segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O meu iPod

É um mal cada vez mais comum no Brasil, e, se você padece dessa síndrome, leitor, não vejo outra opção senão engolir e tocar adiante. Assim é a vida: para eles, os despreocupados, os sagitarianos, os cariocas, Deus reservou dias e noites tranquilos, possibilidades e uma sorte inacreditável, enquanto nós, os cabeças-quente, os perfeccionistas, os paulistanos, fomos relegados à obsessão sem causa, aos sonhos intranquilos, às responsabilidades e à Lei de Murphy - e, em cima de tudo, à irreversibilidade de nossa condição.
        Não o digo em vingança contra nenhum despreocupado, sagitariano ou carioca que cruzou meu caminho, tampouco em desabafo pelos desprazeres dessa vida de neuroses e preocupações. O que me atribula é a súbita consciência que tomei da minha situação, no momento em que me vi livre de uma das suas inúmeras ingerências em meu cotidiano; o momento, para ser mais exato, em que iniciei a transferência de músicas da minha biblioteca para o tablet.
        Uma das maiores provas de minha neurose crônica e sem justificativa é o dogma que rege a seleção de músicas que chegam até meu iPod. A regra é clara, como diria Arnaldo César Coelho: 1) cada artista deve ter oito músicas, nem mais nem menos, o que significa que uma música, por melhor que seja, não pode ser adicionada sem que outras sete do mesmo artista também sejam dignas; 2) o número de artistas femininos e masculinos deve ser o mesmo; 3) as músicas adicionadas não podem ter sido compostas para trilhas sonoras de filmes ou seriados; 4) deve haver um número igual de músicas por idioma (até agora, todas são in english, então tudo bem); 5) as músicas devem vir de discos lançados de 1996 para cima; 6) faixas com qualquer tipo de ligação com o filho do Fábio Júnior são terminantemente proibidas.
        É tão desnecessário quanto soa, tão excessivamente burocrático quanto soa, e tão limitativo quanto soa, mas, por motivos que jamais fui capaz de entender, não consigo me desvencilhar do hábito de sair pesquisando a obra do artista no site da Amazon antes de começar a correr atrás dos finalmentes (as faixas, que fique claro). Minha vida torna-se mais complicada e o botão "Next" torna-se mais desgastado com as regras que, sabe Deus ou o diabo por quê, eu impus a mim mesmo desde o início do processo. Quantas vezes já não tive de escolher entre duas músicas de um artista, ou me forçar a ouvir determinada faixa do Michael Bublé de que eu nem gosto muito quando estou mais para Lily Allen, ou até mesmo cancelar completamente um artista de meus diretórios musicais por falta de material suficiente? Quantas vezes eu já não me flagrei sonhando com uma vida sem fronteiras e um iPod sem regras? E por que, oh meu Deus, por que eu não faço nada a respeito?
        Já pensou se todos decidissem seguir o mau exemplo? O iTunes se tornaria um cartório, e uma vez que até nossa mais particular fonte de entretenimento fosse forçada a adaptar-se a padrões, seria uma questão de tempo até a vida tornar-se um mar burocrático, oprimido sem intervalo pela rígida fiscalização e por desumanismos como a  categorização e a ordem alfabética; no mais, tudo perderia a graça e nós eventualmente nos pegaríamos vivendo em um caos da ordem, tal e qual uma repartição pública. E, ainda assim, eu continuo invariavelmente adicionando um par de artistas de cada vez.
        E eis que, assim de repente, o tablet aparece na minha vida, vazio e pronto para ser preenchido com quaisquer faixas, e eis que eu tenho a oportunidade de começar do zero e fazer direito. Do dia para a noite, eu fui de um obcecado por organização com um tocador de MP3 desnecessariamente organizado para um obcecado por organização com um tocador de MP3 com não mais que a organização devida - tudo bem que uma geringonça de sete polegadas de diagonal não cabe no bolso, mas, enquanto houver sol e enquanto houver uma tomada de três pinos num raio de três metros, eu poderei ouvir música sem me preocupar com os próximos 2 artistas que pesquisarei no site da Amazon.
        A vida agora é mais simples, o tempo começa a sobrar com mais frequência, tudo flui e de repente tudo pode continuar fluindo; o meu cotidiano, com todas as ingerências de minha situação, agora pode se descomplicar gradualmente; em breve, talvez, a medicina ocidental encontre uma cura e nós, cabeças-quente, perfeccionistas, paulistanos, seremos felizes para sempre a ouvir Lily Allen, ou, se estivermos mais a fim, Michael Bublé. E então, tudo estará melhor - com a provável exceção, lastimavelmente, do meu iPod.

Nenhum comentário:

Postar um comentário