Eis mais uma prova de que o novo acordo ortográfico e os Jogos Pan-Americanos são uma combinação destruidora de lares:
- E então?
- Legal, filho.
- Só isso?
- Só, por quê?
- Eu esperava que você dissesse mais alguma coisa.
- Ah, o texto está bem escrito.
- E?
- E só.
- Só?
- Só. Você podia ter caprichado um pouquinho mais no layout.
- Lei o quê?
- Nada não.
- Tá ok.
- Ah, só mais uma coisa.
- Hã.
- Quadro de medalhas não tem hífen.
- Como não?
- Não tem, ué.
- Tem sim.
- Tem não.
- Claro que tem. É m termo só, tem um significado único. Quadro, hífen, de, hífen, medalhas.
- Não é não. Veja bem: "de medalhas" é adjunto. Não leva hífen.
- Leva, sim. "Casa-grande" leva, como é que hífen pode não levar?
- Por causa do "de".
- Que diferença faz o "de"?
- Torna composto, ou qualquer coisa assim.
- Não importa. Adjunto é adjunto. A regra é a mesma.
- Não, não é. Agora, com o novo acordo ortográfico...
- Peraí. Isso é por causa do novo acordo ortográfico?
- Não.
- Perdeu o hífen?
- Não...
- Era como, antes? Tudo junto, "quadrodemedalhas"?
- Não. Sempre foi separado e sem hífen.
- Pois mudou, então. Agora tem hífen.
- Nem é possível! Com o acordo, as coisas só perderam hífens.
- Pai, quem você acha que sabe mais do acordo?
- Hã?
- Até outro dia, você achava que "sanguíneo" tivesse trema.
- Aquilo foi um mal-entendido. Eu apenas...
- Você me fez escrever "guarda-chuva" sem hífen uma vez. Eu não vou deixar isso se repetir.
- Quando foi que eu falei pra você escrever "guarda-chuva" sem hífen?!
- Ah, não lembro, mas que falou, falou.
- Você está duvidando da minha competência ortográfica?
- Sim, bastante.
- Pois me dê este trabalho.
- Pra quê? O que é isso?!
- Isso é pra você aprender a não desafiar seu pai.
- Você tá maluco? Rasgar meu trabalho! Feito a mão!
- Não captou a mensagem? Meia quinzena sem McDonald's!
- "Meia quinzena"?
- Duas quinzenas!
- Não é mais fácil falar "uma semana" ou "um mês"?
- Tá se achando engraçado? Quatro quinzenas!
- Por que não trinta e oito, logo?
- Pois bem!
- O quê?
- Você que pediu!
- O quê?
- Não reclame.
- O quê?
- Baixou o vinil riscado, agora?
- Vinil?
- Pro seu quarto agora!
- Por quê?
- Pra você aprender a se comportar!
- Trancado no quarto sem fazer nada? Ótimo, vou aprender mais que na escola!
- Se não estiver gostando, eu paro de pagar e mando você para uma escola pública.
- Que seja! Eu nem sei pra que eu preciso saber que rochas magmáticas são formadas pelo acúmulo de sedimentos!
- É o contrário!
Solta-se um palavrão.
- Cuidado com a língua, menino!
Outro palavrão.
- Vai pro seu quarto!
- Não!
- Não?!
- Não! Você está sendo teimoso!
- Eeeu estou sendo teimoso?
- Isso mesmo! Você não tá pensando direito! Você tá ficando louco! Você tá ficando insuportável! Você não é mais meu pai!
- Não seja besta!
- Você não manda em mim!
- Chega!
- Chega nada! Eu não sou mais seu filho!
- Pois então... a recíproca é verdadeira!
- O que raios isso significa?!
- Eu é que não vou continuar pagando sua escola! Trate de procurar uma boa escola pública!
- É ruim!
- Ah, é, é?
- Eu vou pro meu quarto!
- Pois vai sair é deste apartamento e nunca mais põe os pés aqui!
- Se a mamãe conseguiu, eu consigo!
- Cale a boca!
- Eu nunca mais vou sair do meu quarto!
- Pois vai morrer de fome!
- Melhor que de raiva!
- Quem vai acabar morrendo de raiva sou eu!
- Então morra, morra!
- Perfeito!
- Que bom!
Vão cada um para um lado. Quase uma hora de silêncio se passa.
- Pai.
- Hã.
- Eu dei uma olhada no Google, e...
Nenhum comentário:
Postar um comentário