsteres minimalistas, bases de dados sobre produções hollywoodianas e a Wikipédia. Há algo faltando em sua vida - e, ao menor sinal de inquietação, você imediatamente infere que esse algo é o feed do 9gag.
Finalmente, cansado da sua indolência criativa, você decide restartar aquele velho blog que sempre é abandonado depois de um tempo - e você não necessariamente tem pretensão de mantê-lo em atividade uniforme, mas espera que ele seja pelo menos um veículo para as suas forças, enquanto elas ainda existirem. Você percebe que talvez a morte não esteja tão próxima assim - você está pelo menos a uns 90 anos de atingir a expectativa de vida para essa geração, e essa onda de assassinatos em São Paulo deu uma esfriada - e se anima em continuar ticando coisas da sua planilha mental até ser inevitável escolher que faculdade irá fazer. E, se porventura algumas dessas coisas se revelarem demasiadamente difíceis de se cumprir, assim como tantos de seus objetivos passados, você sempre terá a ilusão de que Mario Kart não é um desperdício de vida tão grande assim. Tudo há, pois, de ficar bem.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Resumo do estado em que se encontra a minha vida
E,
depois de um longo hiato,
vieram
dois novos longos hiatos.
depois de um longo hiato,
vieram
dois novos longos hiatos.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Eles e nós segundo Hollywood
Dezesseis deles desceriam do Boeing em Galeão e dirigiriam-se, entusiasmados, até a ponte de desembarque, com máquinas em punho e a observar o Pão de Açúcar pronunciando-se no horizonte. Adentrariam o terminal de passageiros, no qual seriam recebidos por mulheres em uniformes coloridos - e curtos - dizendo "Bienvenidos a el Río, amigos!", e seriam então localizados por um guia turístico com feições latinas, chapéu panamá e camisa de cores tropicais. Seguiriam-lhe até a saída, antes da qual fariam uma parada em uma cafeteria. Lá, tomariam caipirinhas e fechariam a conta com uma provada do famoso "café brasileño" - como diria o guia, enquanto se recostasse desleixadamente na cadeira e sorrisse para todo mundo.
Sairiam do aeroporto já perto o suficiente de Ipanema para poder ver as moças de corpo dourado que por ali estariam passando, e tomariam então o ônibus aberto da companhia turística em direção à orla. O guia falaria das belezas naturais da cidade - em inglês, embora com um sotaque latino acentuadíssimo - e algum deles levaria uma bolada na cara de uns garotos que estariam improvisando uma pelada no meio da rua. Não ligariam, sorririam de volta, algum talvez descesse e arriscasse uma cobrança de pênalti - e a viagem seguiria, na maior tranquilidade, pois aquilo seria nada mais que a rotina.
Enquanto penetrassem a massa de pessoas em trajes carnavalescos que estariam sambando também no meio da rua ao som de um samba ambiente que dispensaria origem física, tirariam fotos de tudo, da massa que estariam penetrando ao horizonte sem nuvens de Copacabana, da praia onde meninas que viriam e passariam estariam de topless, rindo à beça com seus óculos escuros e chapelões artesanais, à calçada larguérrima e perfeitamente limpa pintada com um alegre padrão geométrico. Chegariam logo ao hotel, com vista para o mar castamente azul, e lá não fariam nada senão largar as malas e correr de volta para o ônibus.
Fariam como primeira parada uma visita à terceira maravilha do mundo, ao redor da qual bateriam uma série de fotos em que imitariam sua famosa pose de T minúsculo. Fariam uma pausa para contemplar a vista da cidade - mais de 80% da porção interior dela seria ocupada por mata virgem (um pedaço da Floresta Amazônica, explicaria o guia), bem para dentro da qual talvez fosse possível ver uma pirâmide maia ou duas. Dali eles desceriam eufóricos - de bonde, claro - e dirigiriam-se de imediato à famosa borda do continente que por ali se incluía. Lá, seriam contagiados por um clima upbeat de festa integral, pessoas cantando e dançando, iguarias sem par, um oceano convidativo e talvez até pássaros coloridos voando soltos, e alguns provavelmente arrumariam companhia para a noite que se anunciaria sem pressa - estamos, afinal de contas, no Brasil.
De volta ao hotel, os desocupados seriam avisados que a Sapucaí estaria sendo agitada pelo Carnaval semanal. Eles rapidamente se juntariam à comitiva de uma escola de samba - a Unidos da Tijuca, por exemplo - e sairiam dançando por aí como em seus sonhos mais, digamos, potencialmente turísticos. Voltariam, finalmente, ao hotel, e ali dormiriam. No dia seguinte, um tour incluso no pacote pelo pedaço da Amazônia, com seu patrimônio histórico, sua fauna exótica, seus índios.
Seguiriam na mesma toada até o fim do dia, da semana; até, enfim, expirar o pacote e eles estarem de volta a Galeão, ouvindo ressoar as folclóricas palavras "Última. Chamada. Voo. Um. Sete. Dois. Para. Nova. York. Portão. Quatro.". Isso, é claro, fosse este um cenário mundano: sendo este um cenário hollywoodiano, eles simplesmente iriam de lancha, você sabe, e conforme o barco se aproximasse do horizonte e se distanciasse de nós, projetariam-se na nossa frente, cobertas de glória, as palavras "The End".
Sairiam do aeroporto já perto o suficiente de Ipanema para poder ver as moças de corpo dourado que por ali estariam passando, e tomariam então o ônibus aberto da companhia turística em direção à orla. O guia falaria das belezas naturais da cidade - em inglês, embora com um sotaque latino acentuadíssimo - e algum deles levaria uma bolada na cara de uns garotos que estariam improvisando uma pelada no meio da rua. Não ligariam, sorririam de volta, algum talvez descesse e arriscasse uma cobrança de pênalti - e a viagem seguiria, na maior tranquilidade, pois aquilo seria nada mais que a rotina.
Enquanto penetrassem a massa de pessoas em trajes carnavalescos que estariam sambando também no meio da rua ao som de um samba ambiente que dispensaria origem física, tirariam fotos de tudo, da massa que estariam penetrando ao horizonte sem nuvens de Copacabana, da praia onde meninas que viriam e passariam estariam de topless, rindo à beça com seus óculos escuros e chapelões artesanais, à calçada larguérrima e perfeitamente limpa pintada com um alegre padrão geométrico. Chegariam logo ao hotel, com vista para o mar castamente azul, e lá não fariam nada senão largar as malas e correr de volta para o ônibus.
Fariam como primeira parada uma visita à terceira maravilha do mundo, ao redor da qual bateriam uma série de fotos em que imitariam sua famosa pose de T minúsculo. Fariam uma pausa para contemplar a vista da cidade - mais de 80% da porção interior dela seria ocupada por mata virgem (um pedaço da Floresta Amazônica, explicaria o guia), bem para dentro da qual talvez fosse possível ver uma pirâmide maia ou duas. Dali eles desceriam eufóricos - de bonde, claro - e dirigiriam-se de imediato à famosa borda do continente que por ali se incluía. Lá, seriam contagiados por um clima upbeat de festa integral, pessoas cantando e dançando, iguarias sem par, um oceano convidativo e talvez até pássaros coloridos voando soltos, e alguns provavelmente arrumariam companhia para a noite que se anunciaria sem pressa - estamos, afinal de contas, no Brasil.
De volta ao hotel, os desocupados seriam avisados que a Sapucaí estaria sendo agitada pelo Carnaval semanal. Eles rapidamente se juntariam à comitiva de uma escola de samba - a Unidos da Tijuca, por exemplo - e sairiam dançando por aí como em seus sonhos mais, digamos, potencialmente turísticos. Voltariam, finalmente, ao hotel, e ali dormiriam. No dia seguinte, um tour incluso no pacote pelo pedaço da Amazônia, com seu patrimônio histórico, sua fauna exótica, seus índios.
Seguiriam na mesma toada até o fim do dia, da semana; até, enfim, expirar o pacote e eles estarem de volta a Galeão, ouvindo ressoar as folclóricas palavras "Última. Chamada. Voo. Um. Sete. Dois. Para. Nova. York. Portão. Quatro.". Isso, é claro, fosse este um cenário mundano: sendo este um cenário hollywoodiano, eles simplesmente iriam de lancha, você sabe, e conforme o barco se aproximasse do horizonte e se distanciasse de nós, projetariam-se na nossa frente, cobertas de glória, as palavras "The End".
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