E não é que, após anos especulando intensamente, as pessoas realmente acham que eu escrevo bem afinal de contas? A constatação me atingiu quinta-feira passada, dia 10, mais ou menos às 23h, no teatro do campus Indianópolis da Unip, na Avenida José Maria Whitaker, 373, Mirandópolis, São Paulo.
O negócio é mais ou menos o seguinte: todo ano, o Objetivo (sim, eu estudo no Objetivo) faz esse concurso literário conhecido pela enxuta sigla CLICO, em que todos aqueles sujeitos classe-média-alta/bolsistas que estudam em Objetivos de Alphaville ao Brooklin escrevem um texto livre em torno de um tema que varia anualmente, o que culmina no dia em que, após os referidos textos atravessarem várias camadas burocráticas e só alguns sobreviverem para contar a história, é realizada uma noite de gala na Vila Mariana na qual ficamos sentados por duas horas e pouco torcendo uns contra os outros enquanto nossos pais passam o tempo filmando aqueles que vão ao palco cantar e dançar. No fim de tudo, os autores dos cinco textos de cada categoria etária que mais agradaram o júri - que sempre é exclusivamente feminino - são agraciados com um aparato tech da moda, um livro do Rick Riordan e a publicação de seu texto em um livreto de folhas semi-plásticas que é distribuído na saída, além do direito à bazófia e do ódio coletivo dos demais participantes e dos colegas de classe que cobiçavam o tal aparato tech.
Acontece de eu já ter saído vencedor do tal CLICO, logo que entrei no Objetivo, dois anos atrás. À época, os elogios de familiares e professores não foram poucos e os problemas descobertos no Windows Vista de meu prêmio também não. Falou-se do quão oportuno meu texto tinha sido ao tratar de um blecaute, quando, alguns meses após ele ter sido escrito e alguns meses antes da premiação ocorrer, deu-se um grande blecaute de fato na metade sul deste país.
Isso me levou a temer as consequências de escrever um texto muito negativo sobre o tema "Água" no ano seguinte, mas eu o fiz, ignorando as possíveis consequências de minha poesia ter mais poder do que eu podia compreender. Felizmente para minha consciência, afogamento não se tornou uma causa de morte significativamente mais comum no aftermath e eu ainda fiquei em quarto.
Um ano se passou.
E chegamos em 2011, ano do meu ingresso na categoria Sênior, também conhecida como a categoria peso-pesado do concurso. O tema era um convite ao clichê: "Brasil". É claro que, como tudo que há de bom no país, a burocracia protelou o anúncio dos vencedores pra o final do ano, quando o texto foi por nós escrito em meados de maio.
Meses se passaram, a vida foi sendo vivida, e Novembro chegou, assim tão de repente que eu até já me esquecera do concurso em questão. Tudo ótimo; segundo a melhor fonte a que eu tinha acesso, que atende pelo nome de Professora Tal de Português (seu nome será omitido para evitar desconfortos no jurídico), eu tinha, afinal, garantido uma lasca do prêmio: os vinte e cinco finalistas foram divulgados, e meu nome estava lá no meio novamente.
Continuei vivendo, tentando ignorar o momento em que tudo mudaria, mas ele deu as caras antes que eu tivesse tempo de me preparar psicologicamente para a minha provável eliminação precoce - que jurado que tema a possibilidade de perder a credibilidade daria o prêmio ao mesmo infeliz duas vezes no espaço de três anos? -, e de repente eu estava no shopping comprando uma roupa nova para a cerimônia.
O dia chegou, enfim, e tudo transcorreu como deveria. Após atravessar uma noite cheia de surpresas, um infarto era iminente, tanto para mim quanto para o resto da minha torcida composta primariamente por familiares e afins. Acabando, após duas rodadas de eliminação (que não tinham esse nome no cronograma), por ficar sabendo que eu estava entre os dois primeiros colocados, eu comecei a torcer por um segundo lugar - ao que me parecia, a segunda colocada da categoria etária inferior tinha ganhado um notebook, e eu realmente precisava de um novo; esse meu ainda tem Windows Vista!
O segundo lugar não veio. E eu passei tão rápido pelo palco quando enfim chamaram meu nome, no final da solenidade, que comentou-se nos bastidores que fora difícil bater uma foto minha apertando a mão do coordenador-geral de Português.
E, como de costume, a primeira coisa que perguntaram no dia seguinte foi qual era o prêmio. Lembra do tablet da crônica 17? Pois é.
Por fim, eu acordei no sábado com uma tosse em decorrência do que meus pais chamaram de "emoções muito fortes". Não pude contra-argumentar, fato; embora eu tivesse passado a sexta-feira enxergando defeitos em meu próprio texto, como é de praxe em escritores que relêem material seu meses após ele ter sido escrito, se eu realmente sou alguém digno do primeiro lugar duas vezes sob condição de possível linchamento da comissão julgadora, quer dizer que me acham, realmente, um bom escritor. E, por enquanto, ainda que na ausência do Windows 7, isso basta.
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