terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Colchão no recinto

Estávamos nós sentados no sofá como é de praxe, ouvindo a Fátima agradecer pelo apoio dos telespectadores nesses 14 anos de Jornal Nacional, nos preparando para adentrar a noite assistindo televisão, quando notei, silenciosamente, que ele continuava lá - talvez nunca tivesse ficado ali por tanto tempo, na verdade, e eu sabia que a sua remoção era iminente, mas ele continuava lá, firme e forte, a ignorar nossas pisadas e nossas tentativas de nos mantermos confortáveis a despeito de ele estar bloqueando os descansos para os pés.
        Nós o colocamos lá no sábado, para viabilizar nosso pernoite deslocado enquanto visitas ocupavam o nosso quarto. Sobre ele dormimos, sobre ele acordamos e sobre ele nos mantivemos por todo o tempo em que estivemos a jogar videogame ou assistir o primeiro Senhor dos Anéis no dia seguinte: conforme íamos nos acostumando à ideia de tirar os chinelos para adentrar a sala de tevê, ele ia se infiltrando na nossa rotina, nos fazendo remir pacientemente seus contras de ordem prática, nos conquistando através de seu amortecimento e da possibilidade de se deitar no meio da sala, adaptando-se à paisagem com seu lençol tabaco. As visitas se foram no final do dia e ele continuou lá, apesar de tudo; um par de cidadãos que lá se deitara para ver TV por lá ficou durante a madrugada, e ele aproveitou para prolongar sua permanência por mais uma noite, mais uma tarde, mais vinte e quatro horas.
        Nada passageiro resistiria à rotina em situações normais; decorações de Natal se desfazem, aglomerações de fungos se desfazem, pilhas de livros organizadas por cor e tamanho se desfazem, sonhos se desfazem, mas o colchão persistia, o colchão continuava deitado sobre o tapete da sala, perseverante e inabalável, atestando que aquela não era uma situação normal, que ele estava acima da rotina, que a vida poderia ser tão divertida quanto um pernoite deslocado e que se quiséssemos nos deitar no meio da sala, havia de ser tudo da lei. O colchão que então eu esperava que os demais presentes ignorassem era um refúgio, uma revolta contra a rotina, um acréscimo de humanidade ao ato de assistir televisão e ao fluxo ininterrupto e inclemente da vida. Enquanto houvesse um colchão no recinto, haveria o que fazer além do que eu já fazia havia treze anos e meio, haveria a possibilidade de se deitar no meio da sala, haveria esperança de um futuro mais livre da rotina e haveria um amortecimento para eventuais quedas de objetos.
        No entanto, hoje à tarde voltamos para casa e nos deparamos com uma sala de estar vazia. Sem que eu tivesse tido a oportunidade de agir, o colchão e tudo o que ele significava em minha vida haviam sido engolidos pela rotina. Tudo voltou ao que era antes daquele fatídico sábado em um estalo; agora, nós podemos usar os descansos para os pés.

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