Olha, eu até entendo as pessoas que, na falta de uma piscina ou coisa que o valha, afastam as implicações de uma sensação térmica elevada descendo à borda do continente, se dispondo a ir a público seminuas e ocasionalmente se arriscando a, até que a maré suba, mergulhar em um mar de incontáveis fluidos não-identificados. O que eu não entendo, o leitor que me desculpe, são aqueles que o fazem em toda oportunidade que avistam, seja ela uma semana de férias, um feriado de quarta-feira ou duas horas a menos no expediente, faça frio ou faça calor, queiram os demais envolvidos ou não.
Não tenho nada contra as praias propriamente ditas; são lugares até simpáticos, dependendo da hora e do local (convenhamos que há praias e praias). Fosse este um mundo sem praia, muitos sairiam perdendo: os casais apaixonados; o patrimônio natural da humanidade; as indústrias de filtro solar; o cinema; as tartarugas. Mas, senhor leitor que desce de carro até a orla de Santos por opção na ausência do calor e de uma data justificável, procure entender o meu ponto de vista.
Praias, ao menos aquelas que o destino e a ocupação populacional irregular reservaram para nós, integrantes da tão famosa classe média, nunca foram lugares agradáveis para mim. Fico sempre à espera de um acontecimento estarrecedor, seja ele um tsunami, uma bolada, um arrastão ou um siri; estremeço só de imaginar todas as partículas estranhas ali e no mar salgado presentes; nunca fiquei muito confortável em apresentar-me em trajes de banho para passeios em locais públicos; além de tudo, não sou fã de água-de-coco.
Já são fatores suficientes para justificar minha aversão um tanto compulsiva às áreas litorâneas comuns ao público. A isso, some o fato de que todo paulistano parece preferir ir à praia sempre que se vê livre da labuta. O resultado, os engarrafamentos humanos que tomam as areias do litoral paulista a cada feriado, é praticamente um sinal de "Pare" para alguém que, como aquele que vos fala (escreve), não é inclinado às multidões, principalmente às multidões em trajes mínimos.
Os meus assuntos não-resolvidos com as bordas continentais não param por aí. Sempre que eu e os meus, em um de nossos devaneios excessivamente otimistas, nos perguntamos onde passar o resto de nossas vidas caso um prêmio das Loterias Caixa venha a nos agraciar, eu evito locais com vista para o mar - o leitor menos informado deve entender que há uma chance de, até 2050, o gelo das calotas polares derreter com o efeito estufa e ir parar nos litorais, dando um ponto final à história de vida de qualquer casal apaixonado ou tartaruga que se meta a ficar por ali mesmo. Como eu tenho um fraco pela existência, fico com os que preferem não correr o risco e montar acampamento o mais longe possível do mar, mesmo ele sendo tão lindo e azul.
Seguindo essa linha de pensamento, eu tive até sorte de ter nascido cá em São Paulo, apesar dos pesares. Até que eu precise da SP-160 para servir a meus objetivos, não terei que me preocupar em bater de frente com o maldito litoral e as discórdias entre nós. Pois, fosse esse um mundo sem praia, muitos sairiam ganhando: os parques em visitantes; o dogma dos feriados em riqueza cultural; a Imigrantes em tranquilidade; os mares em condições biológicas; eu em simpatizantes. E o litoral, imagino, poderia descansar em paz.
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