Há um ano e meio, voltar pra casa era a parte mais legal do dia letivo. Saíamos pouco depois do meio-dia, nos sentávamos na escadaria e esperávamos. Conversa vai, conversa vem, às dez pra uma ouvíamos uma buzina e avistávamos a van roxa passando pela lombada em frente ao portão. Juntávamos nossas coisas, nos despedíamos de nossos amigos e íamos até a van a passos lentos, eu arrastando uma mochila de rodinhas. Entrávamos, nos ajeitávamos, esperávamos os outros. E a partida era dada.
Descrevíamos sempre o mesmo caminho. Paradas eram feitas aqui e ali para deixar pessoas, mas a rota até em casa era sempre a mesma. Em alguns dias, o trânsito era maior, mas nunca demorava mais que meia hora pra chegar. E o tempo parecia passar muito rápido.
As conversas, quando não passavam de conversas, sempre eram boas. Pontos de vista múltiplos, vindos desde pré-universitários de um metro e oitenta do terceiro colegial até crianças de um metro e trinta do quarto ano do ensino fundamental eram os pilares que sustentavam os tópicos das nossas confabulações. Tagarelávamos sobre tudo, de política a música, de cinema a criminalidade, de viagens de fim de semana a nossos planos para o futuro. Contávamos piadas, ríamos, brincávamos, fazíamos comentários sobre o que tocava na rádio, criávamos indiretas, questionávamos uns aos outros de vez em quando, e nunca deixávamos de pôr a conversa em dia. Nos divertíamos. Respeitávamos uns aos outros e ouvíamos. O silêncio acontecia, mas era raríssimo, e até estranho. Pessoas da minha idade, pessoas bem mais velhas do que eu, e até pessoas mais novas eram comprimidas em três apertadas fileiras de bancos, mas nunca parecia ficar lotado.
Quando descíamos, havia ainda quatro ou cinco pessoas lá dentro. Chegávamos em casa risonhos, animados e com histórias para contar, tudo por causa da meia hora que háviamos passado dentro da van.
Hoje, um ano e meio depois e tendo avançado dois anos letivos, voltar pra casa é a parte mais desgastante do dia. Saímos pouco depois do meio dia, nos sentamos na escadaria e esperamos. Conversamos pouco e às quinze pra uma ouvimos a buzina da van roxa passando pela lombada em frente ao portão. Juntamos nossas coisas, damos um "tchau" geral e vamos até a van a passos lentos, eu com uma mochila nas costas. Entramos, nos apertamos, esperamos os outros. E a partida é dada.
O caminho nunca muda. Atravessamos um bom pedaço dos bairros ao redor antes de chegar em casa. Costumamos demorar mais de meia hora. E o tempo parece não passar.
Com o grupo de estudantes que vão para casa na van roxa alterado completamente, sobrando apenas eu e meu irmão do grupo original de um ano e meio atrás, a van deixou de ser um espaço descontraído e passou a ser o autêntico local público: Passamos o tempo todo apertados nos bancos que nos comportam, sendo que o menor movimento em falso pode significar um pisão no pé de alguém. Não há conversa, apenas o som do motor da van e dos ruídos da cidade, ensopados na trilha repetitiva da rádio que nunca muda. Ninguém fala além do necessário. Quando muito, ou seja, quando o rádio está desligado, nos alienamos em nosso próprio silêncio, tendo nossos fones de ouvido como parceiros, e a falta de ruídos internos é tanta que chega a ser tétrica. Ninguém aparenta conhecer ninguém e não sabemos nada sobre os outros além, no mais, de onde eles moram, mesmo que estejamos juntos no mesmo cubículo por quase um ano. Não se pode atender ao celular sem receber olhares. Dez pessoas de diversas idades ficam comprimidas em três fileiras de bancos, e parece não haver nenhum espaço sobrando. Para completar, o calor é escaldante.
Tudo o que se pode fazer é engolir a situação e esperar pela chegada da van ao nosso endereço. Moral da história: não se pode acreditar que lugar algum será feliz para sempre. Nem mesmo por um ano e meio.
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