Os contrastes são coisas fantásticas. O conceito de dois elementos diferentes convivendo próximos um do outro o suficiente para que se possa notá-los sem que haja conflitos de qualquer tipo já é algo em que se possa reparar mesmo sem o acréscimo de outros detalhes igualmente surpreendentes. Quando estes detalhes existem, os contrastes se tornam coisas mais fantásticas ainda. Por exemplo: Já é incrível observar o contraste que existe entre os cartazes de uma comédia e um terror lado a lado na bilheteria de um cinema, ainda que isso não deixe de ser até ordinário. Mas o simples fato de os dois filmes estarem passando no mesmo horário ou na mesma sala nos leva a uma nova onda de conjecturas e ideias. Detalhes.
A onipresença dos contrastes às vezes torna a sua observação ainda mais rica em surpresas e detalhes extraordinários. Todos os tipos de contrastes interferem indiretamente em nossa vida, e no entanto nunca paramos para perceber o quanto eles são impressionantes. E, nos escassos momentos em que o fazemos, o contraste entre o próprio contraste e a nossa indiferença o tornam ainda mais incrível.
O mais inexplicável, e talvez mais revoltante dos fatos é que os contrastes mais autênticos e estupendos não nos surpreendem tanto quanto os mais banais. Caminhamos pela rua enquanto olhamos para um prédio luxuoso vizinho de semicasas germinadas sem pintura e achamos isso comum. Vemos os rostos mais feios vestindo trajes finíssimos e achamos isso normal. Não nos alteramos ao ver passar um caminhão de lixo ao lado de um carro para duas pessoas. Quando vemos de um avião a cidade dando lugar ao vazio verde das áreas que a circundam, não temos reação além de notar e esquecer quinze minutos depois. Pode até ser que isso seja por causa da naturalidade e da habitualidade de todos esses acontecimentos, mas nenhum deles deixa de ser surpreendente. E, mesmo assim, uma pessoa vestindo uma meia de cada cor nos deixa mais estupefatos que qualquer um deles.
Alguns dos mais antológicos contrastes fazem parte da rotina da maioria das pessoas: Comer bananas, frutas das mais doces, como acompanhamento de uma feijoada; ouvir uma melodia de violoncelo com os fones-de-ouvido enquanto uma batida artificial toca a todo volume no rádio do carro, ou vice-versa; decidir entre um romancista clássico e um autor contemporâneo na escolha de uma leitura; comparar os números sorteados na loteria com a nossa aposta; navegar pelos canais da TV a cabo e parar em um programa educativo; ver na internet a imagem de um senhor milionário de mãos dadas com uma mulher quarenta anos mais nova; gastar horrores em um livro sobre economia. Contrastes, que alguns preferirão chamar de ironias, e que fazem parte do nosso dia-a-dia. Para alguns, nem tanto quanto para outros.
Os contrastes existem, mas estamos acostumados com eles e nossa vida não vai mudar quando um dá as caras na nossa frente. São acontecimentos extremamente peculiares, mas tão massivos numericamente que nem nos damos conta deles. Em outras palavras, olhe à sua volta. Você vai encontrar, no mínimo, uma pessoa vestindo uma meia de cada cor.
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