Dezesseis deles desceriam do Boeing em Galeão e dirigiriam-se, entusiasmados, até a ponte de desembarque, com máquinas em punho e a observar o Pão de Açúcar pronunciando-se no horizonte. Adentrariam o terminal de passageiros, no qual seriam recebidos por mulheres em uniformes coloridos - e curtos - dizendo "Bienvenidos a el Río, amigos!", e seriam então localizados por um guia turístico com feições latinas, chapéu panamá e camisa de cores tropicais. Seguiriam-lhe até a saída, antes da qual fariam uma parada em uma cafeteria. Lá, tomariam caipirinhas e fechariam a conta com uma provada do famoso "café brasileño" - como diria o guia, enquanto se recostasse desleixadamente na cadeira e sorrisse para todo mundo.
Sairiam do aeroporto já perto o suficiente de Ipanema para poder ver as moças de corpo dourado que por ali estariam passando, e tomariam então o ônibus aberto da companhia turística em direção à orla. O guia falaria das belezas naturais da cidade - em inglês, embora com um sotaque latino acentuadíssimo - e algum deles levaria uma bolada na cara de uns garotos que estariam improvisando uma pelada no meio da rua. Não ligariam, sorririam de volta, algum talvez descesse e arriscasse uma cobrança de pênalti - e a viagem seguiria, na maior tranquilidade, pois aquilo seria nada mais que a rotina.
Enquanto penetrassem a massa de pessoas em trajes carnavalescos que estariam sambando também no meio da rua ao som de um samba ambiente que dispensaria origem física, tirariam fotos de tudo, da massa que estariam penetrando ao horizonte sem nuvens de Copacabana, da praia onde meninas que viriam e passariam estariam de topless, rindo à beça com seus óculos escuros e chapelões artesanais, à calçada larguérrima e perfeitamente limpa pintada com um alegre padrão geométrico. Chegariam logo ao hotel, com vista para o mar castamente azul, e lá não fariam nada senão largar as malas e correr de volta para o ônibus.
Fariam como primeira parada uma visita à terceira maravilha do mundo, ao redor da qual bateriam uma série de fotos em que imitariam sua famosa pose de T minúsculo. Fariam uma pausa para contemplar a vista da cidade - mais de 80% da porção interior dela seria ocupada por mata virgem (um pedaço da Floresta Amazônica, explicaria o guia), bem para dentro da qual talvez fosse possível ver uma pirâmide maia ou duas. Dali eles desceriam eufóricos - de bonde, claro - e dirigiriam-se de imediato à famosa borda do continente que por ali se incluía. Lá, seriam contagiados por um clima upbeat de festa integral, pessoas cantando e dançando, iguarias sem par, um oceano convidativo e talvez até pássaros coloridos voando soltos, e alguns provavelmente arrumariam companhia para a noite que se anunciaria sem pressa - estamos, afinal de contas, no Brasil.
De volta ao hotel, os desocupados seriam avisados que a Sapucaí estaria sendo agitada pelo Carnaval semanal. Eles rapidamente se juntariam à comitiva de uma escola de samba - a Unidos da Tijuca, por exemplo - e sairiam dançando por aí como em seus sonhos mais, digamos, potencialmente turísticos. Voltariam, finalmente, ao hotel, e ali dormiriam. No dia seguinte, um tour incluso no pacote pelo pedaço da Amazônia, com seu patrimônio histórico, sua fauna exótica, seus índios.
Seguiriam na mesma toada até o fim do dia, da semana; até, enfim, expirar o pacote e eles estarem de volta a Galeão, ouvindo ressoar as folclóricas palavras "Última. Chamada. Voo. Um. Sete. Dois. Para. Nova. York. Portão. Quatro.". Isso, é claro, fosse este um cenário mundano: sendo este um cenário hollywoodiano, eles simplesmente iriam de lancha, você sabe, e conforme o barco se aproximasse do horizonte e se distanciasse de nós, projetariam-se na nossa frente, cobertas de glória, as palavras "The End".
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