Não o digo em vingança contra nenhum despreocupado, sagitariano ou carioca que cruzou meu caminho, tampouco em desabafo pelos desprazeres dessa vida de neuroses e preocupações. O que me atribula é a súbita consciência que tomei da minha situação, no momento em que me vi livre de uma das suas inúmeras ingerências em meu cotidiano; o momento, para ser mais exato, em que iniciei a transferência de músicas da minha biblioteca para o tablet.
Uma das maiores provas de minha neurose crônica e sem justificativa é o dogma que rege a seleção de músicas que chegam até meu iPod. A regra é clara, como diria Arnaldo César Coelho: 1) cada artista deve
ter oito músicas, nem mais nem menos, o que significa que uma música, por
melhor que seja, não pode ser adicionada sem que outras sete do mesmo artista
também sejam dignas; 2) o número de artistas femininos e masculinos deve ser o
mesmo; 3) as músicas adicionadas não podem ter sido compostas para trilhas
sonoras de filmes ou seriados; 4) deve haver um número igual de músicas por
idioma (até agora, todas são in english,
então tudo bem); 5) as músicas devem vir de discos lançados de 1996 para cima; 6)
faixas com qualquer tipo de ligação com o filho do Fábio Júnior são
terminantemente proibidas.
Já pensou se todos decidissem seguir o mau exemplo? O iTunes se tornaria um cartório, e uma vez que até nossa mais particular fonte de entretenimento fosse forçada a adaptar-se a padrões, seria uma questão de tempo até a vida tornar-se um mar burocrático, oprimido sem intervalo pela rígida fiscalização e por desumanismos como a categorização e a ordem alfabética; no mais, tudo perderia a graça e nós eventualmente nos pegaríamos vivendo em um caos da ordem, tal e qual uma repartição pública. E, ainda assim, eu continuo invariavelmente adicionando um par de artistas de cada vez.
E eis que, assim de repente, o tablet aparece na minha vida, vazio e pronto para ser preenchido com quaisquer faixas, e eis que eu tenho a oportunidade de começar do zero e fazer direito. Do dia para a noite, eu fui de um obcecado por organização com um tocador de MP3 desnecessariamente organizado para um obcecado por organização com um tocador de MP3 com não mais que a organização devida - tudo bem que uma geringonça de sete polegadas de diagonal não cabe no bolso, mas, enquanto houver sol e enquanto houver uma tomada de três pinos num raio de três metros, eu poderei ouvir música sem me preocupar com os próximos 2 artistas que pesquisarei no site da Amazon.
A vida agora é mais simples, o tempo começa a sobrar com mais frequência, tudo flui e de repente tudo pode continuar fluindo; o meu cotidiano, com todas as ingerências de minha situação, agora pode se descomplicar gradualmente; em breve, talvez, a medicina ocidental encontre uma cura e nós, cabeças-quente, perfeccionistas, paulistanos, seremos felizes para sempre a ouvir Lily Allen, ou, se estivermos mais a fim, Michael Bublé. E então, tudo estará melhor - com a provável exceção, lastimavelmente, do meu iPod.
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