Era de fato um colégio fora dos padrões comuns às demais instituições; para nós, seus alunos de mais longa data, tratava-se de uma ilha no oceano pedagogo-burocrático de Vértices, Etapas, Bandeirantes e Objetivos. Talvez por ser uma escola católica, ou talvez apenas por ser um colégio mais indie, digamos, em meio a tantos sistemas de ensino consagrados e propagandeados nos veículos de comunicação, era mais do que isso: atrás de suas incontáveis paredes, nós estávamos abrigados dos problemas reais, do ensino privado real, daquilo que tanto falavam os adultos e do melhor desempenho no Enem confirmado pelo MEC de que se gabavam, incansavelmente, seus afamados concorrentes.
Também talvez por ser uma escola católica, estava sempre comemorando alguma coisa, fosse a Páscoa ou o aniversário da beata que inspirou o nome gravado nas fachadas, fosse o Natal ou a primeira comunhão das crianças da catequese. Havia, apropriadamente, um auditório, no qual nós, os alunos do curso opcional de teatro, subíamos anualmente sob a tutela de um professor notoriamente querido por todos - mais querido, até, e por grande margem, do que as irredutíveis e antipáticas senhoras de autoridade ambígua (freiras? pedagogas? empresárias?) que tocavam tudo. A Irmã S., em particular, era inacessível. Quando muito, nos lançava um olhar amedrontador ao topar conosco nos corredores.
Nossos professores, nos anos dourados do Ensino Fundamental I, eram polivalentes, e sempre tinham dois cromossomos X. (Todas, sem exceções, tinham o cabelo cor de caramelo.) No começo, eram nossas mães das 7h10 às 11h35; gradualmente, o complexo se dissolveu e elas envelheceram, já nos preparando para a desgraça que seria a troca constante de rostos em frente à lousa nos anos que se seguiriam. Fazíamos uso de uma agenda com certa frequência; não havia horários para as aulas e tudo fazia sentido na medida em que a professora o dissesse. Tudo era mais simples, embora as provas - lá conhecidas pelo nome de salão "avaliações" - fossem quase semanais.
A definição formal nos folhetos era a de uma escola sem fins lucrativos, embora ela não a fosse, como nossos pais viriam a perceber com o passar do tempo. Não importava: se tivéssemos que pagar para entrar em uma festa junina na qual nós mesmos iríamos apresentar coreografias, que assim fosse; se tivéssemos que nos contentar com 5% de desconto conseguidos na base do choro, que assim fosse; se tivéssemos que comprar livros de Ensino Religioso para aprender basicamente os fundamentos e pregações do catolicismo, que assim fosse. Os adultos é que se preocupassem com as finanças, nós só queríamos estar ali e continuar ali até que não desse mais.
Naquela escola, em que nas matérias reinava o politicamente correto e fora delas a ausência de questionamentos por nossa parte, transcorreram os quatro últimos anos da minha infância propriamente dita. Se ainda bate às vezes uma nostalgia ao me lembrar do curso opcional de teatro, da sala de artes, da nossa ignorância em relação aos horários e do caráter indie das aulas, deve ser porque a adolescência ainda não deu aquele último golpe que, dizem os mais velhos, deve me desconectar da minha fase Ensino Fundamental I, e, assim, deixar entrar aquilo que eu vou acabar contemplando como a melhor fase da minha vida - mesmo ela já tendo, estranhamente, me feito mergulhar no tal oceano pedagogo-burocrático e me matricular no Objetivo, que, para a minha sorte, teve o melhor desempenho no Enem confirmado pelo MEC.
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