sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O hífen

Eis mais uma prova de que o novo acordo ortográfico e os Jogos Pan-Americanos são uma combinação destruidora de lares:
        - E então?
        - Legal, filho.
        - Só isso?
        - Só, por quê?
        - Eu esperava que você dissesse mais alguma coisa.
        - Ah, o texto está bem escrito.
        - E?
        - E só.
        - Só?
        - Só. Você podia ter caprichado um pouquinho mais no layout.
        - Lei o quê?
        - Nada não.
        - Tá ok.
        - Ah, só mais uma coisa.
        - Hã.
        - Quadro de medalhas não tem hífen.
        - Como não?
        - Não tem, ué.
        - Tem sim.
        - Tem não.
        - Claro que tem. É m termo só, tem um significado único. Quadro, hífen, de, hífen, medalhas.
        - Não é não. Veja bem: "de medalhas" é adjunto. Não leva hífen.
        - Leva, sim. "Casa-grande" leva, como é que hífen pode não levar?
        - Por causa do "de".
        - Que diferença faz o "de"?
        - Torna composto, ou qualquer coisa assim.
        - Não importa. Adjunto é adjunto. A regra é a mesma.
        - Não, não é. Agora, com o novo acordo ortográfico...
        - Peraí. Isso é por causa do novo acordo ortográfico?
        - Não.
        - Perdeu o hífen?
        - Não...
        - Era como, antes? Tudo junto, "quadrodemedalhas"?
        - Não. Sempre foi separado e sem hífen.
        - Pois mudou, então. Agora tem hífen.
        - Nem é possível! Com o acordo, as coisas só perderam hífens.
        - Pai, quem você acha que sabe mais do acordo?
        - Hã?
        - Até outro dia, você achava que "sanguíneo" tivesse trema.
        - Aquilo foi um mal-entendido. Eu apenas...
        - Você me fez escrever "guarda-chuva" sem hífen uma vez. Eu não vou deixar isso se repetir.
        - Quando foi que eu falei pra você escrever "guarda-chuva" sem hífen?!
        - Ah, não lembro, mas que falou, falou.
        - Você está duvidando da minha competência ortográfica?
        - Sim, bastante.
        - Pois me dê este trabalho.
        - Pra quê? O que é isso?!
        - Isso é pra você aprender a não desafiar seu pai.
        - Você tá maluco? Rasgar meu trabalho! Feito a mão!
        - Não captou a mensagem? Meia quinzena sem McDonald's!
        - "Meia quinzena"?
        - Duas quinzenas!
        - Não é mais fácil falar "uma semana" ou "um mês"?
        - Tá se achando engraçado? Quatro quinzenas!
        - Por que não trinta e oito, logo?
        - Pois bem!
        - O quê?
        - Você que pediu!
        - O quê?
        - Não reclame.
        - O quê?
        - Baixou o vinil riscado, agora?
        - Vinil?
        - Pro seu quarto agora!
        - Por quê?
        - Pra você aprender a se comportar!
        - Trancado no quarto sem fazer nada? Ótimo, vou aprender mais que na escola!
        - Se não estiver gostando, eu paro de pagar e mando você para uma escola pública.
        - Que seja! Eu nem sei pra que eu preciso saber que rochas magmáticas são formadas pelo acúmulo de sedimentos!
        - É o contrário!
        Solta-se um palavrão.
        - Cuidado com a língua, menino!
        Outro palavrão.
        - Vai pro seu quarto!
        - Não!
        - Não?!
        - Não! Você está sendo teimoso!
        - Eeeu estou sendo teimoso?
        - Isso mesmo! Você não tá pensando direito! Você tá ficando louco! Você tá ficando insuportável! Você não é mais meu pai!
        - Não seja besta!
        - Você não manda em mim!
        - Chega!
        - Chega nada! Eu não sou mais seu filho!
        - Pois então... a recíproca é verdadeira!
        - O que raios isso significa?!
        - Eu é que não vou continuar pagando sua escola! Trate de procurar uma boa escola pública!
        - É ruim!
        - Ah, é, é?
        - Eu vou pro meu quarto!
        - Pois vai sair é deste apartamento e nunca mais põe os pés aqui!
        - Se a mamãe conseguiu, eu consigo!
        - Cale a boca!
        - Eu nunca mais vou sair do meu quarto!
        - Pois vai morrer de fome!
        - Melhor que de raiva!
        - Quem vai acabar morrendo de raiva sou eu!
        - Então morra, morra!
        - Perfeito!
        - Que bom!
        Vão cada um para um lado. Quase uma hora de silêncio se passa.
        - Pai.
        - Hã.
        - Eu dei uma olhada no Google, e...

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