O que seria de nós sem a reciclagem? Tudo no mundo é reciclável, e o nosso futuro enquanto seres humanos integrantes de uma sociedade depende muito de aprendermos a reciclar. No mundo como o conhecemos, quem não recicla dificilmente cumpre com seus objetivos. O ato de reciclar resume toda a nossa sociedade, política, artística, estratégica e culturalmente. Claro que, de um certo ponto de vista, a reciclagem é imoral, mas o que é uma gota de óleo em uma ilha de lixo? Reciclar faz parte.
Do ponto de vista político, reciclar é uma arte. Reutilizar discursos, reusar campanhas, reciclar promessas, para, no fim das contas, reduzir as expectativas - eis o esquema do qual se compõe a arte de politicar. Uma promessa velha e jogada fora pode ser utilizada com consciência e, assim, junto com outras promessas sem futuro aparente espalhadas pelas lixeiras diplomáticas, compôr uma campanha política genuína. Pôr novamente em atividade algo que foi deixado para trás no passado, apenas com o intuito de dar continuidade ao ciclo infinito das promessas sem resultados que se reciclam a cada nova eleição e parecem mudar de cara: é preciso ser artista para ser capaz de algo assim. E o que é um político senão um artista com projeções?
Do ponto de vista artístico, reciclar é uma estratégia. "Nada se cria, tudo se copia" é a verdade soberana nas artes contemporâneas. Músicas com arranjos noventa por cento eletrônicos, filmes com os mesmos enquadramentos ganhando o Oscar de melhor fotografia todos os anos, a falta de uma época expressiva para as artes plásticas nos dias de hoje, clichês gritantes nos campeões de bilheteria, reality shows pipocando a qualquer pretexto, plágios frequentes no completo anonimato, a repetitividade daquilo que faz sucesso; mesmo o fato de a maioria das artes ser fruto de alguma inspiração baseada na obra, mesmo que não-artística, de outro, tudo é reciclagem artística: transformar o que já foi feito, aparar as pontas, jogar um tempero. É uma receita, uma estratégia, e dessa estratégia surgem a arte, os vídeos virais e as músicas que tocam nos iPods do mundo inteiro.
Do ponto de vista estratégico, reciclar é uma cultura. Planejamos nosso futuro tendo como molde o futuro dos outros; deixamos de cometer erros por nosso conhecimento dos erros alheios, e nos vemos daqui a trinta anos com a mesma vida de alguém que idolatramos ou de algum ricaço que invejamos ao ver passar na TV. Precisamos de um chão antes de decidir pra qual lado pisar. Mas nossos passos seguem o chão. E reciclar, estrategicamente, é o que todos nós, querendo ou não, fazemos. Pesquisar sobre os outros, refletir sobre os outros, seguir os passos dos outros por um tempo, e, quando nos deparamos com uma encruzilhada, fazer o que os outros não fizeram. Faz parte da nossa cultura, mas não deixa de ser uma estratégia completamente natural.
Do ponto de vista cultural, reciclar é uma
política. Vivemos para reutilizar aquilo que já foi feito, na maioria das vezes
sem dar importância a possibilidade de fazermos isso mal. "Alguém que faz
uma cadeira melhor não deve nada ao inventor da cadeira, eis a máxima que
esclarece a relação entre reciclagem e a forma como somos criados e vivemos
nossa vida. Estamos acostumados à repetitividade, e, inconscientemente,
manifestamos isso através de nossos apelos pela reciclagem do lixo e pelos
nossos dedos tamborilando copiosamente na mesa. Nosso cérebro não lida bem com
repetição. Por isso, algumas pessoas acabam surtando.
Tudo flui em direção aos três R's: Reduzir os inícios, reutilizar os meios e reciclar os resultados. Nossa sociedade depende da reciclagem, porque tudo no mundo é reciclável. E não temos como fugir disso. Sim, reciclar é imoral, mas a vida não é um questionário de múltipla escolha. Se fosse, poderíamos chutar a resposta. A vida é dissertativa, e para nos darmos bem temos que estudar bastante. Ninguém vai se incomodar se usarmos a mesma resposta que outra pessoa usou antes, contanto que esteja certa. Faz parte.
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