segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Os 87%

Imagino que o leitor adepto do brasão corintiano, nos intervalos em que não está nas ruas a berrar a plenos pulmões as razões genéricas pelas quais daria a própria vida por uma organização esportiva, considere-se uma maioria consolidada e indiscutível no Brasil no campo das relações futebolísticas torcedor-time. Doravante, porém, recomendo-lhe que revise esta ideia, pois ela não poderia estar mais incorreta.
        É um fato datafolhado que 13% dos torcedores no Brasil são corintianos, o que os torna a segunda maior torcida do país (e, a julgar pela situação da minha rua no período das 17h às 19h de ontem, a mais barulhenta). É um fato não-datafolhado, mas do conhecimento da população em geral, que esses 13% não hesitam em gabar-se desta estatística quando comparações entre os escudos vêm à tona. Mas um fato elementar ao qual os corintianos aparentam ser cegos é que, no que diz respeito ao Corinthians, os torcedores não se dividem em corintianos, gremistas, são-paulinos, palmeirenses: eles se dividem em corintianos e anti-corintianos.
        A situação deles é semelhante à dos EUA, que são ao mesmo tempo amados incondicionalmente por seus patrióticos habitantes e odiados por virtualmente todo o terceiro mundo. O Corinthians, como o leitor não-corintiano bem sabe e o leitor corintiano finge não saber, é possivelmente o time mais odiado do Brasil: se 13% da população assume sem ter vergonha seu corintianismo muitas vezes doentio, os outros 87% da população assumem seu anti-corintianismo muitas vezes doentio sem menor segurança.
        Veja um exemplo: faltam quatro dias para a decisão do campeonato. O assunto, claro, é pauta das discussões casuais entre os 29 alunos de uma turma do 8º ano de São Paulo (que, por coincidência, é onde a maior parte desses 13% se concentram). 4 desses alunos se assumem corintianos (o que, se você fizer as contas, equivale a 13%). Entre os demais, um consenso: Corinthians must not win, parafraseando Zelda. Todos sabem que seus respectivos times já não têm chances de vitória ou grandes conquistas; a reação imediata a essa constatação é torcer contra o Corinthians, com todas as forças que encontrarem, pois é assim que a torcida brasileira funciona.
        Seja este ódio coletivo derivado dos problemas comportamentais de muitos corintianos, dos argumentos repetitivos usados por eles quando se fazem comparações entre os times, do fato de eles serem loucos assumidos ou da dificuldade em obter paz e sossego no período das 17h às 19h de domingo em ruas que, como a minha, são apinhadas de exemplares desses 13%, o fato é que todo mundo odeia o Corinthians, tanto quanto ou mais que ama o próprio time. E a decisão de última hora do Campeonato Brasileiro de 2011 não serviu para evidenciar a maioria absoluta da torcida corintiana e de seus 20 e poucos milhões, mas para comprovar a sua esmagadora minoria em relação aos 166 milhões de brasileiros que por ela nutrem um ódio muitas vezes doentio. Nos dias que antecederam o confronto final e indireto Corinthians x Vasco, gremistas, são-paulinos e palmeirenses uniram-se por um inimigo em comum: os 20 e poucos milhões que se achavam maioria. Eram, então, 166 milhões de torcedores contra, 166 milhões de vascaínos, 166 milhões de corações batendo vacilantemente sob a expectativa de um resultado que alegraria a nação: o Corinthians perder e o Vasco ganhar.
        Apresentados os fatos, a gente imagina o quanto seria engraçado - e lógico - se uma multidão cercasse o Estádio do Pacaembu na tarde de ontem com placas dizendo "We are the 87%", à la Occupy Wall Street, e reivindicasse que os 13% baixassem um pouco a bola, porque - não adianta fingir que não - eles são minoria e se acham o contrário. Tivessem o Corinthians perdido e o Vasco ganhado, tudo que se seguisse seria melhor; a minha rua dormiria mais tranquila, o Faustão apresentaria a segunda parte de seu programa com um sorriso maior no rosto e o Sócrates ganharia uma menção póstuma mais digna na primeira página do Estadão.
        Mas o Corinthians empatou em 0 a 0 e o Brasil amanheceu mais triste. Tomara que pelo menos você tenha ficado feliz aí em cima, doutor.

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