Primeiramente, diga-se, leitor, que isto não é uma crônica. E não da mesma forma que o cachimbo naquela pintura de René Magritte não é um cachimbo ("Ceci n'est pas une chronique"?). Isso que você agora (no seu tempo) lê e que eu agora (no meu tempo) escrevo é, para ser franco, um apelo desesperado.
Veja bem: em 24 postagens - todas destinadas a serem crônicas, embora seja discutível quais delas tiveram sucesso - e 9 meses e meio de existência quase anônima, o meu blog recebeu um total acachapante de quatro comentários. Pode-se dizer que é ótimo para um iniciante, e eu realmente não tenho argumentos para refutar essa popular posição, mas o fato é que, sendo um escritor em busca de reconhecimento, eu sou completamente a favor de qualquer coisa que seja feita em prol de uma existência com mais feedback - a saber, o seu comentário.
Não tenha medo de postar sua opinião, leitor, pois o máximo que pode acontecer é eu removê-la deste domínio por indignação e sujar seu nome no campo das relações inter-bloggers (até agora não tenho nenhuma, mas quem sabe o que o futuro me reserva?). Sua vida continuará rigorosamente a mesma. E a minha se tornará inexprimivelmente melhor.
Um true writer escreve independentemente da opinião pública, é verdade; o leitor há de compreender, todavia, que eu ainda estou em processo de me tornar um true writer, e portanto julgo-me no direito de cometer os pecados que são praxe entre os rookie writers como eu. Ocorre que, entre tais pecados, o mais urgente, na atual conjuntura, é o meu desespero por feedback.
O leitor, que sempre foi tão compreensivo, deve entender que um rookie writer do meu estrato se alimenta da sua opinião e de bolachas maisena. Como o processo de envio de bolachas maisena pelo correio envolve um denso e desagradável papelório, a maior caridade que você leitor poderia fazer pela alma que escreve estas linhas é dar a sua opinião. Seja um comentário genérico de encorajamento, seja uma crítica construtiva, seja uma réplica de trinta linhas explicando como a mídia brasileira manipula as coisas em favor da direita, não importa; eu realmente só quero deixar de ignorar seu pensamento. Não cometa o imenso egoísmo de guardar suas opiniões acerca desta coletânea de crônicas para si, leitor; dê-lhes uma existência fora da sua mente, dê-lhes uma forma através dos afamados signos latinos (ou gregos, se lhe convier), posicione-as na caixa branca sob esta postagem e deixe que eu e o mundo saibam o que você acha dessa coisa anônima que é o meu blog: é tudo o que eu lhe peço para começar dezembro com o melhor pé (não me atrevo a dizer "direito" porque talvez menosprezar os canhotos seja politicamente incorreto). Obrigado.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
O meu iPod
É um mal cada vez mais comum no Brasil, e, se você padece dessa síndrome, leitor, não vejo outra opção senão engolir e tocar adiante. Assim é a vida: para eles, os despreocupados, os sagitarianos, os cariocas, Deus reservou dias e noites tranquilos, possibilidades e uma sorte inacreditável, enquanto nós, os cabeças-quente, os perfeccionistas, os paulistanos, fomos relegados à obsessão sem causa, aos sonhos intranquilos, às responsabilidades e à Lei de Murphy - e, em cima de tudo, à irreversibilidade de nossa condição.
Não o digo em vingança contra nenhum despreocupado, sagitariano ou carioca que cruzou meu caminho, tampouco em desabafo pelos desprazeres dessa vida de neuroses e preocupações. O que me atribula é a súbita consciência que tomei da minha situação, no momento em que me vi livre de uma das suas inúmeras ingerências em meu cotidiano; o momento, para ser mais exato, em que iniciei a transferência de músicas da minha biblioteca para o tablet.
É tão desnecessário quanto soa, tão excessivamente burocrático quanto soa, e tão limitativo quanto soa, mas, por motivos que jamais fui capaz de entender, não consigo me desvencilhar do hábito de sair pesquisando a obra do artista no site da Amazon antes de começar a correr atrás dos finalmentes (as faixas, que fique claro). Minha vida torna-se mais complicada e o botão "Next" torna-se mais desgastado com as regras que, sabe Deus ou o diabo por quê, eu impus a mim mesmo desde o início do processo. Quantas vezes já não tive de escolher entre duas músicas de um artista, ou me forçar a ouvir determinada faixa do Michael Bublé de que eu nem gosto muito quando estou mais para Lily Allen, ou até mesmo cancelar completamente um artista de meus diretórios musicais por falta de material suficiente? Quantas vezes eu já não me flagrei sonhando com uma vida sem fronteiras e um iPod sem regras? E por que, oh meu Deus, por que eu não faço nada a respeito?
Já pensou se todos decidissem seguir o mau exemplo? O iTunes se tornaria um cartório, e uma vez que até nossa mais particular fonte de entretenimento fosse forçada a adaptar-se a padrões, seria uma questão de tempo até a vida tornar-se um mar burocrático, oprimido sem intervalo pela rígida fiscalização e por desumanismos como a categorização e a ordem alfabética; no mais, tudo perderia a graça e nós eventualmente nos pegaríamos vivendo em um caos da ordem, tal e qual uma repartição pública. E, ainda assim, eu continuo invariavelmente adicionando um par de artistas de cada vez.
E eis que, assim de repente, o tablet aparece na minha vida, vazio e pronto para ser preenchido com quaisquer faixas, e eis que eu tenho a oportunidade de começar do zero e fazer direito. Do dia para a noite, eu fui de um obcecado por organização com um tocador de MP3 desnecessariamente organizado para um obcecado por organização com um tocador de MP3 com não mais que a organização devida - tudo bem que uma geringonça de sete polegadas de diagonal não cabe no bolso, mas, enquanto houver sol e enquanto houver uma tomada de três pinos num raio de três metros, eu poderei ouvir música sem me preocupar com os próximos 2 artistas que pesquisarei no site da Amazon.
A vida agora é mais simples, o tempo começa a sobrar com mais frequência, tudo flui e de repente tudo pode continuar fluindo; o meu cotidiano, com todas as ingerências de minha situação, agora pode se descomplicar gradualmente; em breve, talvez, a medicina ocidental encontre uma cura e nós, cabeças-quente, perfeccionistas, paulistanos, seremos felizes para sempre a ouvir Lily Allen, ou, se estivermos mais a fim, Michael Bublé. E então, tudo estará melhor - com a provável exceção, lastimavelmente, do meu iPod.
Não o digo em vingança contra nenhum despreocupado, sagitariano ou carioca que cruzou meu caminho, tampouco em desabafo pelos desprazeres dessa vida de neuroses e preocupações. O que me atribula é a súbita consciência que tomei da minha situação, no momento em que me vi livre de uma das suas inúmeras ingerências em meu cotidiano; o momento, para ser mais exato, em que iniciei a transferência de músicas da minha biblioteca para o tablet.
Uma das maiores provas de minha neurose crônica e sem justificativa é o dogma que rege a seleção de músicas que chegam até meu iPod. A regra é clara, como diria Arnaldo César Coelho: 1) cada artista deve
ter oito músicas, nem mais nem menos, o que significa que uma música, por
melhor que seja, não pode ser adicionada sem que outras sete do mesmo artista
também sejam dignas; 2) o número de artistas femininos e masculinos deve ser o
mesmo; 3) as músicas adicionadas não podem ter sido compostas para trilhas
sonoras de filmes ou seriados; 4) deve haver um número igual de músicas por
idioma (até agora, todas são in english,
então tudo bem); 5) as músicas devem vir de discos lançados de 1996 para cima; 6)
faixas com qualquer tipo de ligação com o filho do Fábio Júnior são
terminantemente proibidas.
Já pensou se todos decidissem seguir o mau exemplo? O iTunes se tornaria um cartório, e uma vez que até nossa mais particular fonte de entretenimento fosse forçada a adaptar-se a padrões, seria uma questão de tempo até a vida tornar-se um mar burocrático, oprimido sem intervalo pela rígida fiscalização e por desumanismos como a categorização e a ordem alfabética; no mais, tudo perderia a graça e nós eventualmente nos pegaríamos vivendo em um caos da ordem, tal e qual uma repartição pública. E, ainda assim, eu continuo invariavelmente adicionando um par de artistas de cada vez.
E eis que, assim de repente, o tablet aparece na minha vida, vazio e pronto para ser preenchido com quaisquer faixas, e eis que eu tenho a oportunidade de começar do zero e fazer direito. Do dia para a noite, eu fui de um obcecado por organização com um tocador de MP3 desnecessariamente organizado para um obcecado por organização com um tocador de MP3 com não mais que a organização devida - tudo bem que uma geringonça de sete polegadas de diagonal não cabe no bolso, mas, enquanto houver sol e enquanto houver uma tomada de três pinos num raio de três metros, eu poderei ouvir música sem me preocupar com os próximos 2 artistas que pesquisarei no site da Amazon.
A vida agora é mais simples, o tempo começa a sobrar com mais frequência, tudo flui e de repente tudo pode continuar fluindo; o meu cotidiano, com todas as ingerências de minha situação, agora pode se descomplicar gradualmente; em breve, talvez, a medicina ocidental encontre uma cura e nós, cabeças-quente, perfeccionistas, paulistanos, seremos felizes para sempre a ouvir Lily Allen, ou, se estivermos mais a fim, Michael Bublé. E então, tudo estará melhor - com a provável exceção, lastimavelmente, do meu iPod.
sábado, 26 de novembro de 2011
Sarjeta metafórica
37 anos, casado, duas filhas, emprego estável, classe média-alta, residente em um apartamento no penúltimo andar de um edifício em Alphaville, comprado e decorado pela planta; íntegro, um livro aberto, sem ressentimentos familiares ou inimigos platônicos; um exemplo de ética e bons costumes no âmbito de seu condomínio e um profissional respeitado no âmbito do workplace vizinho ao seu condomínio. Um cidadão comum, por assim dizer; pai de família de comercial da Hasbro - tinha, inclusive, uma ou duas versões do Monopoly encaixados entre os outros artigos mundanos da estante da sala.
Certo dia, sentindo-se particularmente bem-humorado - o que geralmente significaria um prelúdio de uma cena digna de informe publicitário de apartamento, com a família rindo e jogando-se pelo carpete da sala -, decidiu contar uma piada à mesa.
- Qual é a diferença - inquiriu, do alto de sua inócua espontaneidade - entre um bastão de madeira e um asiático?
Sua esposa tossiu, prevendo o eufemismo que findaria o gracejo. Censurou-o com o olhar, temendo o efeito que o desfecho da anedota poderia ter aos castos ouvidos de suas duas filhas.
Ignorando os temores dela, ele sorriu, tão despreocupadamente quanto sua natureza lhe permitia.
Ela cerrou os punhos. Logo ele, que sempre havia sido um totem de integridade, vinha agora com aquela história, aquela piadinha de mau gosto, e com as crianças na mesa! Aquela piada não era tão somente uma piada: era uma invasão à sua vida pacata e moralizada, uma brecha que deixava entrar a vulgaridade, a obscenidade, os maus costumes, a imoralidade, a marginalização, o crime, e, logo mais, as drogas. Como a mãe de pulso firme que os vizinhos tinham por modelo, ela não devia aceitar aquilo. Ela não podia aceitar aquilo.
- Imorigerado! Libertino! Depravado! Energúmeno! - exclamou, num ímpeto. - Como você pôde?
- Eu...
- E ainda tem a pachorra de tentar se defender! Saia desta mesa! Você não é digno das receitas do meu novo livro da Palmirinha! Eu quero o divórcio!
Tentou reverter a situação, mas a mulher já não o ouvia. A mulher o queria longe daquele apartamento, de preferência longe daquele condomínio; melhor, fora do Brasil. Ele não discutiu. Arrumou as coisas e foi bater na porta de um amigo em Santana.
- Tem lugar aí dentro pra um desabrigado? - perguntou.
O amigo franziu a testa.
- Meça suas piadas! - disse, e fechou-lhe a porta na cara.
Mudou-se para um albergue em Tamboré. Esteve mudo pelas três semanas que se seguiram.
Continuou trabalhando em Alphaville. Certa vez, descobriu que era Dia da Secretária.
- Depois passe no meu escritório que eu tenho um presente - avisou à sua. - Sabe que dia é hoje?
Deu-lhe um tapa na cara e pediu demissão. O episódio o levou a ser dispensado pela companhia, com justa causa.
Foi morar em um hotel no centro. Certo dia, no aniversário da filha mais velha, levantou-se para discursar.
- A minha filha... - começou, perante os olhares esperançosos dos convidados. - O tempo que eu tive a oportunidade de passar com ela foi uma experiência simplesmente incrível!
A aniversariante se levantou e saiu correndo aos prantos para dentro de casa. Trancou-se no quarto. A mãe fitou o discursante, em fúria contida.
Ele deixou a festa antes do parabéns. Chamou um táxi.
- Para onde, chefe? - o taxista perguntou.
- Tenho de ir lá pra dentro - respondeu. - Dá?
- Pra dentro de onde?
- "Pra dentro de onde", ora essa.
Foi chutado para fora do táxi. Acabou pegando um ônibus para o hotel.
- Estou com problemas pessoais seríssimos - avisou ao porteiro. - Conhece alguém que eu possa ver?
O porteiro não soube o que dizer. Informou o caso à gerência. Em um ato de repúdio ao pedido, a gerência expulsou-o do hotel na manhã seguinte.
Dirigiu-se com o notebook a um café com Wi-Fi na vizinhança. Acabou encontrando uma moça alugando um quarto na Mooca. Foi dar uma olhada.
- Quanto é o período? - perguntou quando lhe atenderam.
Calhou de a moça ser uma ex-acompanhante. Virou-lhe as costas, ofendida, e bateu a porta.
Voltou ao mesmo café, determinado a encontrar um teto sob o qual viver. Acabou se distraindo com vídeos de auto-ajuda.
Sentiu um aperto no estômago. Não sabia o que fazer com o computador, então chegou para um atendente.
- Com licença - disse -, eu posso levar o meu notebook comigo para o banheiro?
- Senhor, este é um local público - o atendente, disse, surpreso.
- Eu sei, mas eu realmente preciso ir e eu não sei o que fazer com ele nesse meio-tempo. Além do mais, aqueles vídeos são realmente inspiradores. A rede Wi-Fi chega até os boxes?
O atendente foi falar com seus colegas atendentes e finalmente atingiu um veredicto.
- O senhor está convidado a se retirar desse estabelecimento, senhor - disse-lhe.
Saiu, sem saber para onde ir, carregando uma maleta com metade de sua estatura. Acabou indo a um bar.
Chegando lá, pediu um Kuat Zero ao barman, que o encarou como se ele tivesse pedido seu cabelo emprestado.
Ele desistiu. Começou a conversar com um sujeito ao seu lado, que lhe pagou um drinque.
- Eu não bebo - explicou.
O sujeito insistiu e ele bebeu.
Algum tempo depois, acabou indo morar na quitinete do sujeito. Ficou por lá uma semana e meia, quando então teve um estalo:
- Preciso de um emprego!
- Conheço um ótimo - o sujeito lhe disse.
- Sério?
- Sério. Aqui perto, vinte e seis a hora, pouca coisa. Se quiser, eu falo com o chefe.
- Melhor que isso, só...
- Não termine a frase - o sujeito o interrompeu. - Não gosto desse tipo de piada.
- Tudo bem... mas eu só ia...
- Eu sei o que você só ia. Eu sei muito bem o que você só ia. Eu só não gosto dessas piadas. É humor baixo. Horrível. Não conte esse tipo de piada.
Discutiram. Ele acabou banido.
Foi passar a noite em um motel ali perto. Na manhã seguinte, procurou um terapeuta. Encontrou uma na República que cobrava R$ 100 a sessão.
- Não sei mais o que eu faço, doutora - queixou-se. - Minha mulher me odeia, minhas filhas me odeiam, já fui expulso de vários lugares diferentes, todos me rejeitam, e não sei por quê.
- Você disse que haviam ficado ressentidos com algo que você havia falado?
- Ficaram, doutora. Não sei com o quê. O que eu acho é que todos estão com a mente na sarjeta. Acho que todos estão com a cabeça cheia de besteira. O que a doutora acha disso, doutora?
- O senhor está me assediando?
- De forma alguma, doutora.
- Eu sou uma mulher casada!
- Justamente, doutora.
- Como se atreve?
- Me atrevo a quê, doutora?
Ela prestou queixa e ele foi preso por assédio.
Na cadeia, foi contar sua história aos interessados.
- Foi tudo um mal-entendido, sabe? - ele explicou. - Foi tudo um grande mal-entendido.
- Claro - um dos colegas disse. - Sempre é. Eu não assaltei aquele casal, por exemplo. Aquele cara ali do canto não assassinou doze gatos domésticos entre março e agosto. São sempre mal-entendidos.
- Certamente - ele concordou. - Fico feliz que vocês entendam o meu sofrimento. Espero que possamos ter um relacionamento decente, apesar de tudo.
- Tá me tirando? - o colega disse, levantando-se. - Tá pensando que eu sou daqueles que...
- Calma, vocês entenderam mal. Eu não insinuei nada.
- Como é que é? - outro disse. - Cê acha que...
- Por favor, acalmem-se.
- Ah, entendi sua jogada - o primeiro falou. - Bom, a decisão é sua.
- Espera aí. Espera aí!...
Certo dia, sentindo-se particularmente bem-humorado - o que geralmente significaria um prelúdio de uma cena digna de informe publicitário de apartamento, com a família rindo e jogando-se pelo carpete da sala -, decidiu contar uma piada à mesa.
- Qual é a diferença - inquiriu, do alto de sua inócua espontaneidade - entre um bastão de madeira e um asiático?
Sua esposa tossiu, prevendo o eufemismo que findaria o gracejo. Censurou-o com o olhar, temendo o efeito que o desfecho da anedota poderia ter aos castos ouvidos de suas duas filhas.
Ignorando os temores dela, ele sorriu, tão despreocupadamente quanto sua natureza lhe permitia.
Ela cerrou os punhos. Logo ele, que sempre havia sido um totem de integridade, vinha agora com aquela história, aquela piadinha de mau gosto, e com as crianças na mesa! Aquela piada não era tão somente uma piada: era uma invasão à sua vida pacata e moralizada, uma brecha que deixava entrar a vulgaridade, a obscenidade, os maus costumes, a imoralidade, a marginalização, o crime, e, logo mais, as drogas. Como a mãe de pulso firme que os vizinhos tinham por modelo, ela não devia aceitar aquilo. Ela não podia aceitar aquilo.
- Imorigerado! Libertino! Depravado! Energúmeno! - exclamou, num ímpeto. - Como você pôde?
- Eu...
- E ainda tem a pachorra de tentar se defender! Saia desta mesa! Você não é digno das receitas do meu novo livro da Palmirinha! Eu quero o divórcio!
Tentou reverter a situação, mas a mulher já não o ouvia. A mulher o queria longe daquele apartamento, de preferência longe daquele condomínio; melhor, fora do Brasil. Ele não discutiu. Arrumou as coisas e foi bater na porta de um amigo em Santana.
- Tem lugar aí dentro pra um desabrigado? - perguntou.
O amigo franziu a testa.
- Meça suas piadas! - disse, e fechou-lhe a porta na cara.
Mudou-se para um albergue em Tamboré. Esteve mudo pelas três semanas que se seguiram.
Continuou trabalhando em Alphaville. Certa vez, descobriu que era Dia da Secretária.
- Depois passe no meu escritório que eu tenho um presente - avisou à sua. - Sabe que dia é hoje?
Deu-lhe um tapa na cara e pediu demissão. O episódio o levou a ser dispensado pela companhia, com justa causa.
Foi morar em um hotel no centro. Certo dia, no aniversário da filha mais velha, levantou-se para discursar.
- A minha filha... - começou, perante os olhares esperançosos dos convidados. - O tempo que eu tive a oportunidade de passar com ela foi uma experiência simplesmente incrível!
A aniversariante se levantou e saiu correndo aos prantos para dentro de casa. Trancou-se no quarto. A mãe fitou o discursante, em fúria contida.
Ele deixou a festa antes do parabéns. Chamou um táxi.
- Para onde, chefe? - o taxista perguntou.
- Tenho de ir lá pra dentro - respondeu. - Dá?
- Pra dentro de onde?
- "Pra dentro de onde", ora essa.
Foi chutado para fora do táxi. Acabou pegando um ônibus para o hotel.
- Estou com problemas pessoais seríssimos - avisou ao porteiro. - Conhece alguém que eu possa ver?
O porteiro não soube o que dizer. Informou o caso à gerência. Em um ato de repúdio ao pedido, a gerência expulsou-o do hotel na manhã seguinte.
Dirigiu-se com o notebook a um café com Wi-Fi na vizinhança. Acabou encontrando uma moça alugando um quarto na Mooca. Foi dar uma olhada.
- Quanto é o período? - perguntou quando lhe atenderam.
Calhou de a moça ser uma ex-acompanhante. Virou-lhe as costas, ofendida, e bateu a porta.
Voltou ao mesmo café, determinado a encontrar um teto sob o qual viver. Acabou se distraindo com vídeos de auto-ajuda.
Sentiu um aperto no estômago. Não sabia o que fazer com o computador, então chegou para um atendente.
- Com licença - disse -, eu posso levar o meu notebook comigo para o banheiro?
- Senhor, este é um local público - o atendente, disse, surpreso.
- Eu sei, mas eu realmente preciso ir e eu não sei o que fazer com ele nesse meio-tempo. Além do mais, aqueles vídeos são realmente inspiradores. A rede Wi-Fi chega até os boxes?
O atendente foi falar com seus colegas atendentes e finalmente atingiu um veredicto.
- O senhor está convidado a se retirar desse estabelecimento, senhor - disse-lhe.
Saiu, sem saber para onde ir, carregando uma maleta com metade de sua estatura. Acabou indo a um bar.
Chegando lá, pediu um Kuat Zero ao barman, que o encarou como se ele tivesse pedido seu cabelo emprestado.
Ele desistiu. Começou a conversar com um sujeito ao seu lado, que lhe pagou um drinque.
- Eu não bebo - explicou.
O sujeito insistiu e ele bebeu.
Algum tempo depois, acabou indo morar na quitinete do sujeito. Ficou por lá uma semana e meia, quando então teve um estalo:
- Preciso de um emprego!
- Conheço um ótimo - o sujeito lhe disse.
- Sério?
- Sério. Aqui perto, vinte e seis a hora, pouca coisa. Se quiser, eu falo com o chefe.
- Melhor que isso, só...
- Não termine a frase - o sujeito o interrompeu. - Não gosto desse tipo de piada.
- Tudo bem... mas eu só ia...
- Eu sei o que você só ia. Eu sei muito bem o que você só ia. Eu só não gosto dessas piadas. É humor baixo. Horrível. Não conte esse tipo de piada.
Discutiram. Ele acabou banido.
Foi passar a noite em um motel ali perto. Na manhã seguinte, procurou um terapeuta. Encontrou uma na República que cobrava R$ 100 a sessão.
- Não sei mais o que eu faço, doutora - queixou-se. - Minha mulher me odeia, minhas filhas me odeiam, já fui expulso de vários lugares diferentes, todos me rejeitam, e não sei por quê.
- Você disse que haviam ficado ressentidos com algo que você havia falado?
- Ficaram, doutora. Não sei com o quê. O que eu acho é que todos estão com a mente na sarjeta. Acho que todos estão com a cabeça cheia de besteira. O que a doutora acha disso, doutora?
- O senhor está me assediando?
- De forma alguma, doutora.
- Eu sou uma mulher casada!
- Justamente, doutora.
- Como se atreve?
- Me atrevo a quê, doutora?
Ela prestou queixa e ele foi preso por assédio.
Na cadeia, foi contar sua história aos interessados.
- Foi tudo um mal-entendido, sabe? - ele explicou. - Foi tudo um grande mal-entendido.
- Claro - um dos colegas disse. - Sempre é. Eu não assaltei aquele casal, por exemplo. Aquele cara ali do canto não assassinou doze gatos domésticos entre março e agosto. São sempre mal-entendidos.
- Certamente - ele concordou. - Fico feliz que vocês entendam o meu sofrimento. Espero que possamos ter um relacionamento decente, apesar de tudo.
- Tá me tirando? - o colega disse, levantando-se. - Tá pensando que eu sou daqueles que...
- Calma, vocês entenderam mal. Eu não insinuei nada.
- Como é que é? - outro disse. - Cê acha que...
- Por favor, acalmem-se.
- Ah, entendi sua jogada - o primeiro falou. - Bom, a decisão é sua.
- Espera aí. Espera aí!...
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Maldito litoral
Olha, eu até entendo as pessoas que, na falta de uma piscina ou coisa que o valha, afastam as implicações de uma sensação térmica elevada descendo à borda do continente, se dispondo a ir a público seminuas e ocasionalmente se arriscando a, até que a maré suba, mergulhar em um mar de incontáveis fluidos não-identificados. O que eu não entendo, o leitor que me desculpe, são aqueles que o fazem em toda oportunidade que avistam, seja ela uma semana de férias, um feriado de quarta-feira ou duas horas a menos no expediente, faça frio ou faça calor, queiram os demais envolvidos ou não.
Não tenho nada contra as praias propriamente ditas; são lugares até simpáticos, dependendo da hora e do local (convenhamos que há praias e praias). Fosse este um mundo sem praia, muitos sairiam perdendo: os casais apaixonados; o patrimônio natural da humanidade; as indústrias de filtro solar; o cinema; as tartarugas. Mas, senhor leitor que desce de carro até a orla de Santos por opção na ausência do calor e de uma data justificável, procure entender o meu ponto de vista.
Praias, ao menos aquelas que o destino e a ocupação populacional irregular reservaram para nós, integrantes da tão famosa classe média, nunca foram lugares agradáveis para mim. Fico sempre à espera de um acontecimento estarrecedor, seja ele um tsunami, uma bolada, um arrastão ou um siri; estremeço só de imaginar todas as partículas estranhas ali e no mar salgado presentes; nunca fiquei muito confortável em apresentar-me em trajes de banho para passeios em locais públicos; além de tudo, não sou fã de água-de-coco.
Já são fatores suficientes para justificar minha aversão um tanto compulsiva às áreas litorâneas comuns ao público. A isso, some o fato de que todo paulistano parece preferir ir à praia sempre que se vê livre da labuta. O resultado, os engarrafamentos humanos que tomam as areias do litoral paulista a cada feriado, é praticamente um sinal de "Pare" para alguém que, como aquele que vos fala (escreve), não é inclinado às multidões, principalmente às multidões em trajes mínimos.
Os meus assuntos não-resolvidos com as bordas continentais não param por aí. Sempre que eu e os meus, em um de nossos devaneios excessivamente otimistas, nos perguntamos onde passar o resto de nossas vidas caso um prêmio das Loterias Caixa venha a nos agraciar, eu evito locais com vista para o mar - o leitor menos informado deve entender que há uma chance de, até 2050, o gelo das calotas polares derreter com o efeito estufa e ir parar nos litorais, dando um ponto final à história de vida de qualquer casal apaixonado ou tartaruga que se meta a ficar por ali mesmo. Como eu tenho um fraco pela existência, fico com os que preferem não correr o risco e montar acampamento o mais longe possível do mar, mesmo ele sendo tão lindo e azul.
Seguindo essa linha de pensamento, eu tive até sorte de ter nascido cá em São Paulo, apesar dos pesares. Até que eu precise da SP-160 para servir a meus objetivos, não terei que me preocupar em bater de frente com o maldito litoral e as discórdias entre nós. Pois, fosse esse um mundo sem praia, muitos sairiam ganhando: os parques em visitantes; o dogma dos feriados em riqueza cultural; a Imigrantes em tranquilidade; os mares em condições biológicas; eu em simpatizantes. E o litoral, imagino, poderia descansar em paz.
Não tenho nada contra as praias propriamente ditas; são lugares até simpáticos, dependendo da hora e do local (convenhamos que há praias e praias). Fosse este um mundo sem praia, muitos sairiam perdendo: os casais apaixonados; o patrimônio natural da humanidade; as indústrias de filtro solar; o cinema; as tartarugas. Mas, senhor leitor que desce de carro até a orla de Santos por opção na ausência do calor e de uma data justificável, procure entender o meu ponto de vista.
Praias, ao menos aquelas que o destino e a ocupação populacional irregular reservaram para nós, integrantes da tão famosa classe média, nunca foram lugares agradáveis para mim. Fico sempre à espera de um acontecimento estarrecedor, seja ele um tsunami, uma bolada, um arrastão ou um siri; estremeço só de imaginar todas as partículas estranhas ali e no mar salgado presentes; nunca fiquei muito confortável em apresentar-me em trajes de banho para passeios em locais públicos; além de tudo, não sou fã de água-de-coco.
Já são fatores suficientes para justificar minha aversão um tanto compulsiva às áreas litorâneas comuns ao público. A isso, some o fato de que todo paulistano parece preferir ir à praia sempre que se vê livre da labuta. O resultado, os engarrafamentos humanos que tomam as areias do litoral paulista a cada feriado, é praticamente um sinal de "Pare" para alguém que, como aquele que vos fala (escreve), não é inclinado às multidões, principalmente às multidões em trajes mínimos.
Os meus assuntos não-resolvidos com as bordas continentais não param por aí. Sempre que eu e os meus, em um de nossos devaneios excessivamente otimistas, nos perguntamos onde passar o resto de nossas vidas caso um prêmio das Loterias Caixa venha a nos agraciar, eu evito locais com vista para o mar - o leitor menos informado deve entender que há uma chance de, até 2050, o gelo das calotas polares derreter com o efeito estufa e ir parar nos litorais, dando um ponto final à história de vida de qualquer casal apaixonado ou tartaruga que se meta a ficar por ali mesmo. Como eu tenho um fraco pela existência, fico com os que preferem não correr o risco e montar acampamento o mais longe possível do mar, mesmo ele sendo tão lindo e azul.
Seguindo essa linha de pensamento, eu tive até sorte de ter nascido cá em São Paulo, apesar dos pesares. Até que eu precise da SP-160 para servir a meus objetivos, não terei que me preocupar em bater de frente com o maldito litoral e as discórdias entre nós. Pois, fosse esse um mundo sem praia, muitos sairiam ganhando: os parques em visitantes; o dogma dos feriados em riqueza cultural; a Imigrantes em tranquilidade; os mares em condições biológicas; eu em simpatizantes. E o litoral, imagino, poderia descansar em paz.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
As jabuticabas, as novas tomadas e o Enem
O engraçado é que, colocando-se à parte todas as formas de vida baseadas em carbono que, lá no começo, tiveram a mal calculada ideia de povoar este planeta, o glamour não é uma coisa franco-americana como aparenta na etimologia, nos cardápios de sobremesa, no vocabulário do paulistano e naqueles pré-shows que o E! exibe antes dos Oscars da vida. Se estou certo em afirmar que o conceito de glamour é fundamentado na ideia do exclusivo, então, minha senhora que tira as sextas-feiras para torrar cartões e enlouquecer seu cônjuge na Rua Oscar Freire, o tal do glamour é indubitavelmente brasileiro.
Eu, que tenho todo esse tempo livre, poderia passar o dia citando exemplos do nosso exclusivismo por natureza. Mas eu só vou lembrar uma espécie Brazilian only, aquela que na minha opinião é mais incrível pensar que só cresce em solo brasileiro: o cronista.
Vejam vocês: as crônicas, assim como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem, são brasileiras e nada mais. O mundo todo escreve artigos, claro, mas, na medida em que ninguém nunca conseguiu pensar em uma definição sequer razoável para o gênero "crônica", em toda a sua abrangência, fora do Brasil não há quem escreva um texto com aquele quê a mais que a crônica tem em relação ao artigo.
Não é culpa dos gringos. Eles simplesmente a desconhecem. A empreitada rumo à redação de uma crônica propriamente dita é comparável à de um herói de desenhos infanto-juvenis que não recebe detalhes acerca de sua própria missão: você saberá que é quando vir, e ponto. Não há como definir uma crônica, ou explicar por que tal texto do Walcyr Carrasco no final da Vejinha é ou deixa de ser uma, mas você simplesmente sabe. Isto aqui, por exemplo, é uma crônica. Os textos 3, 9 ou 12 desse blog, por outro lado, eu já não tenho tanta certeza. Por quê? Nem Freud explica: Freud, coitado, era austríaco, e, como tal, não conhecia a crônica e tudo o que ela implica. Quem explica, conclui-se, não é uma apostila de português, a página da Wikipédia ou sequer o Luís Fernando Veríssimo.
Como todas as coisas realmente boas da vida, crônicas não se explicam, nem mesmo através de metáforas como "Crônicas são o meio-termo entre poesia e prosa" e "Crônicas são a esfera mais humana da literatura" (ambas de minha autoria). Elas simplesmente (e eu não quero que isso soe como um enxerto de literatura modernista) são. E, por mais incrível que possa soar aos nossos ouvidos, com o complexo de vira-lata e tudo, elas são brasileiras. Como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem. Simples assim.
Eu, que tenho todo esse tempo livre, poderia passar o dia citando exemplos do nosso exclusivismo por natureza. Mas eu só vou lembrar uma espécie Brazilian only, aquela que na minha opinião é mais incrível pensar que só cresce em solo brasileiro: o cronista.
Vejam vocês: as crônicas, assim como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem, são brasileiras e nada mais. O mundo todo escreve artigos, claro, mas, na medida em que ninguém nunca conseguiu pensar em uma definição sequer razoável para o gênero "crônica", em toda a sua abrangência, fora do Brasil não há quem escreva um texto com aquele quê a mais que a crônica tem em relação ao artigo.
Não é culpa dos gringos. Eles simplesmente a desconhecem. A empreitada rumo à redação de uma crônica propriamente dita é comparável à de um herói de desenhos infanto-juvenis que não recebe detalhes acerca de sua própria missão: você saberá que é quando vir, e ponto. Não há como definir uma crônica, ou explicar por que tal texto do Walcyr Carrasco no final da Vejinha é ou deixa de ser uma, mas você simplesmente sabe. Isto aqui, por exemplo, é uma crônica. Os textos 3, 9 ou 12 desse blog, por outro lado, eu já não tenho tanta certeza. Por quê? Nem Freud explica: Freud, coitado, era austríaco, e, como tal, não conhecia a crônica e tudo o que ela implica. Quem explica, conclui-se, não é uma apostila de português, a página da Wikipédia ou sequer o Luís Fernando Veríssimo.
Como todas as coisas realmente boas da vida, crônicas não se explicam, nem mesmo através de metáforas como "Crônicas são o meio-termo entre poesia e prosa" e "Crônicas são a esfera mais humana da literatura" (ambas de minha autoria). Elas simplesmente (e eu não quero que isso soe como um enxerto de literatura modernista) são. E, por mais incrível que possa soar aos nossos ouvidos, com o complexo de vira-lata e tudo, elas são brasileiras. Como as jabuticabas, as novas tomadas e o Enem. Simples assim.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
O vinil
Se o mundo fosse uma vitrola, o Brasil seria um single com lado A e lado B. Seria um vinil riscado, no caso, com um lado menos audível do que o outro, e teria uma capa colorida e bem-acabada, na qual o disco não caberia direito. E, interpretações à parte, nele um bom ouvinte reconheceria uma bela gravação, que teria sofrido com o péssimo manuseio de seus proprietários ao longo dos anos.
O Brasil é, sem dúvida, um dos mais belos países do mundo. Temos flora e fauna invejáveis, belas praias, paisagens únicas, solo fértil e - como se isso tudo não bastasse - invulnerabilidade contra quase todos os desastres naturais conhecidos. É quase um paraíso!
Ironia ou não, qualquer pessoa bem informada entre os 191 milhões e poucos habitantes da raça humana que ocupam este paraíso corre sério risco de se perguntar, mais cedo ou mais tarde, se nasceu no país certo. O Brasil é o ápice do terceiro-mundismo contemporâneo, uma potência em potencial com números que sugerem crescimento econômico mas negam qualquer outro crescimento, a não ser o do patrimônio de nossos líderes. Na política, a frase "o poder corrompe" é privada de exceções; na cultura, o que é realmente bom rareia e o que é ruim é ruim mesmo; na sociedade, estão os culpados de tudo isso.
Desde a nossa definição histórica como "colônia de exploração" até a lástima que hoje é assistir a um telejornal, passando por atos de liberdade regados a interesses, mortes misteriosas, impeachments esquecidos, derrotas nos mais diversos campos e o confronto um-é-pior-que-o-outro entre militares e guerrilheiros durante a ditadura, tudo na nossa história parece ter dado errado. Tudo parece apontar que o único caminho são é até o aeroporto internacional mais próximo.
Mas o vinil sempre tem um lado B.
E o lado B do Brasil é sua pluralidade. Há 26 estados (25, para quem acha mais sensato afirmar que o Acre não existe) distribuídos pelo nosso território, cada um com uma cultura rica em peculiaridades. Há desvantagens, é claro, em ter o quinto maior território do mundo, mas é desse dado que parece vir o único argumento válido dos patriotas. Cada uma das regiões do Brasil é única e nutre uma cultura e um folclore absolutamente particulares. Não é à toa que ir do sul para o norte do Brasil é como ir a um outro país; as artes típicas de todos os espaços entre - desculpem a cafonice - o Oiapoque e o Chuí são dignas de admiração; a comida, os costumes, as roupas, tudo é espetacular para os que se esforçam em conhecer. E é isso que faz com que o Brasil não seja um caso perdido.
Por isso, viva o Brasil, este belíssimo país em que certas regiões são tidas como desnecessárias, patriotas são mal-informados, leitores de jornal são masoquistas e a burocracia é temperamental. Ainda vamos nos perguntar se nascemos no país certo algumas vezes, e, a julgar pelo nosso histórico, o que está ruim não vai mudar tão cedo, mas podemos levar tudo numa boa por mais algum tempo, porque, segundo a propaganda partidária, somos todos de classe média alta.
O Brasil é, sem dúvida, um dos mais belos países do mundo. Temos flora e fauna invejáveis, belas praias, paisagens únicas, solo fértil e - como se isso tudo não bastasse - invulnerabilidade contra quase todos os desastres naturais conhecidos. É quase um paraíso!
Ironia ou não, qualquer pessoa bem informada entre os 191 milhões e poucos habitantes da raça humana que ocupam este paraíso corre sério risco de se perguntar, mais cedo ou mais tarde, se nasceu no país certo. O Brasil é o ápice do terceiro-mundismo contemporâneo, uma potência em potencial com números que sugerem crescimento econômico mas negam qualquer outro crescimento, a não ser o do patrimônio de nossos líderes. Na política, a frase "o poder corrompe" é privada de exceções; na cultura, o que é realmente bom rareia e o que é ruim é ruim mesmo; na sociedade, estão os culpados de tudo isso.
Desde a nossa definição histórica como "colônia de exploração" até a lástima que hoje é assistir a um telejornal, passando por atos de liberdade regados a interesses, mortes misteriosas, impeachments esquecidos, derrotas nos mais diversos campos e o confronto um-é-pior-que-o-outro entre militares e guerrilheiros durante a ditadura, tudo na nossa história parece ter dado errado. Tudo parece apontar que o único caminho são é até o aeroporto internacional mais próximo.
Mas o vinil sempre tem um lado B.
E o lado B do Brasil é sua pluralidade. Há 26 estados (25, para quem acha mais sensato afirmar que o Acre não existe) distribuídos pelo nosso território, cada um com uma cultura rica em peculiaridades. Há desvantagens, é claro, em ter o quinto maior território do mundo, mas é desse dado que parece vir o único argumento válido dos patriotas. Cada uma das regiões do Brasil é única e nutre uma cultura e um folclore absolutamente particulares. Não é à toa que ir do sul para o norte do Brasil é como ir a um outro país; as artes típicas de todos os espaços entre - desculpem a cafonice - o Oiapoque e o Chuí são dignas de admiração; a comida, os costumes, as roupas, tudo é espetacular para os que se esforçam em conhecer. E é isso que faz com que o Brasil não seja um caso perdido.
Por isso, viva o Brasil, este belíssimo país em que certas regiões são tidas como desnecessárias, patriotas são mal-informados, leitores de jornal são masoquistas e a burocracia é temperamental. Ainda vamos nos perguntar se nascemos no país certo algumas vezes, e, a julgar pelo nosso histórico, o que está ruim não vai mudar tão cedo, mas podemos levar tudo numa boa por mais algum tempo, porque, segundo a propaganda partidária, somos todos de classe média alta.
Nota do autor: Esse é o famoso texto que me levou à conquista daquele tablet da crônica 17, conforme explicado no último post. Foi escrito em meados de abril ou maio, se não me falha a memória, seguindo o tema "Brasil: pluralidade e contrastes". Eu mudei algumas coisinhas do original, incluindo o título (o original é "511 anos depois"), mas fora isso está tudo igual.
CLIQUE aqui
E não é que, após anos especulando intensamente, as pessoas realmente acham que eu escrevo bem afinal de contas? A constatação me atingiu quinta-feira passada, dia 10, mais ou menos às 23h, no teatro do campus Indianópolis da Unip, na Avenida José Maria Whitaker, 373, Mirandópolis, São Paulo.
O negócio é mais ou menos o seguinte: todo ano, o Objetivo (sim, eu estudo no Objetivo) faz esse concurso literário conhecido pela enxuta sigla CLICO, em que todos aqueles sujeitos classe-média-alta/bolsistas que estudam em Objetivos de Alphaville ao Brooklin escrevem um texto livre em torno de um tema que varia anualmente, o que culmina no dia em que, após os referidos textos atravessarem várias camadas burocráticas e só alguns sobreviverem para contar a história, é realizada uma noite de gala na Vila Mariana na qual ficamos sentados por duas horas e pouco torcendo uns contra os outros enquanto nossos pais passam o tempo filmando aqueles que vão ao palco cantar e dançar. No fim de tudo, os autores dos cinco textos de cada categoria etária que mais agradaram o júri - que sempre é exclusivamente feminino - são agraciados com um aparato tech da moda, um livro do Rick Riordan e a publicação de seu texto em um livreto de folhas semi-plásticas que é distribuído na saída, além do direito à bazófia e do ódio coletivo dos demais participantes e dos colegas de classe que cobiçavam o tal aparato tech.
Acontece de eu já ter saído vencedor do tal CLICO, logo que entrei no Objetivo, dois anos atrás. À época, os elogios de familiares e professores não foram poucos e os problemas descobertos no Windows Vista de meu prêmio também não. Falou-se do quão oportuno meu texto tinha sido ao tratar de um blecaute, quando, alguns meses após ele ter sido escrito e alguns meses antes da premiação ocorrer, deu-se um grande blecaute de fato na metade sul deste país.
Isso me levou a temer as consequências de escrever um texto muito negativo sobre o tema "Água" no ano seguinte, mas eu o fiz, ignorando as possíveis consequências de minha poesia ter mais poder do que eu podia compreender. Felizmente para minha consciência, afogamento não se tornou uma causa de morte significativamente mais comum no aftermath e eu ainda fiquei em quarto.
Um ano se passou.
E chegamos em 2011, ano do meu ingresso na categoria Sênior, também conhecida como a categoria peso-pesado do concurso. O tema era um convite ao clichê: "Brasil". É claro que, como tudo que há de bom no país, a burocracia protelou o anúncio dos vencedores pra o final do ano, quando o texto foi por nós escrito em meados de maio.
Meses se passaram, a vida foi sendo vivida, e Novembro chegou, assim tão de repente que eu até já me esquecera do concurso em questão. Tudo ótimo; segundo a melhor fonte a que eu tinha acesso, que atende pelo nome de Professora Tal de Português (seu nome será omitido para evitar desconfortos no jurídico), eu tinha, afinal, garantido uma lasca do prêmio: os vinte e cinco finalistas foram divulgados, e meu nome estava lá no meio novamente.
Continuei vivendo, tentando ignorar o momento em que tudo mudaria, mas ele deu as caras antes que eu tivesse tempo de me preparar psicologicamente para a minha provável eliminação precoce - que jurado que tema a possibilidade de perder a credibilidade daria o prêmio ao mesmo infeliz duas vezes no espaço de três anos? -, e de repente eu estava no shopping comprando uma roupa nova para a cerimônia.
O dia chegou, enfim, e tudo transcorreu como deveria. Após atravessar uma noite cheia de surpresas, um infarto era iminente, tanto para mim quanto para o resto da minha torcida composta primariamente por familiares e afins. Acabando, após duas rodadas de eliminação (que não tinham esse nome no cronograma), por ficar sabendo que eu estava entre os dois primeiros colocados, eu comecei a torcer por um segundo lugar - ao que me parecia, a segunda colocada da categoria etária inferior tinha ganhado um notebook, e eu realmente precisava de um novo; esse meu ainda tem Windows Vista!
O segundo lugar não veio. E eu passei tão rápido pelo palco quando enfim chamaram meu nome, no final da solenidade, que comentou-se nos bastidores que fora difícil bater uma foto minha apertando a mão do coordenador-geral de Português.
E, como de costume, a primeira coisa que perguntaram no dia seguinte foi qual era o prêmio. Lembra do tablet da crônica 17? Pois é.
Por fim, eu acordei no sábado com uma tosse em decorrência do que meus pais chamaram de "emoções muito fortes". Não pude contra-argumentar, fato; embora eu tivesse passado a sexta-feira enxergando defeitos em meu próprio texto, como é de praxe em escritores que relêem material seu meses após ele ter sido escrito, se eu realmente sou alguém digno do primeiro lugar duas vezes sob condição de possível linchamento da comissão julgadora, quer dizer que me acham, realmente, um bom escritor. E, por enquanto, ainda que na ausência do Windows 7, isso basta.
O negócio é mais ou menos o seguinte: todo ano, o Objetivo (sim, eu estudo no Objetivo) faz esse concurso literário conhecido pela enxuta sigla CLICO, em que todos aqueles sujeitos classe-média-alta/bolsistas que estudam em Objetivos de Alphaville ao Brooklin escrevem um texto livre em torno de um tema que varia anualmente, o que culmina no dia em que, após os referidos textos atravessarem várias camadas burocráticas e só alguns sobreviverem para contar a história, é realizada uma noite de gala na Vila Mariana na qual ficamos sentados por duas horas e pouco torcendo uns contra os outros enquanto nossos pais passam o tempo filmando aqueles que vão ao palco cantar e dançar. No fim de tudo, os autores dos cinco textos de cada categoria etária que mais agradaram o júri - que sempre é exclusivamente feminino - são agraciados com um aparato tech da moda, um livro do Rick Riordan e a publicação de seu texto em um livreto de folhas semi-plásticas que é distribuído na saída, além do direito à bazófia e do ódio coletivo dos demais participantes e dos colegas de classe que cobiçavam o tal aparato tech.
Acontece de eu já ter saído vencedor do tal CLICO, logo que entrei no Objetivo, dois anos atrás. À época, os elogios de familiares e professores não foram poucos e os problemas descobertos no Windows Vista de meu prêmio também não. Falou-se do quão oportuno meu texto tinha sido ao tratar de um blecaute, quando, alguns meses após ele ter sido escrito e alguns meses antes da premiação ocorrer, deu-se um grande blecaute de fato na metade sul deste país.
Isso me levou a temer as consequências de escrever um texto muito negativo sobre o tema "Água" no ano seguinte, mas eu o fiz, ignorando as possíveis consequências de minha poesia ter mais poder do que eu podia compreender. Felizmente para minha consciência, afogamento não se tornou uma causa de morte significativamente mais comum no aftermath e eu ainda fiquei em quarto.
Um ano se passou.
E chegamos em 2011, ano do meu ingresso na categoria Sênior, também conhecida como a categoria peso-pesado do concurso. O tema era um convite ao clichê: "Brasil". É claro que, como tudo que há de bom no país, a burocracia protelou o anúncio dos vencedores pra o final do ano, quando o texto foi por nós escrito em meados de maio.
Meses se passaram, a vida foi sendo vivida, e Novembro chegou, assim tão de repente que eu até já me esquecera do concurso em questão. Tudo ótimo; segundo a melhor fonte a que eu tinha acesso, que atende pelo nome de Professora Tal de Português (seu nome será omitido para evitar desconfortos no jurídico), eu tinha, afinal, garantido uma lasca do prêmio: os vinte e cinco finalistas foram divulgados, e meu nome estava lá no meio novamente.
Continuei vivendo, tentando ignorar o momento em que tudo mudaria, mas ele deu as caras antes que eu tivesse tempo de me preparar psicologicamente para a minha provável eliminação precoce - que jurado que tema a possibilidade de perder a credibilidade daria o prêmio ao mesmo infeliz duas vezes no espaço de três anos? -, e de repente eu estava no shopping comprando uma roupa nova para a cerimônia.
O dia chegou, enfim, e tudo transcorreu como deveria. Após atravessar uma noite cheia de surpresas, um infarto era iminente, tanto para mim quanto para o resto da minha torcida composta primariamente por familiares e afins. Acabando, após duas rodadas de eliminação (que não tinham esse nome no cronograma), por ficar sabendo que eu estava entre os dois primeiros colocados, eu comecei a torcer por um segundo lugar - ao que me parecia, a segunda colocada da categoria etária inferior tinha ganhado um notebook, e eu realmente precisava de um novo; esse meu ainda tem Windows Vista!
O segundo lugar não veio. E eu passei tão rápido pelo palco quando enfim chamaram meu nome, no final da solenidade, que comentou-se nos bastidores que fora difícil bater uma foto minha apertando a mão do coordenador-geral de Português.
E, como de costume, a primeira coisa que perguntaram no dia seguinte foi qual era o prêmio. Lembra do tablet da crônica 17? Pois é.
Por fim, eu acordei no sábado com uma tosse em decorrência do que meus pais chamaram de "emoções muito fortes". Não pude contra-argumentar, fato; embora eu tivesse passado a sexta-feira enxergando defeitos em meu próprio texto, como é de praxe em escritores que relêem material seu meses após ele ter sido escrito, se eu realmente sou alguém digno do primeiro lugar duas vezes sob condição de possível linchamento da comissão julgadora, quer dizer que me acham, realmente, um bom escritor. E, por enquanto, ainda que na ausência do Windows 7, isso basta.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Genérico
O maior dilema que um escritor iniciante enfrenta não diz respeito à métrica, ou à coerência de tal frase, ou à originalidade do estilo de escrever, ou ao quão profissional a query letter está, ou ao excesso de metáforas no parágrafo de encerramento. A questão fundamental que atormenta todos aqueles que se dispõem a cometer o provável suicídio de fazer carreira na literatura é, de forma sucinta: Como eu assino?
Discordarão, lógico, e não os culpo. Eu, mesmo, sou um iniciante no que diz respeito a ser um iniciante. A minha opinião, já aviso, é pouco confiável. Mas, se me perguntassem o que mais me fez quebrar a cabeça e passar noites em claro desde que decidi que poderia exercer a profissão da escrita paralelamente àquilo que almejo fazer desde menor - cinema -, eu responderia isso mesmo, e provavelmente nem saberia o que dizer quando então me perguntassem "Qual é o seu nome?"
É claro que a maioria das pessoas - aquelas que eu gosto de chamar de standard-named - não têm esse problema. Nomes, assim como músicas pop e bestsellers juvenis, seguem uma fórmula simples, uma estrutura predefinida e inalterável na ausência de criatividade paterna e/ou materna. Nome Nomedomeio Sobrenome, pronto, acabou: acrescente algo e seu filho estará fadado a chamar atenção de todos aqueles que estiverem passando os olhos casualmente por listas de chamada nas quais ele estiver incluído. E, se porventura ele decidir se tornar escritor, prepare-se para a desconciliação afetiva.
Acontece que esse é exatamente o meu caso. Meu nome segue uma estrutura não-convencional, assim como as músicas de Regina Spektor e os livros de José Saramago: Nome Segundonome Híbridoambíguodenomedomeioesobrenome Sobrenome. Imagina-se, então, o sofrimento que tenho só de pensar no meu nome nos créditos de abertura de um filme em Cannes. Noboru ou Lima?, pergunto-me. Minha família (por parte de mãe, pois, assim como em muitas famílias, meus parentes do lado do pai são bem menos acessíveis) é mais inclinada ao Noboru - meu avô que nunca conheci, vejam vocês, era assim chamado, daí o rótulo de segundo nome. Mas, na esfera escolar, dos relacionamentos opcionais e dos apelidos não-opcionais, me conhecem por Lima mesmo. Montado o palco, o meu dilema é inevitável.
Um escritor metafórico, daqueles tipo o Antonio Prata, estabeleceria uma relação esquerda-direita entre os sobrenomes: Lima é de direita, genérico, conservador, produzido em larga escala, funciona melhor na prática; Noboru é de esquerda, único, diferente, familiar, soa melhor. Eu, mesmo, sempre fui mais Noboru (contudo, não me tome por esquerdista), mas fico com receio de que ouçam meu nome um dia no rádio e fiquem pensando em um japonês atarracado com cabelo espetado, o que eu, por incrível que pareça, não sou. (Não o culpo, no entanto, se sua imagem de mim era algo semelhante: eu sou a única pessoa em meu colégio a ter um sobrenome japonês sem ter olhos puxados.)
Agora mesmo estou em dúvida quanto ao que colocar abaixo do "quem sou eu" aí do lado. Leonardo Noboru, Leonardo Lima, o nome inteiro, só Leonardo, L. L. Ogoshi (por que não?): possibilidades demais, prós e contras demais, criatividade de menos, e tudo acaba em pizza. Quem sabe eu até acabo adotando um pseudônimo, como fizeram muitos do meu ramo. De qualquer forma, por ora você, leitor, me conheça mesmo por Leonardo de Lima, como já se faz lá pras bandas do Brooklin Novo. Até eu pensar no que fazer, ser genérico é o menor dos problemas.
Discordarão, lógico, e não os culpo. Eu, mesmo, sou um iniciante no que diz respeito a ser um iniciante. A minha opinião, já aviso, é pouco confiável. Mas, se me perguntassem o que mais me fez quebrar a cabeça e passar noites em claro desde que decidi que poderia exercer a profissão da escrita paralelamente àquilo que almejo fazer desde menor - cinema -, eu responderia isso mesmo, e provavelmente nem saberia o que dizer quando então me perguntassem "Qual é o seu nome?"
É claro que a maioria das pessoas - aquelas que eu gosto de chamar de standard-named - não têm esse problema. Nomes, assim como músicas pop e bestsellers juvenis, seguem uma fórmula simples, uma estrutura predefinida e inalterável na ausência de criatividade paterna e/ou materna. Nome Nomedomeio Sobrenome, pronto, acabou: acrescente algo e seu filho estará fadado a chamar atenção de todos aqueles que estiverem passando os olhos casualmente por listas de chamada nas quais ele estiver incluído. E, se porventura ele decidir se tornar escritor, prepare-se para a desconciliação afetiva.
Acontece que esse é exatamente o meu caso. Meu nome segue uma estrutura não-convencional, assim como as músicas de Regina Spektor e os livros de José Saramago: Nome Segundonome Híbridoambíguodenomedomeioesobrenome Sobrenome. Imagina-se, então, o sofrimento que tenho só de pensar no meu nome nos créditos de abertura de um filme em Cannes. Noboru ou Lima?, pergunto-me. Minha família (por parte de mãe, pois, assim como em muitas famílias, meus parentes do lado do pai são bem menos acessíveis) é mais inclinada ao Noboru - meu avô que nunca conheci, vejam vocês, era assim chamado, daí o rótulo de segundo nome. Mas, na esfera escolar, dos relacionamentos opcionais e dos apelidos não-opcionais, me conhecem por Lima mesmo. Montado o palco, o meu dilema é inevitável.
Um escritor metafórico, daqueles tipo o Antonio Prata, estabeleceria uma relação esquerda-direita entre os sobrenomes: Lima é de direita, genérico, conservador, produzido em larga escala, funciona melhor na prática; Noboru é de esquerda, único, diferente, familiar, soa melhor. Eu, mesmo, sempre fui mais Noboru (contudo, não me tome por esquerdista), mas fico com receio de que ouçam meu nome um dia no rádio e fiquem pensando em um japonês atarracado com cabelo espetado, o que eu, por incrível que pareça, não sou. (Não o culpo, no entanto, se sua imagem de mim era algo semelhante: eu sou a única pessoa em meu colégio a ter um sobrenome japonês sem ter olhos puxados.)
Agora mesmo estou em dúvida quanto ao que colocar abaixo do "quem sou eu" aí do lado. Leonardo Noboru, Leonardo Lima, o nome inteiro, só Leonardo, L. L. Ogoshi (por que não?): possibilidades demais, prós e contras demais, criatividade de menos, e tudo acaba em pizza. Quem sabe eu até acabo adotando um pseudônimo, como fizeram muitos do meu ramo. De qualquer forma, por ora você, leitor, me conheça mesmo por Leonardo de Lima, como já se faz lá pras bandas do Brooklin Novo. Até eu pensar no que fazer, ser genérico é o menor dos problemas.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
A magnífica reestreia de um dos blogs mais insignificantes de todos os tempos
E eis que, ao ouvir pela enésima vez o meu progenitor reclamar do meu desligamento integral daquele famoso (risos sarcásticos) blog, eu decidi que o momento era propício para reverter a situação.
Very well. Cheguei em casa um pouco antes do tempo regulamentar, em decorrência de uma cadeia de eventos complexa que teve origem mais ou menos na época em que Judas perdeu as botas. Fiz o que tinha de fazer, etc, sentei na cama, peguei o tablet (isso eu explico depois) e abri o dito cujo. Lê-se, lê-se, e nessa toada se vai até eu terminar de ler o que eu achava - ops, acho - mais razoável ler. Enfim me dirigi até a sala, lidei com um pequeno contratempo, carreguei a bolsa preta até o dormitório, burocracia, burocracia, e aqui estamos nós.
Então você, leitor, que eu imagino ser um ser simplesmente extraordinário por continuar prestando atenção ao meu blog até mesmo agora que os dois ou três leitores que ele costumava ter foram-se embora com as mágoas do passado, me pergunta por onde andei quando você me procurava (sic). A resposta mais crua é: aqui. Nada no contínuo espaço-tempo se interpôs entre este blog e seu autor senão a demasiada preguiça do mesmo de sentar e escrever algo pra variar. Talvez as coisas estivessem melhores se este fosse um emprego remunerado... mas isso não vem ao caso agora. A questão é que eu simplesmente não tive aquele estalo que temos de ter para escrever uma crônica por vontade própria - como se verifica em certas colunas de certos jornais, escrever uma crônica a contragosto quase sempre dá terrivelmente errado - e acabou se formando uma zona de conforto. A minha vida está ótima, tudo bem, tudo bom, agora eu tenho até um tablet; quem precisa daquele blog?
O problema, leitor, é que o blog precisa de mim. E, por mais que eu tentasse fugir da realidade, ele continuava lá, num canto da sala metafórica em que se desenrolava minha (ainda facebookless) vida digital, me encarando com aqueles olhos pidões, pedindo para ser alimentado. Mais ou menos como meu cachorro na hora do almoço.
Ora, houve avanços. Por mais que o meu blog ainda esteja mergulhado em um irremediável anonimato, coisas aconteceram e podem ainda vir a acontecer. As condições astrológicas que me levaram à conquista daquele tal tablet, por exemplo, são por si mesmas vitórias no campo literário. Se o e-mail que estou esperando chegar (não o da crônica 8, que fique claro), tudo pode dar certo. Aconteceu até de um dia desses alguém na Alemanha visualizar meu blog. Quem sabe, então, eu não levo essa coisa pra frente mais um pouquinho? Eu já não sou mais um ser humano multirracial comum de 12 anos. Eu sou agora um ser humano comum de 13 anos, e, conforme fiquei sabendo hoje em Genética, não necessariamente multirracial. É tudo muito subjetivo, sabe?
Não é que eu queira reviver nenhum passado. Mas chega um ponto em que você não aguenta mais o blog te encarando de um lado e aquele livro que você pegou na seção de Contos & Crônicas da Saraiva te induzindo a escrever do outro. Chega um ponto em que você simplesmente senta e escreve algo pra variar. Esse ponto, leitor, calhou de cair hoje, logo depois do feriado, quando todos estão retomando aos poucos a rotina, fazendo mini-recomeços como aqueles que sustentamos por uma semana ou duas depois do Réveillon. Não poderia haver momento mais propício, por conseguinte, para retomar a redação de um blog como este, tão inoportunamente entitulado (alguém faz alguma ideia do significado real de "cronismo"?) e tão modernosamente diagramado, alterar o meu texto de apresentação, corrigir errinhos de ortografia em postagens antigas, comer mais proteína, falar mais com os amigos, terminar uma borracha, fechar os parênteses - em tempo, hopefully, de escrever uma crônica decente para o ano-novo. Muita coisa aconteceu de 14 de abril pra cá. Se eu não registrar tudo como se deve, quem o fará?
O Google, disseram-me, já vem registrando uma boa fração das coisas.
Very well. Cheguei em casa um pouco antes do tempo regulamentar, em decorrência de uma cadeia de eventos complexa que teve origem mais ou menos na época em que Judas perdeu as botas. Fiz o que tinha de fazer, etc, sentei na cama, peguei o tablet (isso eu explico depois) e abri o dito cujo. Lê-se, lê-se, e nessa toada se vai até eu terminar de ler o que eu achava - ops, acho - mais razoável ler. Enfim me dirigi até a sala, lidei com um pequeno contratempo, carreguei a bolsa preta até o dormitório, burocracia, burocracia, e aqui estamos nós.
Então você, leitor, que eu imagino ser um ser simplesmente extraordinário por continuar prestando atenção ao meu blog até mesmo agora que os dois ou três leitores que ele costumava ter foram-se embora com as mágoas do passado, me pergunta por onde andei quando você me procurava (sic). A resposta mais crua é: aqui. Nada no contínuo espaço-tempo se interpôs entre este blog e seu autor senão a demasiada preguiça do mesmo de sentar e escrever algo pra variar. Talvez as coisas estivessem melhores se este fosse um emprego remunerado... mas isso não vem ao caso agora. A questão é que eu simplesmente não tive aquele estalo que temos de ter para escrever uma crônica por vontade própria - como se verifica em certas colunas de certos jornais, escrever uma crônica a contragosto quase sempre dá terrivelmente errado - e acabou se formando uma zona de conforto. A minha vida está ótima, tudo bem, tudo bom, agora eu tenho até um tablet; quem precisa daquele blog?
O problema, leitor, é que o blog precisa de mim. E, por mais que eu tentasse fugir da realidade, ele continuava lá, num canto da sala metafórica em que se desenrolava minha (ainda facebookless) vida digital, me encarando com aqueles olhos pidões, pedindo para ser alimentado. Mais ou menos como meu cachorro na hora do almoço.
Ora, houve avanços. Por mais que o meu blog ainda esteja mergulhado em um irremediável anonimato, coisas aconteceram e podem ainda vir a acontecer. As condições astrológicas que me levaram à conquista daquele tal tablet, por exemplo, são por si mesmas vitórias no campo literário. Se o e-mail que estou esperando chegar (não o da crônica 8, que fique claro), tudo pode dar certo. Aconteceu até de um dia desses alguém na Alemanha visualizar meu blog. Quem sabe, então, eu não levo essa coisa pra frente mais um pouquinho? Eu já não sou mais um ser humano multirracial comum de 12 anos. Eu sou agora um ser humano comum de 13 anos, e, conforme fiquei sabendo hoje em Genética, não necessariamente multirracial. É tudo muito subjetivo, sabe?
Não é que eu queira reviver nenhum passado. Mas chega um ponto em que você não aguenta mais o blog te encarando de um lado e aquele livro que você pegou na seção de Contos & Crônicas da Saraiva te induzindo a escrever do outro. Chega um ponto em que você simplesmente senta e escreve algo pra variar. Esse ponto, leitor, calhou de cair hoje, logo depois do feriado, quando todos estão retomando aos poucos a rotina, fazendo mini-recomeços como aqueles que sustentamos por uma semana ou duas depois do Réveillon. Não poderia haver momento mais propício, por conseguinte, para retomar a redação de um blog como este, tão inoportunamente entitulado (alguém faz alguma ideia do significado real de "cronismo"?) e tão modernosamente diagramado, alterar o meu texto de apresentação, corrigir errinhos de ortografia em postagens antigas, comer mais proteína, falar mais com os amigos, terminar uma borracha, fechar os parênteses - em tempo, hopefully, de escrever uma crônica decente para o ano-novo. Muita coisa aconteceu de 14 de abril pra cá. Se eu não registrar tudo como se deve, quem o fará?
O Google, disseram-me, já vem registrando uma boa fração das coisas.
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